Xi vai encontrar-se com Putin. Seis respostas sobre o que está em causa e o que pode resultar deste encontro

15 set, 06:23
Putin e Xi Jinping

É a primeira viagem do líder chinês em dois anos e meio

1. Qual a importância desta viagem de Xi Jinping?

Muita. Há dois anos e meio que o presidente chinês não saía da China, num longo isolamento internacional provocado pela pandemia de covid-19. Nestes dois anos e meio o mundo parou com a pandemia - que teve a sua origem na China -, e voltou a ficar em suspenso com a invasão russa da Ucrânia - que não mereceu até hoje a condenação da China. Esta deslocação tem, por isso, a importância dos momentos definidores. O primeiro destino de viagem de Xi Jinping seria sempre lido pelo significado do “onde” e do “quem”: qual o país ou região escolhidos, e quais os interlocutores com quem Xi se encontraria.

A escolha da Ásia Central, e da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), diz muito sobre as prioridades internacionais do líder chinês. O encontro com Vladimir Putin à margem da cimeira, também.

Pequim foi a última capital estrangeira onde Putin esteve antes da invasão russa da Ucrânia. O líder russo foi o convidado de honra da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro, quando as tropas de Moscovo já se estavam a concentrar na fronteira com a Ucrânia, para a invasão que começou duas semanas depois. Apesar disso, Xi e Putin proclamaram ao mundo a amizade “sem limites” entre os dois países. Agora, com a guerra já com seis meses, sem que a China alguma vez a tenha condenado, essa amizade e cooperação “sem limites” é posta à prova, num momento em que a Rússia continua a enfrentar o isolamento ocidental e as suas tropas começam a perder terreno e a dar sinais de fraca moral e pouca capacidade para enfrentar um conflito prolongado.

O encontro Xi/Putin será mais uma oportunidade para a China se comportar como se nada de especial se estivesse a passar. “Business as usual” tem sido a regra chinesa, seja nas relações comerciais com a Rússia, que dispararam, seja na cooperação militar, que se mantém. 

Numa altura em que o mundo volta a dividir-se em grandes blocos, a escolha do palco da OCX também é significativa. Com a Rússia isolada pelo Ocidente e a China sob pressão dos seus dois principais parceiros comerciais (EUA e UE) para que não apoie Moscovo, Xi e Putin voltam-se para a Eurásia, o terreno entre os dois continentes, onde russos e chineses têm vários aliados na retórica anti-ocidental.

São também algumas das geografias mais relevantes do ambicioso projeto chinês de investimentos em infraestruturas, a Belt and Road Iniciative, também conhecida como “Nova Rota da Seda”. A ambição chinesa de tecer uma rede de cumplicidades com países da Ásia, Eurásia, Europa e África, financiando grandes infraestruturas rodoviárias, ferroviárias e portuárias, que em última análise beneficiariam as exportações chinesas, tem sofrido com os percalços da pandemia, da crise económica, e do regresso do espírito de Guerra Fria. Pequim quer dar um novo impulso a esse projeto, mas as condições agressivas de alguns desses investimentos e empréstimos começam a levantar muitas dúvidas sobre as suas reais ambições. E o equilíbrio delicado de Xi na questão ucraniana também está a fazer soar campainhas.

2. O timing desta deslocação é relevante?

Muito, pelas razões apontadas acima. Mas há mais. Num momento crítico do conflito na Ucrânia, Xi reafirmará a parceria sino-russa ao mesmo tempo que, em Nova Iorque, decorre a 77ª Assembleia Geral da ONU, que estará de olhos postos na agressão russa à Ucrânia e nas suas consequências.

E há também um calendário de política interna chinesa a ter em conta. A 16 de outubro arranca em Pequim o importante congresso do Partido Comunista Chinês, que só acontece de cinco em cinco anos. Este, já se sabe, será palco de um acontecimento que era improvável: Xi será reeleito para um terceiro mandato, que não devia acontecer. As regras do PCC impunham um limite de dois mandatos mandatos seguidos para o secretário-geral, para além de colocarem como idade limite os 68 anos - Xi eliminou a regra do limite de mandatos, e irá impor o limite de idade para todos os dirigentes do partido, menos para si próprio. Nos bastidores, consta que é feroz a disputa pelos lugares-chave que sairão deste congresso, que ditará quem irá governar nos próximos cinco anos, e com que políticas. Xi tentará ocupar todos os postos com os seus mais próximos, tentando afastar quem lhe possa fazer frente, como fez nos últimos dois congressos. 

Não estará em causa apenas a escolha dos rostos para os próximos cinco anos, mas também a futura sucessão de Xi Jinping - quando quer que ela aconteça (e, neste momento, Xi não dá qualquer espaço para especulações sobre esse assunto).

Enquanto se medem forças longe de olhares indiscretos, a viagem de Xi, precisamente quando falta um mês para o início do congresso, passa um sinal de força, segurança e autoridade - o líder máximo do PCC mostra-se tão seguro sobre o desfecho do conclave que até se dá ao luxo de abandonar Pequim por alguns dias num momento crucial para o futuro do partido. 

