opinião
Investigador universitário doutorado. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, polarização e impactos nos direitos fundamentais

Em Nova Iorque a guerra material ganhou, mas as guerras culturais vão regressar em força

6 nov, 23:49

Zohran Mamdani é filho de uma circunstância social e cultural particular, uma espécie de ecossistema nova-iorquino que transita entre elites culturais e bairros economicamente desprovidos. Filho de um dos maiores politólogos e antropólogos africanos e de uma cineasta premiada, licenciou‑se em Africana Studies no Bowdoin College, no Maine. Mamdani é o cruzamento político entre estudos pós-coloniais inerentes ao pós-modernismo e à teoria crítica e um realismo legislativo acumulado como membro da Assembleia Estadual de Nova Iorque por Queens.

O underdog que saiu de uma projeção de 1% para se tornar Mayor-elect  da mais importante cidade do mundo, traz na bagagem uma forma de fazer política que traduzo por "institucionalismo carismático", uma combinação entre sentido de dever público, respeito pelas normas institucionais e constitucionais e, ao mesmo tempo, um apelo emocional progressista, não de pendor profético estilo "wokismo político" próprio da nouvelle gauche, mas um retorno às questões materiais, aos problemas das desigualdades económicas estruturais e sistémicas. Realidades tão centrais quanto inerentes ao modelo norte-americano da "terra das oportunidades", onde se confunde insucesso com fracasso ético e pessoal.

Sucede que Mamdani pretende trazer uma nova orientação à política, um esquerdismo com forte pendor social-democrata, humanista, multicultural e, em certa medida, radical e utópico, próprio das releituras contemporâneas do marxismo. O seu foco não são as batalhas culturais identitárias, mas as preocupações materiais inerentes ao custo de vida em escalada nos EUA.  A sua campanha enfatizou rendas congeladas, autocarros gratuitos, creches universais e impostos mais altos sobre grandes rendimentos.

No entanto, num país ainda marcado pela memória social e cultural da Guerra Fria e do combate ao comunismo, a orientação de Mamdani abre a porta ao retorno das guerras culturais, por mais paradoxal que isso possa parecer.

A capa do New York Post retratando Mamdani com a foice e o martelo, com a legenda "the red apple", com a letra "r" ao contrário para remeter à União Soviética, bem como as palavras de Donald Trump de que é preciso escolher "o comunismo ou o bom-senso", remetem-nos para o despertar das guerras culturais pelo coração da América, reacendendo a chama que alimenta o movimento MAGA – o dito cultural backlash, ou seja, a reação radical ultraconservadora de inspiração evangélica pela retomada da América para os "bons costumes" face ao que consideram ser o controlo das instituições do país – escolas, universidades, media, Hollywood, entre outros – pelo chamado "marxismo cultural", isto é, um progressismo radical que pretenderia redefinir a sociedade americana desde a base, com enfoque na família.

Mamdani apresenta-se, então, como símbolo potencial "perfeito" para esse combate identitário, na sua condição de imigrante, muçulmano e socialista, tocando nas "campainhas" do comunismo e do marxismo cultural, bem como da teoria da grande substituição e da ameaça islâmica.

Assim, por mais importantes que as questões materiais sejam – e de facto são – elas arrastam sempre uma corrente imaterial ligada à moral da "nação". A fatura da luz, a renda e o passe social rendem mais votos do que slogans. Se os Democratas tiverem a disciplina de ancorar a campanha em preços, salários e serviços, como fizeram Mikie Sherrill e Abigail Spanberger, sem abandonar os direitos civis, podem neutralizar o backlash. Mamdani oferece-lhes um guião simples: conquistar o quotidiano. Mas, para isso, ele próprio terá de se fixar num socialismo democrático realista, capaz de transformar a sociedade sem cair no despesismo; e aí começará o verdadeiro teste à sua vitória.

Colunistas

Mais Colunistas