Porque gostamos tanto da dança da “Wednesday”?

CNN , Scottie Andrew
31 dez 2022, 19:00
Wednesday

Nada acontece por acidente com a Wednesday Addams. É o membro mais estoico e calculista da Família Addams, raramente faz movimentos desnecessários, inclusive sorrir e pestanejar

Quando o espírito da dança possuiu a adolescente tipicamente insolente durante o baile da sua escola na nova série da Netflix “Wednesday", gerou-se de imediato um grande alvoroço, no ecrã e fora dele.

A pequena cena tem menos de três minutos, mas tornou-se rapidamente o momento mais icónico da “Wednesday” pelo quão livre a nossa protagonista resmungona parece sentir-se. Os seus olhos revelam uma paixão rara e sinistra pelos movimentos. Os seus braços, tipicamente colados ao corpo, movem-se livremente. A dança é precisamente o que esperaríamos dela: uma mistura de movimentos e gestos bruscos de décadas passadas. Com certeza que ninguém iria confundir a dança da Wednesday por uma do TikTok, não é?

Esta dança peculiar desencadeou algo estranho dentro de todos nós, e rapidamente se tornou num dos tópicos mais falados no mundo inteiro. Pequenos trechos da coreografia inspiraram os espectadores a ver todos os episódios, tornando-a numa das séries mais vistas de sempre (“Stranger Things”, o quê?).

Por conseguinte, a sua popularidade online fez com que a “Bloody Mary” de Lady Gaga voltasse ao Top 10 mais de uma década após o lançamento da música. O mais impressionante é que a música só foi incluída nos TikToks feitos por fãs, não está presente na série!

Ao confessar que foi ela própria que coreografou a dança, Jenna Ortega, a atriz principal, inspirou novos fãs e celebridades a darem o seu próprio toque à coreografia com movimentos das suas próprias culturas.

A Wednesday Addams provavelmente ficaria apavorada se soubesse que os seus passos de dança se tinham tornado numa tendência online, mas talvez lhe agrade o facto de que a dança jamais cairá no esquecimento.

Descubra a magia por detrás da popularidade da dança de “Wednesday”.

A cena conta com o seu próprio mito

A cena de dança de “Wednesday” só estreou há um mês, mas já tem uma certa “mitologia”, disse Jenna Drenten, professora auxiliar de marketing na Universidade Loyola de Chicago que estuda a forma como os utilizadores do TikTok, e de outras plataformas digitais, expressam as suas identidades.

Grande parte da produção da cena foi desenvolvida longe das câmaras. Jenna Ortega, que interpreta uma Wednesday adolescente repleta de humor negro, revelou que foi ela quem coreografou a dança. Ortega contou que as suas influências para o desenvolvimento da cena foram Bob Fosse, Siouxsie Sioux, clubes de dança de góticos dos anos 80 e algumas cenas da série televisiva “A Família Addams” dos anos 60.

A dança de Wednesday conta com a banda sonora de The Cramps (Steve Kagan/Getty Images)

Além disso, Ortega admitiu que não é uma dançarina com formação, o que a torna a sua coreografia ainda mais apelativa para os não dançarinos que encontraram a dança no TikTok, afirmou Drenten.

“Não sou uma dançarina e tenho a certeza de que isso é óbvio”, confessou Ortega à NME.

Mas a dedicação de Jenna Ortega incitou alguma indignação. A atriz contou à NME que filmou parte da dança enquanto esperava pelos resultados dos testes covid-19, que mais tarde revelaram resultados positivos. Isto levou alguns a condenar a produção por não ter seguido os protocolos de prevenção adequados da covid-19 em estúdio, mas, mesmo assim, “Wednesday” continuou a fazer furor.

As tendências virais que persistem no diálogo cultural durante mais tempo acabam por ter um rumo diferente, comentou Drenten. Basta olharmos para o “Corn Kid” (Um menino apaixonado por milho): Apareceu no YouTube a cantar sobre o seu amor pela maçaroca, depois pequenos trechos do vídeo ficaram virais no TikTok e desde então tem vindo a trabalhar com a Chipotle, a Green Giant e o estado do Dakota do Sul, promovendo a comercialização de milho fora da Internet.

“Para terem uma maior longevidade, as tendências do TikTok têm de dar esse salto para serem uma tendência cultural fora da aplicação”, disse ela. “A dança da ‘Wednesday’ teve uma vantagem nesse sentido porque a dança e o legado da ‘A Família Addams’ tiveram origem fora do TikTok desde o início”.

