Novidade criada pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, que falou com a CNN Portugal, é essencialmente uma reinvenção da versão do medicamento antiobesidade injetável Wegovy
O Financial Times noticiou aquilo que se pode vir a tornar numa revolução no modo como se trata a obesidade e controla o peso: um medicamento agonista dos recetores de GLP-1, mas que pela primeira vez tem uma administração oral e não injetável. Trata-se de um versão do já existente Wegovy, mas com o novo método de toma menos invasivo.
Esta evolução nos tratamentos de obesidade foi conseguida pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. A empresa adianta agora à CNN Portugal que o comprimido pode estar mais perto de chegar ao mercado do que o público ficou a achar depois da publicação dos resultados do ensaio. Isto porque o estudo de fase 3 com duração de 71 semanas foi efetivamente bem sucedido, com os participantes a demonstrarem perdas de peso significativas à 64.ª semana e agora só falta a aprovação da Food and Drug Administration (FDA) - a correspondente dos Estados Unidos à Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que aprova e regula os medicamentos vendidos no mercado norte-americano. Após a aprovação nos EUA, espera-se que a EMA também dê luz para a entrada no mercado europeu.
José Silva Nunes, professor na Faculdade de Ciências Médicas da faculdade NOVA Medical School e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), aplaude de pé este novo passo dado no tratamento da obesidade, porque "é sempre bom termos mais formulações disponíveis para o tratamento de uma doença que é tão prevalente".
"Esta formulação oral permitirá uma maior facilidade na adesão ao tratamento farmacológico para as pessoas com obesidade. Embora a administração subcutânea não seja tão difícil quanto isso, temos de reconhecer que é muito mais fácil abrir a boca e pôr um comprimido do que fazer uma injeção", explica.
A Novo Nordisk explica, em declarações à CNN Portugal, que "submeteu, em fevereiro, um Pedido de Aprovação de Novo Fármaco (NDA) para a formulação em comprimido de toma diária única do Wegovy® e que a revisão deste pedido por parte da FDA deverá estar concluída até ao final deste ano". A farmacêutica enaltece ainda que "atualmente, não existem formulações orais aprovadas de um medicamento GLP-1 para perda de peso".
Por estar momentaneamente sem diretor-geral desde que Paula Barriga foi transferida para o mesmo cargo na Novo Nordisk Espanha, a delegação portuguesa opta por remeter considerações sobre o novo Wegovy para a as palavras de Mike Doustdar, CEO da Novo Nordisk: "Confiamos plenamente na eficácia de Wegovy® em comprimido (semaglutido 25 mg), que, mediante a aprovação pela FDA (Food and Drug Administration), tornar-se-á o primeiro agonista oral de GLP-1 com efeitos consideráveis disponível para o tratamento da obesidade. Os resultados demonstram uma redução média de 16,6% no peso corporal. Estamos empenhados em garantir o acesso deste medicamento às pessoas que vivem com obesidade ou excesso de peso, inicialmente nos Estados Unidos, sem restrições de abastecimento".
José Silva Nunes explica, sem rodeios, que - sendo o Ozempic de uso exclusivo ao tratamento da diabetes tipo 2 - os fármacos mais eficazes no tratamento da obesidade disponíveis atualmente são o Mounjaro - da farmacêutica norte-americana Eli Lilly - e o Wegovy - da Novo Nordisk -, ambos com toma através de caneta injetável. O especialista lembra que, de acordo com o estudo "O Custo e a Carga do Excesso de Peso e da Obesidade em Portugal" de 2021 - elaborado pelo pelo Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE) e pela consultora Evigrade-IQVIA, com o patrocínio científico da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) e apoio da Novo Nordisk Portugal -, a obesidade e as suas comorbilidades inerentes custam ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) cerca de 1,2 mil milhões de euros. Sendo que em Portugal "nenhum tratamento para pessoas com obesidade é comparticipado", como expõe José Silva Nunes. "É um tratamento desigual desta doença em relação às outras doenças crónicas, mas é essa a realidade atual no nosso país", remata, em tom de crítica.
