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Olá, estamos a ficar híbridos: o teletrabalho está semimorto e há muita gente chateada com isso

Inquérito da Comissão Europeia sobre o panorama do teletrabalho deve estar pronto em setembro mas um dos investigadores avança à CNN Portugal alguns dos resultados provisórios. Destaque: as empresas que operam em Portugal começam a demonstrar fascínio pelo trabalho híbrido - e lá fora não é muito diferente. Mas copiar o que se está a fazer além-fronteiras, nomeadamente as grandes empresas mundiais, pode penalizar Portugal - diz quem estuda o país

A Apple foi a última a aderir à tendência das multinacionais de obrigar os seus trabalhadores a regressarem aos escritórios em regime híbrido, isto é, três vezes por semana. A decisão de Tim Cook - semelhante à da financeira JP Morgan e à da Alphabet, dona da Google - já era para avançar em maio mas um pico de casos de covid-19 na Califórnia acabou por adiar os planos que, agora sabe-se, entram em vigor em setembro. Estas movimentações em Sillicon Valley não são consensuais - nem por lá nos EUA nem por cá em Portugal.

Nuno Boavida, que está a realizar um inquérito para a Comissão Europeia com o objetivo de perceber o impacto da alteração da organização do trabalho em Portugal, avança à CNN Portugal que “há uma tendência para essa hibridização” por cá. Os resultados do trabalho vão ser publicados na totalidade em setembro mas este professor e investigador nas áreas de Tecnologia, Comunicação e Risco na Universidade Nova diz já ser possível perceber que cada vez mais empresas estão a deixar de permitir que os seus empregados possam trabalhar totalmente a partir de casa, obrigando-os a picar o ponto algumas vezes por semana. São híbridos, portanto.

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Mas os resultados provisórios do inquérito indicam também que a idade, o sector e o cargo que exercem muda a opinião dos trabalhadores sobre estar ou não em casa a trabalhar. Desde já, os jovens tendem a preferir mais o modelo presencial do que quem está numa determinada empresa há vários anos. “Quem entra no mercado de trabalho precisa de criar uma rede de contactos, quer aprender com os mais velhos, sente a necessidade de socializar e também de sentir o que é ir todos os dias para o trabalho. Estes beneficiam de uma cultura presencial que já não tem tanto valor para quem já subiu dentro da empresa, que tem filhos e netos e que acabam por ter menos vontade de ir para o trabalho presencialmente. Preferem fazê-lo noutra localização”, afirma Nuno Boavida.

O investigador acrescenta também que as chefias de topo e intermédias em Portugal têm “mais interesse em estar em teletrabalho”, especialmente porque “deixam de ser sistematicamente interrompidos por colaboradores e porque a digitalização permite que reuniões e conferências possam ser mais eficazes”. Mas isto nem sempre significa que os trabalhadores que desempenham um papel hierarquicamente mais baixo tenham essa mesma oportunidade. Isto porque continua a existir nas empresas o “medo de que a cultura empresarial deixe de ser transmitida e isso provoque um efeito prejudicial na produtividade”. 

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"Um claro retrocesso em Portugal"

Em Portugal, são várias as empresas que já adotaram um regime híbrido, entre as quais a EDP, uma boa parte dos bancos - como BCP, Montepio ou Santander - e um grande números de consultoras, incluindo a KPMG - que permite entre dois e quatro dias por semana em trabalho remoto. Lá fora, as razões que levaram os diretores-executivos das grandes tecnológicas a mudar ou a cortar na totalidade o teletrabalho tiveram quase sempre que ver com os riscos para a produtividade. Elon Musk, que obrigou todos os trabalhadores da Tesla a regressar ao escritório, fê-lo porque crê que o oposto é “fingir que se trabalha”. Reed Hastings, da Netflix, também tem assumido uma posição antiteletrabalho. "Não vejo nenhum ponto positivo - não se ser capaz de se reunir pessoalmente, particularmente a nível internacional, é puramente negativo". A pandemia forçou Hastings a permitir o trabalho a partir de casa durante algum tempo, mas a gigante de streaming chamou os empregados de volta aos escritórios após o Dia do Trabalhador em setembro de 2021.

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Para Afonso Carvalho, presidente da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego e de Recursos Humanos (APESPE RH) e CEO do grupo EGOR, “há um claro retrocesso e, em Portugal, começam a surgir os primeiros casos de empresas que pedem aos colaboradores para regressar ao escritório”. Esta tendência, explica, tem afastado várias pessoas de empresas com políticas rígidas presenciais no momento em que são recrutadas. “As primeiras perguntas que fazem são sempre relativamente ao modelo de trabalho que a companhia tem e, especialmente após o desconfinamento, as pessoas estão a começar a escolher as empresas por causa da liberdade que dão a esse nível. A escolha já não recai só no vencimento e na cultura empresarial.”

Afonso Carvalho alerta também para o “perigo” das empresas portuguesas aderirem a tendências incorporadas por grandes marcas, como a Hugo Boss, que escolheu dias da semana específicos para os colaboradores estarem na empresa. “Definir um modelo único é um erro crasso e há essa tendência nas empresas. Isto tem provocado desânimo nos trabalhadores que têm necessidades diferentes e que se podem sentir prejudicados por serem forçados a ir para o escritório num dia específico.” Por isso, acrescenta, ir atrás das estratégias das marcas conhecidas, “que muitas vezes avançam e recuam nas suas políticas sobre o trabalho presencial”, pode corre mal. “Cada caso é um caso, cada empresa é uma empresa e cada área de negócio é diferente.”

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Regresso aos escritórios "esvaziou esperanças" dos ambientalistas 

Esta tendência de regresso aos escritórios também “esvaziou a esperança” de uma mudança drasticamente positiva a nível do controlo das emissões de gases de efeito estufa, como diz à CNN Portugal Francisco Ferreira, presidente da associação Zero e professor na área de ambiente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. “Foi por demais evidente que houve uma redução muito grande da queima de combustíveis durante os períodos de confinamento, mas atualmente a sensação que temos é de que tudo regressou aos níveis pré-pandemia. Assim, as expectativas de melhoria ambiental estão a esvair-se. As empresas acabaram por não fazer a mudança que se esperava - e que iria ter um impacto muito positivo a longo prazo.”

O impacto que Francisco Ferreira refere tem-se sentido principalmente a dois níveis: por um lado regressaram as reuniões e conferências internacionais, que “têm um peso muito grande porque estão sempre em casa muitos quilómetros, normalmente percorridos de avião e muitas vezes em Executiva” - o que representa um acréscimo de 2% a 4% de emissões quando comparado com a classe económica, segundo dados do Conselho Internacional para o Transporte Limpo; outro ponto de preocupação, diz Francisco Ferreira, é o “incremento das deslocações pendulares” casa-trabalho-casa, “onde realmente a redução dessas viagens, principalmente para quem utiliza o automóvel, podia ter tido um impacto muito grande a nível ambiental e na redução de emissões, do ruído e da melhoria da qualidade do ar”.