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Neste futebol é proibido correr. E isso é capaz de ser o mais difícil

3 mai, 18:00
Treino de "walking Football" na Fundação Benfica (CNN)
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É uma das modalidades em expansão em Portugal: o walking football destina-se a pessoas com mais de 50 anos que queiram manter a atividade física ou apenas ter uma atividade em grupo e ao ar livre. A intensidade do jogo depende da capacidade física dos atletas. No Benfica, quase parece um jogo de futebol a sério. Nos torneios da Rutis - a rede de universidades sénior, o mais importante é o convívio. Para todos o principal objetivo é envelhecer com saúde e alegria

Nos seus 73 anos, Florinda fez “muita coisa”. Foi pastora, mulher de limpeza, dona de casa. Esteve 35 anos na Suíça e voltou a Portugal quando se reformou. Mas não parou. “Estou na Academia Sénior do Fundão vai fazer oito anos. Toco na tuna, nunca tinha tocado um adufe, mas aprendi. E também canto no coro, fazemos as marchas, os fantoches. Eu entro em tudo. Se puder, eu vou.” Foi assim que, um dia, em 2017, começou a jogar walking football. “Fui das primeiras a entrar.” Com calções e sapatilhas, Florinda, que nunca tinha jogado futebol na vida, encontrou alegria nos dribles e pontapés na bola. “Agora é que deixei por causa do joelho, fui mesmo proibida pelo médico. Mas ainda cá venho porque gosto disto”, diz. Mesmo sem poder jogar, Florinda acompanha a equipa, veste o equipamento e vai dar uma força aos colegas. “O convívio também é muito importante.”

Walking football - futebol a andar, o que é isso? Para muitos será ainda uma coisa estranha, mas a verdade é que o walking football (ou futebol a passo) é, como o nome indica, um futebol que se joga a andar. A modalidade surgiu em 2011, no Reino Unido, como uma alternativa para pessoas com mais de 50 anos continuarem a praticar desporto, reduzindo o ritmo, o contacto físico e o risco de lesões, enquanto se combate o sedentarismo e promove o convívio. A modalidade chegou a Portugal através da comunidade britânica, no Algarve e em Óbidos. Talvez por isso tenha mantido o seu nome original, em inglês. 

Florinda, de 73 anos, e Celeste, de 76, da Academia Sénior do Fundão, num torneio em Albergaria-a-Velha: "Tenho algum medo é de alguma canelada, mas a gente vai fazendo isto na desportiva", diz Celeste. "Parar é morrer."

O Benfica foi pioneiro no walking football em Portugal. Luís Alcobia, coordenador de desporto inclusivo da Fundação Benfica, recorda que as primeiras conversas começaram ainda em 2015, mas a modalidade só avançou realmente no ano seguinte. “Fizemos um seminário em Inglaterra, na formação do Tottenham, onde eles já jogavam, e percebi claramente que isto em Portugal ia explodir.” Porquê? “Porque juntava as três coisas que normalmente este tipo de população mais pede. Primeiro é um desporto ao ar livre. Depois é conseguirem voltar a jogar alguma coisa que já tinham jogado na infância e de que realmente gostam. E depois é o convívio, um interesse, algo que os ocupa.”

No início, o Benfica estabeleceu parcerias com algumas instituições - como a Santa Casa da Misericórdia, o Exército e a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica - para criar equipas e proporcionar encontros. Os primeiros eventos foram realizados em parceria com a Rutis - Rede de Universidades Seniores. “Chegámos a ter cerca de 80 a 90 equipas a jogar”, recorda Luís Alcobia. “Em 2018, tivemos cá o Walking Football Festival com cerca de 600 participantes. Depois desses primeiros três anos, com financiamento europeu, a modalidade seguiu o seu caminho normal, as federações começaram a olhar também para isto como um projeto com pernas para andar e foi integrado nas competições.” 