3. O que é a Organização de Cooperação de Xangai?

Há quem lhe chame a anti-NATO. Houve um tempo, durante a Guerra Fria, em que esse estatuto era do Pacto de Varsóvia, a organização de segurança do Leste da Europa, liderada pela URSS e os países comunistas europeus satélites de Moscovo. Com a desintegração da União Soviética, também o Pacto de Varsóvia acabou em 1991. Só dez anos depois foi constituída a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), por impulso da China e da Rússia, integrando também as antigas repúblicas soviéticas do Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão. Na origem desta organização está uma outra, também promovida por Pequim: os Cinco de Xangai, fórum que tinha como objetivo a resolução de conflitos fronteiriços entre a China e quatro ex-repúblicas soviéticas (Rússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão).

Em 2017 juntaram-se à OCX a Índia e o Paquistão, e o Irão está em processo de adesão. A Turquia, não sendo membro, é um dos parceiros da organização, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, é esperado na cidade de Samarkand, onde decorre a cimeira.

Embora se apresente como uma organização política, económica e militar, esta última componente é a mais relevante, e a que chamará mais atenções no encontro desta semana. E não apenas por causa da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Ontem, dois dos países-membros da organização entraram em conflito direto. Houve troca de tiros na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão, reacendendo uma disputa que no ano passado quase provocou uma guerra aberta entre os dois países. Há notícia de incidentes em três locais distintos, que terão provocado dois mortos. Os dois lados acusam o outro de ter começado a agressão.

Estas trocas de tiros aconteceram poucos dias depois do regresso de outro confronto fronteiriço, entre a Arménia e o Azerbeijão. O embate entre forças dos dois países já terá provocado cerca de cem mortos. A Arménia não integra a OCX (ao contrário do Azerbeijão), mas tem o estatuto de “parceiro de diálogo”.

4. Como estão as relações entre a China e a Rússia?

Aparentemente, estão bem e recomendam-se. Em fevereiro, no seu último encontro ao vivo, em Pequim, Xi e Putin proclamaram que a amizade entre os dois países e a respetiva cooperação seria “sem limites”. Agora, é provável que a retórica mantenha a mesma exuberância, no sentido de mostrar que a parceria estratégica entre os dois países é imune às pressões ocidentais, e sobretudo dos EUA.

Indo além da retórica, os factos mostram um efetivo aprofundamento do alinhamento entre os dois países, do ponto de vista diplomático, político, económico e militar. No plano político e diplomático, a China continua sem condenar a invasão russa da Ucrânia, e repete todo o argumentário do Kremlin para justificar a agressão (e, tal como a Rússia, recusa-se a usar a palavra guerra). Pequim mostra compreensão face às supostas preocupações de segurança por causa da alegada expansão da influência dos EUA na Europa de Leste e da putativa adesão da Ucrânia à NATO (embora a NATO tenha, em devido tempo, vetado essa adesão). E, num quadro geopolítico mais alargado, Pequim partilha dos pontos de vista de Moscovo em relação ao “imperialismo” norte-americano e à necessidade de uma “nova ordem global”, multipolar, com russos e chineses a fazer contravapor à hegemonia dos EUA e à sua aliança com as democracias europeias e asiáticas. Porém, Xi sabe bem que a guerra iniciada por Putin, não só não enfraqueceu o poder de Washington, como fortaleceu as suas alianças, dando um choque vitamínico à NATO e reaproximando os norte-americanos dos seus aliados no Indo-Pacífico: o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia.

Do ponto de vista económico, agosto registou um recorde absoluto de trocas comerciais entre a China e a Rússia, alavancada pelo setor energético. A Rússia ultrapassou a Arábia Saudita como principal fornecedor de petróleo à China, que é o maior importador global de energia. Em agosto, o valor das importações chinesas da Rússia chegou aos 11,2 mil milhões de dólares, o que representa um crescimento de 59,3% em comparação com o mesmo mês de 2021.
Esta tem sido a principal ajuda que a China tem dado à Rússia, conforme Putin se debate com as dificuldades colocadas pelos embargos ocidentais em diversos setores. No caso da UE, o embargo parcial à importação de petróleo e gás russos ainda não entrou em vigor, mas Putin tem procurado desde já compensar a quebra, orientando as exportações para os gigantes asiáticos - com destaque para a China e a Índia. 

Na lista de compras chinesas, destacam-se o crude e o gás natural. Nos primeiros sete meses de 2022, a China comprou um total de 2,76 milhões de toneladas de gás natural liquefeito - avaliado em 2,47 mil milhões de dólares. Um valor que quase triplicou face ao período homólogo. Olhando só para o gás russo que chega à China pelo gasoduto Poder da Sibéria, aumentou 63,4% na primeira metade de 2022, de acordo com a Gazprom.

