opinião
Professor Universitário e Doutor em Cibersegurança

Os 180 graus da Websummit Lisboa

3 nov, 09:34

Esta terça-feira foi o primeiro dia da Websummit. 

A Websummit é sempre um tema controverso por várias razões. Acho que a maior delas é o preço do ingresso para a comum pessoa, algo que ultrapassa no mínimo os 1000 euros. Ainda assim o evento enche e chegam participantes dos 4 cantos do planeta que se abeiram da porta numa fila que dá a volta a meia Expo. Enquanto se espera fazem-se contactos dos mais variados interesses; logo ali, para mim já se reembolsa meio bilhete.

Como dizia no ponto anterior, o tema da Websummit é sempre quente e basta seguir as redes sociais de relevo para perceber. Como sempre, nestas andanças eu sou um pouco suspeito para falar pois quando venho aqui é sempre para vir buscar soluções e respostas às questões que tenho... Bem, este ano é um pouco diferente porque entre palestras, mesas-redondas e júri numas quantas rondas para a melhor startup, vou andar a 1000 à hora mas, ainda assim, o objetivo é vir buscar soluções e prometo que este envolvimento não me ofusca o juízo nem me torna parcial. 

Esta posição de neutralidade é importante pois o evento é de facto magnânimo, o que leva a que várias coisas passem ao lado e que o foco se perca. Para quem está fora, perceber o valor da Websummit pode ser desafiante, mas quando se colocam os pés dentro do evento, rapidamente se percebe o seu valor, ao ser-se bombardeado com um fluxo leve de pessoas a querer partilhar o que os trouxe cá, acabando por se conhecer histórias de vida impressionantes como a que conheci ontem. Antes de falar do que vim cá procurar, vou falar da Pavi.

A Pavi veio à Websummit numa comitiva de 10 pessoas, todas elas cheias de curiosidade e todas elas fascinantes. Com mentes aguçadas e focadas no seu objetivo, correm todas as mesas do Fórum, uma área restrita para os convidados palestrantes e outros que tal, à procura de mentes como as delas. Foi exatamente a falar com o Engenheiro Carlos Moedas que vi pela primeira vez a Pavi, numa amena cavaqueira que cativou certamente o seu interlocutor. Eu não tive tanta sorte pois fui cumprimentar o Mayor de Lisboa para lhe roubar uma linha ou outra sobre o evento, mas morri na praia logo ao aperto de mão quando mostrei o jogo. Eu queria saber da importância da segurança informática e da privacidade dos dados para o autarca, mas fui tratado como um jornalista e convidado a colocar questões depois da sua contribuição em palco, pois aquele não era o espaço para isso. Mas era e será sempre, e talvez um dia ou talvez ainda aqui na Websummit consiga obter umas linhas dele. Agora percebo porque são tão persistentes e resilientes os jornalistas. Voltando à Pavi.

Depois da dança com Edil, sentei-me para tomar um café e dar uma pequena entrevista a um vlogger francês quando à minha frente se senta uma palestrante de olhos bem abertos e de mão esticada para me saudar. Com um sorriso de orelha a orelha, fiquei a conhecer uma jovem oriunda do Canadá, que é já uma personalidade no seu meio e que veio a Portugal mostrar o que faz. Com uma destreza e desembaraço que só me apareceu aos 35, ela rapidamente se apresenta e faz perguntas de toda a espécie, numa tática impressionante para que apanhasse o isco e fizesse eu as perguntas certas. Com um sólido discurso, mostra-me que trabalha com Nano Tecnologia na área farmacêutica, num projeto que envolve tomar umas cápsulas que mal chegam ao estômago libertam os nanobots que aderem aos órgãos destino. Nesse local ajudam a perceber em detalhe o que está mal e libertam a dose adequada de determinado medicamento. Eu não fiz figura fraca e despejei uma tonelada de questões que foram prontamente respondidas ad-hoc com uma precisão de relojoeiro. Ao fim de 40 minutos perguntei à Pavi pelo seu futuro, isto é, o que vai fazer a seguir. Ela rapidamente mostrou que está a trabalhar com reconhecimento de voz via smartphone para detetar doenças do foro neurológico e cardiovascular. Ainda a disfarçar a minha “alma parva”, voltei a perguntar sobre algo mais concreto a que ela respondeu: – Bem, tenho 16 anos e vou acabar o secundário para depois ir para a universidade, acho que aí saberei melhor. Eu, cheio de orgulho alheio, desejei-lhe boa sorte e tirei a foto que se vê a seguir. Despedi-me e vim embora do Fórum em direção ao palco central, com o coração cheio de esperança para o futuro (pelo menos durante algum tempo).