José Madrinha esteve nesse início. Nessa altura, trabalhava na área da comunicação no Exército e foi um dos responsáveis pela parceria com a Fundação Benfica. E também começou a jogar. “Joguei à bola a vida toda, em clubes pequenos”, conta José. “O jogar à bola, para mim, para além da parte física, era a amizade, o convívio, a interação uns com os outros, nas brincadeiras. Tudo isso era isso que me movia. Treinar depois do trabalho não é fácil, mas, como se diz, quem corre por gosto não cansa. E quando se é mais jovem há disponibilidade para isto tudo. Fui militar de carreira durante quase 40 anos e agora estou reformado a usufruir.” Agora, tem 63 anos e é um dos jogadores mais antigos de walking football do Benfica. “Ao princípio achava que era uma coisa só para gente mais velha mesmo, que ninguém se mexia e que para quem estava habituado a jogar durante tanto tempo a outro ritmo, era uma coisa que não ia dar certo”, recorda. “Afinal, enganei-me, porque, na verdade, quando é jogado em competição, não é brincadeira. É puxado para o cabedal também, e nós transpiramos e cansamo-nos como se estivéssemos quase a jogar futebol de onze.”

José Madrinha, 63 anos, ex-militar, jogador da Fundação Benfica: “Ao princípio achava que era uma coisa só para gente mais velha mesmo, que ninguém se mexia. Afinal, enganei-me".

José integra a equipa competitiva, que é composta maioritariamente por homens, na casa dos 60 e 70 anos, alguns deles ex-militares. O Benfica tem uma outra equipa, que é “lúdica”, ou seja, menos focada na competição, com pessoas um pouco mais velhas (o jogador mais velho tem 90 anos), e que tem mais mulheres do que homens. Luís Alcobia explica que a idade não é um fator distintivo, o que faz com que uma pessoa integre uma outra equipa é a sua forma física. “Na equipa competitiva temos pessoas que estão em boa forma física, alguns foram jogadores de futebol a nível regional, mas mesmo os que nunca jogaram sempre foram muito ativos. A outra equipa não tem essa componente competitiva e representa verdadeiramente o espírito do walking football, são pessoas que se querem manter ativas e que encontram nesta atividade algo que lhes faz muito bem, quer física quer psicologicamente.”

Tal como o Benfica, muitos outros clubes passaram nos últimos anos a ter uma ou mais equipas de walking football, quer na vertente competitiva quer na vertente recreativa. Além do Benfica, há mais quatro clubes da Liga com equipas de walking football: o FC Porto, o SC Braga, o Vitória SC e o Gil Vicente. Mesmo nos clubes mais pequenos as equipas treinam uma ou duas vezes por semana e participam em torneios organizados pelas associações distritais de futebol ou por outras entidades, como a Rutis, que promove o circuito Walking Football Portugal, com 92 equipas e quase mil jogadores. Neste momento, a modalidade tem já mais de 2.800 atletas em Portugal.

“Ao princípio havia poucas senhoras, tínhamos que convencê-las"

Passa pouco das 9 da manhã e já há um porco a rodar no espeto, o cheiro do assado a espalhar-se pelo campo relvado enquanto as equipas fazem o aquecimento. É uma quarta-feira cinzenta e estamos no Estádio Municipal António Augusto Martins Pereira para o 2.º Torneio Cidade de Albergaria. “No ano passado, tivemos 18 equipas, este ano só temos oito, é a crise, as juntas estão a poupar e sem os autocarros as equipas não conseguem vir”, lamenta Albérico Madaíl, o carismático presidente do Alba Saudade - a secção sénior do Sport Clube Alba, de Albergaria-a-Velha, responsável pelos torneios dos veteranos e pelo walking football.

Albérico Madaíl, presidente do Alba Saudade que organizou já dois torneios de walking football em Albergaria-a-Velha: “Para os homens, que ficam sempre com aquele bichinho do futebol, mas já não podem jogar como jogavam. E para as senhoras também. Isto é para toda a gente”

Albérico foi jogador de futebol e depois também jogou futsal, sempre à defesa. "Mas não era muito bom”, ri-se. “Até aos 60 anos, jogava todas as semanas com os amigos. Era uma maneira de nos encontrarmos e divertirmo-nos juntos. Depois começaram a aparecer as mazelas e tive de parar.” Um dia, viu uma reportagem na televisão sobre walking football e achou que seria uma boa ideia: “Para os homens, que ficam sempre com aquele bichinho do futebol, mas já não podem jogar como jogavam. E para as senhoras também. Isto é para toda a gente”, garante. “Ao princípio havia poucas senhoras, tínhamos que convencê-las a vir, mas agora já há mais.”

