Instituto Nobel diz estar fora de causa retirar prémio da paz a Ximenes Belo

Agência Lusa , BCE
29 set, 18:55

O Vaticano impôs sanções disciplinares ao bispo timorense Ximenes Belo nos últimos dois anos, após alegações de que teria abusado sexualmente de menores no seu país nos anos 1990.

O Instituto Nobel da Noruega esclareceu esta quinta-feira estar “fora do âmbito de competências do Comité” retirar o Nobel da Paz a Ximenes Belo, suspeito de abusos sexuais de menores, e escusou-se a comentar o caso.

“O Comité [do Nobel] muito raramente comenta o que um laureado com o Prémio da Paz pode fazer ou dizer nos anos após receber o prémio ou sobre o que um laureado pode ter feito no passado sem relação com o seu esforço premiado”, afirmou Olav Njølstad, diretor do Instituto Nobel norueguês, em Oslo, em resposta à Lusa.

“Em geral, está também fora do âmbito de competências do Comité retirar um prémio uma vez atribuído. Os estatutos da Fundação Nobel excluem esta opção”, acrescentou Njølstad.

O jornal holandês De Groene Amsterdammer publicou na quarta-feira testemunhos de alegadas vítimas de abusos sexuais, quando eram menores, crimes que terão sido cometidos durante vários anos pelo bispo timorense, enquanto administrador apostólico de Díli.

O Vaticano impôs sanções disciplinares ao bispo timorense Ximenes Belo nos últimos dois anos, após alegações de que teria abusado sexualmente de menores no seu país nos anos 1990.

Em comunicado, o porta-voz do Vaticano disse que o gabinete que lida com casos de abuso sexual recebeu alegações “sobre o comportamento do bispo” em 2019 e, no prazo de um ano, tinha imposto sanções.

Estas sanções incluem limites aos movimentos do bispo e ao exercício do seu ministério, bem como a proibição de manter contactos voluntários com menores ou com Timor-Leste.

Carlos Filipe Ximenes Belo, laureado com o Nobel da Paz em 1996, é hóspede há vários anos da Província Portuguesa da Congregação Salesiana em Portugal.

Estas medidas iniciais impostas pelo Vaticano foram “modificadas e reforçadas” em novembro de 2021 e em ambas as ocasiões Ximenes Belo aceitou formalmente o castigo, acrescentou o comunicado de Matteo Bruni.

A edição online do De Groene Amsterdammer explicou que o jornal ouviu várias vítimas e 20 pessoas com conhecimento do caso de abusos sexuais de menores, incluindo "individualidades, membros do Governo, políticos, funcionários de organizações da sociedade civil e elementos da Igreja".

"Mais de metade das pessoas conhecem pessoalmente uma vítima dos abusos e outros têm conhecimento do caso. O De Groene Amsterdammer falou com outras vítimas, que recusaram contar a sua história nos ‘media’", escreveu a jornalista Tjirske Lingsma.

Casos remontam a 2002

O jornal noticiou ainda que as primeiras investigações a este alegado abuso remontam a 2002, quando um timorense denunciou que o seu irmão era vítima de abusos.

Em novembro desse ano, Ximenes Belo anunciou a sua resignação do cargo, alegando problemas de saúde e a necessidade de um longo período de recuperação.

"Estou a sofrer de fadiga mental e física, o que requer um longo período de recuperação", referiu então Ximenes Belo, num comunicado em que informava ter escrito à Santa Sé solicitando a renúncia do cargo de administrador apostólico de Díli, função que exercia desde 1983.

"Tenho vindo a sofrer de esgotamento, cansaço físico e psicológico, pelo que necessito de um longo período de repouso em vista de uma recuperação total da minha saúde", referia o comunicado, citado então pela Lusa.

Ximenes Belo, hoje com 74 anos, explicou que o seu pedido - escrito com base no Cânone 401 do código de direito canónico - foi aceite pelo então papa João Paulo II.

Na quarta-feira, o representante do Vaticano em Timor-Leste disse à agência Lusa que o caso estava com os órgãos competentes da Santa Sé, sem confirmar se o prelado foi ou não investigado.

"Pessoalmente não posso nem confirmar nem desmentir porque é uma questão de seriedade da minha parte, visto a competência ser dos meus superiores na Santa Sé", disse à Lusa Marco Sprizzi, representante do Vaticano em Timor-Leste.

"Esta questão deve ser dirigida diretamente à Santa Sé", referiu, quando questionado sobre a veracidade das denúncias de alegados abusos de menores cometidos ao longo de vários anos por Ximenes Belo, atualmente a residir em Portugal, que foram publicadas pelo jornal holandês.

Relacionados

Mundo

Mais Mundo

Patrocinados