Pavi (Foto: Nuno Mateus-Coelho)

Ainda de alma quente, sentei-me numa cadeira a meia distância do palco principal, aquele onde todos almejam subir um dia pois é sinal que fizeram algo de notável com a sua vida e, com um pouco de sorte, também na dos outros. Na conversa com a Pavi perdi o timing e acabei por perder a luta pelos lugares da frente, para ver olhos nos olhos quem ia falar. Mais tarde fiquei grato de não ter chegado cedo. 

O ambiente estava quente e no palco estava o anfitrião, Paddy Cosgrave, a fazer as honras da casa, palco por onde já tinha passado momentos antes o Eng. Carlos Moedas, o surpreendente Sr. Ministro da Economia com um discurso direto, coeso, simples e até, digo eu, universal. Mas este discurso deixo para outro momento. Como dizia eu, o momento estava em alta, o anfitrião fazia o seu papel a puxar pela audiência anunciando números (este ano foram os maiores, em detalhe “71,033 attendees from 160 countries”). Rapidamente marca passo para o ano que vem no Brasil e a casa levanta-se ao rubro, anuncia que este ano o evento recebeu uma grande comitiva da Ucrânia; novamente a casa levanta-se a celebrar e acaba a agradecer aos anfitriões. Embora não se ouvissem grilos, se os houvesse certamente não escapavam aos meus ouvidos. Afinal o certame é em Portugal, mas a maioria dos participantes não são de cá. Como dizia eu, o ambiente estava efetivamente animado e eis que é dada a primeira novidade do dia. A Primeira Dama da Ucrânia, Olena Zelesnka, estava prestes a entrar no palco, arrancando um forte aplauso da audiência.

Num tom sereno, muito mais sereno devo acrescentar, a Primeira Dama inicia o seu discurso com a mensagem central da “Força que move o mundo”. Não foram precisos 5 segundos para que no Meo Arena se desse fé da queda de um alfinete ao chão. Num tom de voz sofrido e sem grande espetáculo, Olena teve uma conversa intimista connosco e ao mesmo tempo global. Na sua voz sentia-se dor, uma dor imensa, mas também se sentiam outras coisas, como um nó na garganta e uma voz trémula quando falava de crianças. Num discurso repleto de humildade e sem qualquer sobranceira, Olena mostrou-nos onde pode o mundo da tecnologia ajudar a Ucrânia e os efeitos que essa mesma tecnologia tem atualmente sobre a sua nação. Senti cada palavra da sua contribuição e posso dizer que não foi fácil para muitos ficarem impávidos e serenos neste momento. É quando um grupo de crianças aparece num vídeo a cantar em conjunto no fundo de um bunker no centro de Kiev que eu cedo e de facto não contive as lágrimas, mas na verdade nem eu nem quase ninguém ao meu lado. Para os ucranianos presentes na sala o momento foi muito duro e a sua dor era visível, em particular para um jovem casal à minha frente que sentiu cada momento e cada imagem das vítimas da guerra. Quando a Primeira Dama da Ucrânia termina, sai em ovação e com toda a gente de pé.

(Foto: Nuno Mateus-Coelho)

Não estava à espera de que o primeiro dia da Websummit desse tão vincadas voltas entre estados de alma, mas esse para mim é valor do evento. É vir sentir o que se passa no mundo de várias formas, sem ter de sair de Portugal. É não saber que a qualquer momento rodamos 180 graus, é não saber o que vem a seguir. Ainda hoje, já no segundo dia, vi enquanto membro do júri o desespero nos olhos de alguém a quem aqueles importantes momentos de Pitch falham categoricamente na forma de passar a mensagem e como isso teve um forte impacto. Também vi a felicidade quando outra startup recebeu o contrato da sua vida. Foi um primeiro dia caloroso e que já marcou o passo do resto da semana e certamente já valeu a pena a viagem a quem decidiu vir. Para mim valeu certamente.

Agora ao leitor, quando lhe disserem que não sabem o que ganha o país com este evento, se assim entender, poderá dar uma resposta recorrendo a este pequeno prelúdio. Mais que valor monetário, fruto do movimento turístico, ganhamos todos com o conhecimento empírico de quem cá vem e que este, apesar de ser rodeado e encamisado num belo rótulo, é também feroz e cruel quando assim tem de ser, pois crescer custa.

Lição do dia? “Nunca é tarde nem é cedo para começar, é apenas necessário fazê-lo.” Quem o disse foi a Pavi. 

Abraço e até breve.

Post Scriptum: Sobre o que vim cá procurar saber, falo amanhã.

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