Depois de um jogo, Ana Pedro bebe água e come uma banana. Quem a vê, cheia de genica em campo, não imagina, mas Ana tem 76 anos e, até entrar para a Universidade Sénior, há já quase 20 anos, nunca tinha feito qualquer desporto nem sequer entrado num ginásio. “Fui toda a vida doméstica. Empregada doméstica e depois doméstica na minha casa. Tive dois filhos”, conta. Depois, achou que precisava de tomar conta de si também. “Comecei por ter uma aula de leitura, que foi espetacular, depois ginástica, música, temos um grupo coral muito bom, são muitas disciplinas, é bom para a saúde, para a memória.” Em 2019, experimentou o walking football. Ao início era a única mulher na equipa, mas não se importava. “São colegas espetaculares e a gente diverte-se imenso. Treinamos à terça e à quinta, de manhã. Ainda tenho uma aula de yoga às 8:20 da manhã de segunda-feira. É complicado, porque faço o trabalho da casa também. Mas felizmente até à data tenho muita vontade. Acho que faz muito bem a uma pessoa com a minha idade vir para estas atividades, acho que nos dão vida. E alegria.”

José Lourenço, de 71 anos, e Ana Pedro, de 76: "Acho que faz muito bem a uma pessoa com a minha idade vir para estas atividades, acho que nos dão vida. E alegria", diz Ana.

A seu lado, José Lourenço, de 71 anos, vai acenando com a cabeça em concordância. José trabalhou durante 49 anos - entre os 16 e os 65. Reformou-se em 2020, mas continua cheio de energia e está sempre pronto para dizer uma piada. “O engraçado do walking football é que nos rimos mais do que jogamos, não é?”, pergunta à companheira. José jogou futebol na juventude, “como toda a gente”, e ao longo da vida tentou ter alguma atividade física regularmente. “Fazia corrida e bicicleta, agora, por problemas de saúde, já só faço caminhada, mas faço diariamente, e os dois treinos de walking football.” Nos treinos, praticam “o domínio de bola, a troca de bola, o posicionamento em campo. E depois há uma coisa que eu acho engraçada, é que há malta que jogou, como eu e mais novos, está cada vez pior, e os que nunca jogaram estão a melhorar muito”, ri-se. “É que é difícil não correr”, explica. Ainda há duas semanas a equipa sénior foi jogar com uma equipa de miúdos de 18 a 20 anos. “E nós ganhámos 5 a 1! Os gajos tinham uma dificuldade enorme em coordenar os movimentos e em não correr. Sempre que um corria, o árbitro apitava, marcava falta. Eles levaram uma abada”, conta, divertido.

“Ao princípio é complicado não correr”, diz também José Madrinha. “O chip está noutra onda e nós, sem querer, vamos atrás da bola numa passada mais rápida e às vezes descuidamo-nos, isso acontece com todos.”

Principais regras do walking football

  • Os jogadores têm de ter mais de 50 anos (não há idade limite, há pessoas com mais de 90 anos a jogar)
  • Os campos mais pequenos (com as medidas de um campo de futsal)
  • Equipas com 5 (recreativo) ou 6 (competitivo) jogadores em campo 
  • No walking football recreativo não há guarda-redes
  • A baliza tem 3 metros de largura e 1 metro de altura (recreativo) ou 2 metros de altura (competitivo)
  • É proibido correr
  • A bola não pode subir acima da cintura (aproximadamente um metro)
  • Não pode existir contacto físico
  • Não existe fora-de-jogo
  • No walking football recreativo o golo só é válido quando o pontapé é realizado dentro da área da baliza
  • No walking football competitivo o jogo tem 60 minutos dividido em 3 ou 4 partes. No walking football recreativo, o tempo de jogo é flexível. A FPF define 40 minutos, com duas partes. Nos torneios da Rutis, os jogos têm 15 a 20 minutos.
  • O número de substituições é ilimitado

"O mais difícil é mesmo fazer com que não corram"

Sem corridas, saltos, rasteiras, carrinhos ou cortes, o walking football pode, à primeira vista, parecer fácil. Mas não é, garantem os participantes. “Parecendo que não, isto ainda cansa um bocadinho, há muita travagem, muita mudança de direção, é preciso saber dominar a bola. Não se pode correr, mas pode-se andar ao ritmo da marcha. Ou seja, a regra diz que só não podemos ter os dois apoios no ar. Mas a marchar ainda consigo fazer deslocamentos bastante rápidos”, explica Luís Alcobia.

