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Zolgensma. Foi em tempos o medicamento mais caro do mundo. Mas nasceu numa associação de ativistas

26 abr 2025, 22:01
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MEDICAMENTOS INOVADORES || A AFM Téléthon, nome da associação, que tem sede perto de Paris foi criada em 1958 por Yolaine de Kepper, mãe de sete filhos, quatro dos quais com miopatia Duchenne

O Zolgensma, o medicamento que em tempos já foi o fármaco mais caro do mundo, foi administrado em Portugal pela primeira vez a Natália Silva, uma bebé diagnosticada com atrofia muscular espinal de tipo 1 quando ainda não tinha um mês. Em todo o mundo, este medicamento, vendido na altura pela indústria com um preço de referência a rondar os dois milhões de euros, já terá salvado mais de quatro mil crianças. A descoberta deste medicamento não está, no entanto, na indústria farmacêutica, mas nos laboratórios de uma associação de ativistas, familiares de doentes e doentes de doenças raras pioneira na terapia genética.

A AFM Téléthon, nome da associação, que tem sede perto de Paris foi criada em 1958 por Yolaine de Kepper, mãe de sete filhos, quatro dos quais com miopatia Duchenne. Juntamente com outros pais revoltados pela falta de investigação da ciência e da medicina no campo das doenças neuromusculares, criam a Associação Francesa de Miopatia (AFM). A instituição cresceu e hoje tem três laboratórios de investigação e pesquisa a que chamam Genethon, o nome adotado para o primeiro laboratório criado em 1990.

O laboratório foi criado com os donativos do primeiro Téléthon, uma emissão televisiva de sucesso destinada a angariar fundos para a Associação. A partir daí, apostaram no desenvolvimento da terapia genética que visa corrigir os defeitos genéticos e contribuíram também para a descoberta do genoma humano.

Gérald Perret é o atual diretor dos programas clínicos. Sobre o preço milionário do medicamento que ali foi descoberto, ele lembra que nem sempre o valor de fachada é o que é pago pelos hospitais, mas não deixa de considerar que há algum aproveitamento naquilo que é cobrado. “Estamos a falar de um medicamento que custa muito a fabricar, o que pode explicar em parte esse preço. É preciso também ter em conta os custos de desenvolvimento que são muito caros. E depois há uma parte inflacionista que não está nas nossas mãos, com a qual não estamos confortáveis.”

Gérald Perret refere assim que estamos perante um processo caro, mas não tão caro. A terapia genética em que assenta o Zolgensma inspira-se nos vírus que conseguem levar ao coração das células a informação necessária para corrigir os defeitos e curar. “Utilizamos um vetor que é inspirado no que um vírus consegue fazer. São pedaços de vírus contruídos em laboratório que apenas conservam a capacidade de agarrar uma informação genética e transferi-la para um tecido particular. No caso em concreto (do Zolgensma), trata-se de um AAV 9 que tem a capacidade de poder atingir especificamente o sistema nervoso central e aí os motoneurónios que são os tecidos que têm de ser corrigidos no caso da atrofia muscular espinal,” explica o diretor de programas clínicos do Genethon, sublinhando a grande complexidade da terapia que, além disso, no final do processo permite aproveitar apenas uma pequena quantidade do produto.

Patrick Santambien, diretor do desenvolvimento tecnológico do Genethon, mostra que de um biorreator de 200 litros só saem 140 a 150 mililitros de produto. “Com esta quantidade vamos conseguir tratar poucos pacientes. Serão apenas alguns pacientes. Serão apenas dois ou três pacientes. O que explica os custos do tratamento.”

A terapia tem-se mostrado revolucionária permitindo conservar a informação genética para a vida. “O interesse da terapia genética é que, em teoria é um tratamento de uma única injeção, uma única vez. Uma vez que tratámos, uma vez que levámos a informação, a informação permanece nos tecidos. E, portanto, de maneira perene o paciente fica curado”, sublinha Perret acrescentando que tem “exemplos formidáveis” de crianças tratadas antes dos sintomas terem aparecido e que, já com 7 ou 8 anos, são agora meninos e meninas saudáveis como quaisquer outros.

O vetor inspirado nos vírus que deu forma ao Zolgensma foi criado em 2007 no laboratório Genethon da AFM Télethon e a patente foi, então, devidamente registada. O medicamento só foi, no entanto, aplicado no primeiro paciente em 2019. Durante todos esses anos foi o trabalho da indústria que descobriu a dose certa a ser aplicada em humanos. “A descoberta foi partilhada na comunidade científica entre 2009 e 2011. E depois, na época era impossível angariar fundos para fazer o desenvolvimento, não tínhamos os meios. A Associação não tinha meios para fazer o desenvolvimento que é imensamente mais caro que a pesquisa,” conta Gérald Perret. É então que a AveXis, comprada, entretanto pela Novartis, se interessa pela descoberta. A farmacêutica norte americana “reuniu mais de 450 milhões de euros e assegurou o desenvolvimento até ao pedido de autorização de introdução no mercado.” Nessa altura teve de negociar com o AFM e o CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica francês que contribuiu também para a descoberta sendo, por isso, um dos detentores da patente.

A negociação assentou na venda apenas de uma licença de comercialização do medicamento e não da patente. A concessão da licença é confidencial e não nos dizem quanto ganharam na transação. Mas asseguram que até hoje uma parte das vendas do Zolgensma vão diretamente para a AFM Téléthon prosseguindo o seu lema: inovar para curar. “Somos uma organização não lucrativa. Todos os euros que conseguimos a mais para além do financiamento da AFM é integralmente colocado na investigação e desenvolvimento dos outros produtos.”

Desde a sua fundação que a Associação tem sido financiada pela generosidade do público através das emissões televisivas, mas também do financiamento do Estado francês e de investidores que acreditam nos projetos. Hoje, contudo, já contam com uma forte parceria na indústria farmacêutica e atualmente têm vários fármacos no quadro da terapia genética em estudo. Sete estão em estudos pré-clínicos e 13 em fase avançada de estudos clínicos. Entre estes últimos está, já com sucessos evidentes, uma terapia para a cura da miopatia Duchenne, a doença que afetou quatro dos sete filhos da fundadora.

A terapia genética investigada na AFM Télethon está a revolucionar o mundo da medicina e está já a ser aplicada em muitas doenças. Os vetores em que assentam são usados também no tratamento com as células Car-T.

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