A dança tornou-se um ritual partilhado

Outra coisa que a dança da “Wednesday” tem a seu favor: a tendência humana em aprender uma dança em prol do valor social.

Pense no “Electric Slide”, “Macarena", “Cupid Shuffle”, todas elas são as típicas músicas que encontramos em bat mitzvahs e casamentos, pois muitos de nós conhecemos os passos de dança suficientemente bem ao ponto de conseguirmos executá-los sem pensar. Dançá-los em grupo em eventos como estes pode parecer uma resposta pavloviana à escolha da música de um DJ, mas é também um ritual partilhado que fomenta “um sentimento de solidariedade e de pertença”, revelou Drenten, acrescentando que "cada gesto e movimento permite à pessoa que o realiza dizer inerentemente, ‘Percebo, estou a par, temos esta experiência partilhada’”.

Essa é parte da razão pela qual as danças de rotina, tal como o “Renegade” ou “About Damn Time” da Lizzo, dominam tão frequentemente o TikTok. Mas ao contrário dessas tendências, a dança da “Wednesday” não foi marcada por uma canção popular, embora o hino punk dos The Cramps “Goo Muck” tenha, desde então, conquistado alguns fãs novos. Os movimentos foram suficientemente fáceis de aprender, afirmou Drenten, “simples, mas únicos”.

A cantora Lady Gaga deu o seu próprio toque à dança da "Wednesday"

Mas foi Lady Gaga que levou a dança de “Wednesday” ainda mais longe. A versão que ficou super viral no TikTok é uma espécie de “fancam”, ou seja, uma compilação de vídeos da Wednesday, ao som de "Bloody Mary" de Gaga, uma ode bíblica à dança desinibida. Uns dias mais tarde, a cantora filmou a sua própria versão da dança enquanto usava duas longas tranças.

Desde então, milhões de utilizadores deram o seu próprio toque à dança da Wednesday. Alguns utilizadores incorporaram estilos de dança polinésios ou indianos nas suas versões, e outros vestiram-se de Wednesday e incluíram o Coisa (a mão desincorporada).

A Wednesday inspira-nos a ser esquisitos

O conceito de integração é antitético ao ethos de Wednesday, que nunca se preocupou em integrar-se nos meios que a rodeiam. Ela contenta-se perfeitamente com uma ilha isolada, onde existem inúmeros instrumentos de tortura dos velhos tempos e o sol nunca brilha. A atitude idiossincrática de Wednesday foi tão amplamente copiada ao ponto de comprometer o seu estatuto de santa padroeira dos esquisitos. A célebre personagem é copiada há décadas.

Wednesday Addams foi criada no final da década de 1930. Começou como uma personagem cómica sem nome, depois esteve presente numa série de TV, e em seguida, teve a sua aparição mais marcante no filme “The Addams Family” em 1991, interpretada por Christina Ricci. Os fãs de Wednesday têm vindo a vestir-se como ela há décadas, lembrou Drenten, inspirados muitas vezes pela representação de Ricci. A filha mais velha da família Addams já não é um segredo que os fãs podem esconder da cultura pop.

Desde a sua estreia, Wednesday tem sido um ícone idiossincrático para os solitários e góticos que idolatram a sua personalidade macabra. No entanto, ela ainda é uma personalidade atípica entre as mulheres e raparigas ficcionais, escreveu Emily Alford para Longreads, porque nunca se atenuou ou mudou em certos enredos da história. Ela é quem ela é, e não vai mudar.

“Ela trouxe para as telas uma autoaceitação mórbida que a distinguiu de todos os outros, e tornou-se numa inspiração crucial para uma geração de raparigas com um humor negro próprio”, escreveu Alford.

E agora, muitas dessas raparigas e outros utilizadores estão a encontrar-se no TikTok, onde comunidades de nicho podem florescer (ou alcançar outros utilizadores). A aplicação é um “espaço para as pessoas descobrirem quem são, e mais importante ainda, para encontrarem outras pessoas que partilham os seus mesmos interesses”, afirmou Drenten, mesmo que esses interesses envolvam o cosplay de uma certa adolescente macabra.

“O TikTok sem dúvida fomenta muita replicação e os utilizadores podem sentir pressão para agir, reagir, e ter uma certa aparência”, afirmou Drenten. “Mas a Wednesday relembra às pessoas que serem elas próprias neste mundo da mesmice é libertador”.

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