Também a cooperação militar entre os dois países dá sinais de reforço. Em maio, os dois países fizeram patrulhamento conjunto no Pacífico com bombardeiros estratégicos, o que fez soar os alarmes em Tóquio e Seul. Os bombardeiros de longo alcance russos e chineses foram acompanhados durante o seu percurso por caças do Japão e da Coreia do Sul. E no início deste mês milhares de soldados chineses integraram os exercícios militares da Rússia no Leste do país (Vostok 2022). Militares e equipamento pesado chinês participaram nas manobras aéreas, navais e terrestres ao lado das forças russas, nomeadamente em exercícios de tiro nas Ilhas Curilhas, cuja soberania é reclamada pelo Japão.

Em todos estes planos, a mensagem é clara: a parceria estratégica entre a China e a Rússia é para manter e reforçar, tal como Putin e Xi tratarão de reafirmar no seu encontro. Por muito que a guerra de Putin esteja a perturbar a economia global (com reflexos no fraco crescimento da China) ou a provocar um realinhamento das democracias contra os regimes autoritários, Xi não deixará cair Putin. E esta é a questão: ao contrário do que aconteceu ao longo de décadas, desde o final da II Guerra Mundial, desta vez não é a poderosa Rússia (então, União Soviética) que está a dar a mão à China. 

Os papéis inverteram-se. No passado, a URSS era a potência dominante na trincheira comunista, tratando muitas vezes a China como um parceiro menor (Estaline nunca disfarçou essa superioridade, facto que muito irritava Mao Tse Tung - e a atitude perpetuou-se pelos vários líderes soviéticos). Hoje, é a China a super-potência, e a Rússia aspira, quanto muito, ao estatuto de potência regional. É a China, não a Rússia, o rival estratégico reconhecido pelos EUA. E é a Rússia que precisa, mais do que nunca, do apoio chinês, em todas as frentes. A grande questão é se Putin conseguirá convencer Xi a auxiliar o esforço de guerra russo com munições e equipamentos de que o Kremlin precisa.

5. A pressão ocidental sobre a China está a resultar?

Sim. Ao fim de mais de meio ano de guerra, há poucas dúvidas de que a China se coloca do lado russo neste conflito - basta ver as suas votações na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança da ONU. Mas esse apoio político, diplomático e económico (os dois países estão até a estabelecer um mecanismo de pagamento das suas transações bilaterais em rublos e yuans, sem recurso ao dólar e ao euro) trava quando a questão é vender à Rússia o equipamento militar de que o Kremlin precisa, e que estará a adquirir a vendedores tão improváveis como o Irão e a Coreia do Norte.

Uma coisa é participar em exercícios militares conjuntos, coisa diferente é fornecer material de guerra ao seu aliado. Os serviços secretos britânicos e dos EUA têm relatado as tentativas do Kremlin para adquirir material de guerra em diversos países, e a China seria uma opção óbvia, tendo uma indústria militar robusta e moderna. Mas tudo indica que Pequim travou essa possibilidade, tendo em conta as ameaças dos EUA, UE e demais aliados. 

A mensagem do Ocidente foi clara: se a China contribuir para o esforço de guerra da Rússia, será alvo de sanções, tal como a Rússia tem sido. É claro que é muito mais fácil cortar relações comerciais com a Rússia, e isolar este país, do que com a China, que nas últimas décadas se tornou uma espécie de fábrica do mundo, de que o Ocidente é muito dependente. Mas as sanções à China tanto poderão recair sobre a compra de produtos chineses como travar o acesso de Pequim a tecnologia de ponta ocidental, nomeadamente aos semi-condutores de design norte-americano, de que a China é altamente dependente. 

A braços com uma forte travagem da sua economia - provocada pela crise global (e pela guerra na Ucrânia), mas também pela insistência na política de “covid zero” -, Xi não quererá arriscar embargos que possam agravar ainda mais o panorama económico do seu país.

6. O que pode resultar deste encontro entre Xi e Putin?

Muita retórica viril, muitas promessas de aprofundamento das relações bilaterais, muitos planos para contrariar a hegemonia global dos EUA e as “ameaças” da NATO. é possível que seja reafirmada a amizade e cooperação “sem limites” entre os dois países. Mas a grande questão é se a China arriscará sair de cima do muro e saltar para o lado russo à vista de todo o mundo, aceitando apoiar o esforço de guerra de Putin com armamento ou munições.

Os observadores internacionais apostam que não. Xi até pode estar no auge do seu poder dentro da China, a poucas semanas da sua entronização para mais um mandato que o colocará num patamar só comparável ao do fundador Mao - mas sabe que as tensões internas no seu país são muitas, desde logo pela pressão da economia. O modelo chinês das últimas décadas exige índices de crescimento da economia muito sólidos, de forma a garantir a paz social. A melhoria do nível de vida dos cidadãos tem como reverso um regime em que o partido controla toda a sociedade com mão de ferro - sem esse progresso económico, todos os equilíbrios podem ficar em causa.

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