O investigador e professor da Escola de Educação da Universidade do Kansas esteve em Portugal, no Oeiras Education Forum, onde criticou a educação uniformizada e falou da importância da inteligência artificial no sistema educativo
O académico Yong Zhao, investigador amplamente reconhecido pelo seu trabalho inovador na área da educação global e professor na Universidade do Kansas, defende que o sistema educativo deve valorizar a individualidade das crianças, valorizando a criatividade, as necessidades e os desejos de aprender de cada um.
“Não tenho boas notícias. (…) Décadas de reformas educativas ao longo dos anos não melhoraram o acesso e igualdade à educação”, começa por dizer, argumentando que essas reformas só trouxeram mais trabalho para os professores. “Como é que isto piorou? Más reformas”, resume.
“Não acredito que devamos ter um único currículo, todas as pessoas têm as suas forças e as suas fraquezas”, diz, sublinhando que “há muito tempo inútil que pode ser usado de forma útil” durante as aulas e criticando o modelo adotado por grande parte dos governos, que impõe que “todas as pessoas devem aprender o mesmo, no mesmo período, fazer o mesmo teste”.
“Julgamos muito as crianças pelo que elas sabem ou não sabem. Uma criança pode saber muita coisa, mas a da vizinha sabe algo que a sua filha não sabe e julgam a sua filha pelo que ela não sabe”, exemplifica.
“Queremos que as nossas crianças sejam empreendedoras. Não apenas pessoas que andam à procura de emprego, mas pessoas que criem emprego”, defende.
Yong Zhao é também crítico dos modelos de avaliação dos sistemas educativos e dá como exemplo o PISA (o programa internacional que avalia o desempenho dos alunos). Zhao defende que cada país deve adotar modelos de ensino únicos, defendendo que a uniformização não faz sentido quando as realidades são tão diferentes, até mesmo dentro dos próprios países. “Esta avaliação não reflete o que o mundo precisa. (…) É como se todos os restaurantes fossem baseados num único prato”, ataca.
IA, "um parceiro de aprendizagem"
Yong Zhao veio a Oeiras falar da aprendizagem num mundo em rápida mudança e não deixou de abordar a importância das novas tecnologias nos processos de aprendizagem. Olha para a inteligência artificial (IA) como um forte aliado no sistema de ensino: “A IA é um parceiro de aprendizagem”. Segundo Zhao, os professores devem ser “educadores humanos e não máquinas de educação” e que podem tirar partido deste avanço tecnológico. “Falando globalmente, cada professor está preocupado se a IA o vai substituir, mas eu acho que a IA vai tornar os professores mais únicos e devem deixar a IA fazer o que querem que ela faça”, argumenta.
Em suma, Zhao diz que é preciso “reinventar a nossa educação, os nossos professores, os diretores das escolas”.
Questionado sobre as dificuldades que muitas escolas sentem em Portugal em termos de desenvolvimento tecnológico, com falta de computadores e rede de internet pouco fiável, Yong Zhao atirou a responsabilidade de resolução do problema para os decisores políticos. “É um problema muito fácil de resolver. O pior não é ter os meios, é o que fazer com eles. Ter ou não ter os meios é uma escolha de investir ou não. Politicamente, é fácil de resolver, se o quiserem fazer”, considera.

