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Esta startup usou IA para descobrir uma fonte oculta de energia limpa e abundante em pleno deserto nos EUA

CNN , Laura Paddison
21 dez 2025, 11:00
Zanskar via CNN
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A startup de energia geotérmica Zanskar utilizou inteligência artificial para descobrir uma reserva geotérmica oculta sob o deserto no oeste do Nevada

Nada na superfície desta vasta extensão árida do deserto do oeste do Nevada, nos EUA, dominada por montanhas imponentes e escarpadas, sugere sequer o que se esconde no seu interior. A alguns milhares de metros abaixo da superfície, porém, existe uma fonte oculta de abundante energia limpa - e foi descoberta de uma forma invulgar.

A startup Zanskar Geothermal & Minerals, com sede no Utah, EUA, anunciou que utilizou inteligência artificial (IA) para localizar um reservatório geotérmico com 121º Celsius sob esta faixa de terra. Deram-lhe o nome de “Big Blind” (local cego, em tradução livre), porque este tipo de local - que não apresenta indícios visuais da sua existência, nenhuma fonte termal ou géiser à superfície e nenhum histórico de exploração geotérmica - é conhecido como um sistema “cego”.

É o primeiro local cego descoberto pela indústria em mais de três décadas, explica à CNN Carl Hoiland, cofundador e CEO da Zanskar. “Durante décadas, temos ouvido que o potencial geotérmico está esgotado”, mas isso está longe de ser verdade, garante Carl Hoiland, que acredita que existem muitos outros locais escondidos por todo o oeste dos EUA.

A energia geotérmica tem o potencial de revolucionar o setor. Este tipo de energia oferece a tentadora perspetiva de uma enorme fonte de energia limpa para satisfazer a crescente procura. É praticamente ilimitada, produz muito pouca poluição climática e está constantemente disponível, ao contrário da energia eólica e solar, que são baratas, mas dependem da luz solar e do vento.

O problema, no entanto, tem sido encontrá-la e dimensioná-la.

Exige uma geologia específica: reservatórios subterrâneos de água quente ou vapor, juntamente com rochas porosas que permitem que a água se mova através delas, aqueça e seja trazida à superfície, onde pode acionar turbinas.

No final da década de 1970 e início da década de 1980, havia um grande entusiasmo em torno da energia geotérmica, com os gigantes do petróleo e do gás a investirem enormes quantias em perfurações para encontrar sistemas ocultos, explica Hoiland. Entretanto, em meados da década de 80, muitos começaram a desistir, desanimados pelos elevados custos e pelas baixas taxas de sucesso.

É um "problema clássico da agulha no palheiro", compara Joel Edwards, cofundador e diretor de tecnologia da Zanskar. "Não existe um único tipo de dados que indique a existência de um sistema geotérmico abaixo de si, mesmo que esteja mesmo em cima dele." Em vez disso, diz, existem múltiplos indicadores que são muito difíceis de reunir pelos seres humanos para determinar se existe um sistema.

É aí que entra a IA.

A perfuração em Big Blind durante o verão confirmou a existência de um reservatório geotérmico com 121º Celsius. Imagem: Zanskar

Os modelos de IA utilizados pela Zanskar são alimentados com informação sobre a existência de sistemas geotérmicos latentes. Estes dados são abundantes, uma vez que, ao longo do último século, muitos foram descobertos acidentalmente em todo o mundo durante perfurações para a procura de outros recursos, como o petróleo e o gás.

Os modelos procuram depois enormes quantidades de dados - desde a composição das rochas aos campos magnéticos - para encontrar padrões que indiquem a existência de reservas geotérmicas. Os modelos de IA “tornaram-se muito bons nos últimos 10 anos a extrair este tipo de sinais do ruído”, observa Carl Hoiland.

Uma vez encontrada uma potencial localização, o próximo passo para a empresa é perfurar o solo para confirmar a existência da reserva e se esta é suficientemente quente para gerar energia à escala comercial.