É por isso mesmo que José Silva Nunes defende que os tratamentos contra a obesidade como o novo Wegovy deveriam ser comparticipados pelo Estado: "Tudo leva a querer que, havendo comparticipação, haveria um gasto inicial por parte do SNS, mas a longo prazo haveria um retorno em termos de poupança, porque estas pessoas, melhorando a sua condição clínica, acabariam por não desenvolver muitas das doenças associadas à obesidade, nomeadamente a diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, apneia obstrutiva do sono, doenças osteoarticulares, um conjunto muito grande com mais de 200 doenças para as quais a obesidade é um fator de risco. Portanto, tratando a doença-mãe, consegue-se prevenir no desenvolvimento das outras doenças todas", explica.
"Este e todos os fármacos para tratamento de obesidade deveriam ter comparticipação por parte do Serviço Nacional de Saúde, porque é uma questão que atualmente se verifica de desigualdade social. Quem tem dinheiro tem todas as armas para tratar a sua doença. Quem não tem dinheiro, só com dieta e exercício físico, na maior parte dos casos não vai lá. Não estou a falar daquelas pessoas que querem perder dois ou três quilos para irem para a praia. Quem tem mesmo doença, sem ajuda farmacológica ou cirúrgica, não consegue resolver a sua situação", alerta o presidente da SPEO.
Os participantes que receberam fármaco alcançaram uma redução de peso corporal de pelo menos 5%. Quanto a efeitos secundários, os desarranjos gastrointestinais foram a principal queixa. O The New England Journal of Medicine alerta, no entanto, para limitações do estudo como o facto de 20% dos participantes não o terem acabado, a maioria dos participantes ser do sexo feminino e a ausência de uma comparação com a semaglutido com toma subcutânea (injetável) ou com uma dose oral com mais miligramas.
A Novo Nordisk destaca ainda que pessoas que tomam Wegovy têm vindo a revelar, através de inquéritos, que o medicamento é capaz de “suprimir os pensamentos indesejados e intrusivos sobre comida, além do efeito comprovado na perda de peso”, de acordo com 64% dos 550 inquiridos. A empresa defende ainda que a semaglutido oral na dose de 25 mg pode fornecer uma opção de tratamento alternativa à semaglutido injetável (2,4 mg) e à semaglutido oral em doses mais altas (50 mg) para pessoas com sobrepeso ou obesidade.
A nova forma de administração do Wegovy é composta por um comprimido cujo composto principal são 25 mg de semaglutido, precisamente a dosagem que foi utilizada no ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. Um total de 205 participantes foram aleatoriamente designados para receber semaglutido oral e 102 para receber placebo. No final, concluiu-se que "a semaglutido oral na dose de 25 mg uma vez ao dia resultou numa redução média maior no peso corporal do que o placebo em participantes com sobrepeso ou obesidade".
Para o o presidente da SPEO, o "caso mais gritante" é mesmo a diabetes tipo 2, em que a obesidade é responsável por 80% dos casos diagnosticados, sendo que, para além de "ter um impacto na qualidade de vida destas pessoas, tem um impacto económico marcadíssimo para o SNS". "Tratando a obesidade, estas pessoas não desenvolveriam diabetes, bem como todas as outra doenças, e o Estado pouparia imenso", sintetiza.
José Silva Nunes reconhece que seria incomportável para o SNS comparticipar medicamentos antiobesidade para os cerca de dois milhões de portugueses elegíveis com obesidade ou pré-obesidade, mas lembra que se podem sempre "afunilar os critérios para a aplicabilidade da comparticipação". Em tom de fecho, o presidente da SPEO lembra que "algo deveria ser feito, porque a verdade é que o benefício existe e é grande, mas também reconheço que neste momento o Serviço Nacional de Saúde também não estará com a melhor saúde financeira para comparticipar de uma forma alargada toda a população elegível".
Por fim, a Novo Nordisk revela que ainda não sabe quanto custará a nova versão em comprimido do Wegovy, nem se será mais barata do que no formato injetável. Outra decisão que para já não foi tomada é como se vai chamar este novo fármaco para o tratamento da obesidade, podendo inclusivo manter-se o nome Wegovy.