Foi exatamente isso que fizeram em Big Blind durante o verão, perfurando poços a profundidades de cerca de 823 metros, onde encontraram rocha porosa a 121º Celsius. A empresa sabe que o local tem, pelo menos, o tamanho mínimo necessário para suportar uma central geotérmica, mas ainda não tem noção de quão grande poderá ser.

Há também trabalho a ser feito para lidar com os processos de licenciamento e interligação à rede elétrica, mas a empresa estima que a primeira eletricidade possa ser produzida ali dentro de três a cinco anos.

A descoberta da Zanskar "é muito significativa", sublinha James Faulds, professor de geociências no Departamento de Minas e Geologia do Nevada. O professoer não trabalha com a empresa, mas dois dos seus antigos alunos de pós-graduação sim.

Segundo James Faulds, as estimativas sugerem que mais de três quartos dos recursos geotérmicos dos EUA são inexplorados. "Se melhorarmos os métodos para encontrar estes sistemas, podemos libertar dezenas e talvez centenas de gigawatts só no oeste dos EUA", indica.

Uma análise governamental de 2008, frequentemente citada no meio académico, estima que as reservas geotérmicas ainda não descobertas nos EUA poderiam fornecer cerca de 30 gigawatts de energia, o suficiente para abastecer cerca de 25 milhões de casas. Carl Hoiland acredita que o número real pode ser, pelo menos, 10 vezes superior.

Nos últimos três anos a explorar o oeste dos EUA, a Zanskar identificou muitos "hot spots" com as mesmas características de Big Blind, indica o CEO da empresa.

Big Blind foi o primeiro ‘local cego’ descoberto pela Zanskar, mas foi o terceiro local que a empresa perfurou e onde encontrou recursos comerciais. "Esperamos que dezenas, ou mesmo centenas, de novos locais cheguem ao mercado", estima Carl Hoiland.

Se a Zanskar conseguir manter os seus custos baixos, “isso contribuirá muito para atrair investimento”, afirma Sophia Bauer, gestora de projetos geotérmicos da Global Energy Monitor, uma organização sem fins lucrativos. A energia geotérmica tem uma grande vantagem porque pode aproveitar técnicas de perfuração já melhoradas pela indústria do petróleo e do gás, explica a gestora à CNN.

Outra vantagem tem dimensão política. “Nos Estados Unidos, o cenário atual é bastante favorável à energia geotérmica”, explica Sophia Bauer. Embora a administração Trump tenha reduzido drasticamente a energia solar e eólica, a energia geotérmica passou despercebida e espera-se que cresça rapidamente nos próximos anos, segundo um relatório de março da Global Energy Monitor, da autoria da própria Sophia Bauer.

Há muito espaço para crescimento. Os EUA lideram o mundo em energia geotérmica, representando cerca de 24% da capacidade instalada global, mas a energia geotérmica representa apenas 0,4% da matriz elétrica do país.

Alguns especialistas esperam que a energia geotérmica ajude a suprir a crescente procura de eletricidade dos centros de dados, muitos dos quais são utilizados para inteligência artificial. “Talvez tenhamos um futuro próximo em que a IA, impulsionada pela energia geotérmica, descubra ainda mais recursos geotérmicos!”, sugere Sophia Bauer.

A descoberta de Zanskar é o desenvolvimento mais recente numa era a que alguns chamam de renascimento geotérmico. Grande parte da atenção recente tem-se concentrado nas técnicas geotérmicas de última geração, que utilizam ferramentas avançadas da indústria do petróleo e do gás - incluindo a fraturação hidráulica - para perfurar poços muito profundos e criar artificialmente as condições necessárias para aproveitar a energia geotérmica.

Para Carl Hoiland, o trabalho da Zanskar mostra que a energia geotérmica convencional ainda possui um enorme potencial inexplorado.

Joseph Moore, geólogo da Universidade de Utah, admite que a IA pode ser um “divisor de águas” para o setor, desde que o seu sucesso na descoberta de sistemas geotérmicos ocultos possa ser replicado várias vezes.

“É o avanço mais recente para esta fonte de energia benigna e renovável”, sublinha Joseph, em declarações à CNN. “Francamente, é muito entusiasmante ver como tudo está a evoluir.”

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