Apesar de serem raras, às vezes também há lesões, porque,” eles querem esticar a perna para chegar a uma bola mais longe, acontecem algumas lesões musculares no remate, algumas entorses”, acrescenta João Araújo, que é treinador na formação do Benfica e também na Fundação Benfica, ou seja, trabalha sobretudo com crianças e jovens. Quando, há cinco anos, começou a treinar as equipas de walking football, confrontou-se pela primeira vez com o facto de ser mais novo do que os seus atletas. Foi preciso uma adaptação. “Na formação estamos a preparar jogadores de futebol, aqui o objetivo é diferente por isso a nossa atitude também tem de ser diferente”, explica. “Aqui o objetivo passa pelo envelhecimento ativo, combater o isolamento social, combater algumas doenças que possam aparecer devido à idade e à falta de exercício físico. No fundo, retardar o envelhecimento.” 

Os campos de walking football são mais pequenos. As balizas também. Sobretudo na vertente lúdica, onde não há guarda-redes.

Os treinos são adaptados à capacidade física da equipa. Por exemplo, na equipa competitiva é possível puxar um bocadinho mais pelos jogadores. “Estes treinos são mais intensos. O mais difícil é mesmo fazer com que não corram”, ri-se o treinador. “Eles ainda são bastante aptos fisicamente e, quando nós vemos uma bola passar à nossa frente, o instinto de quem alguma vez praticou futebol, é ir correr atrás da bola. Portanto, para eles é bastante difícil cumprir a regra principal. De resto, treinamos como se treina uma equipa de futebol, treinamos as ações técnicas ofensivas, as ações técnicas defensivas. E treinamos muito a parte das regras, fazemos muito jogo e marcamos as faltas e isso tudo para eles treinarem o não correr, principalmente o não correr, mas também o não haver contacto.”

“Aqui os treinos têm que ter muito jogo, eles querem jogar à bola”, acrescenta Luís Alcobia. Já na equipa não competitiva os treinos não passam tanto pelo jogo. “Explora-se muito mais a coordenação motora, fazemos alguns exercícios de equilíbrio e de coordenação dos membros superiores e membros inferiores, também para tentarmos fazer algum trabalho que depois os auxilie no dia-a-dia. Eles também jogam, mas a velocidade não é a mesma.”

"Às vezes vêm camionetas de 60 pessoas cheias"

Na bancada do estádio de Albergaria, um grupo de senhoras faz claque. Trouxeram cartazes, fitinhas coloridas, apitos, tudo para animar os jogadores em campo. “Não faço walking football porque os meus joelhos também já não dão para isso. Mas vimos sempre fazer claque. Somos da farra”, conta Piedade Coutinho, de 75 anos, uma das alunas da Universidade Sénior de Esmoriz. “Às vezes vêm camionetas de 60 pessoas cheias. Costuma ser uma claque grande. Hoje não tivemos camionetas, viemos de carro, por isso somos poucos, mas somos bons.” Palmira Henriques, de 77 anos, também é só jogadora de bancada. “Estou há quatro ou cinco anos na Universidade Sénior, não me lembro já bem. Gosto muito de lá estar. Estou na pintura, canto, temos grupo coral também. Vamos a muitos lados no grupo coral. E também gostamos de ver o walking foot ball. Gostamos de ver tudo, na verdade. A gente anda lá é para isso mesmo, é para viver e conviver”, diz Palmira, que não entra em campo, mas prepara bons petiscos para os colegas da universidade.

Animação na bancada onde está a claque da equipa da Universidade Sénior de Esmoriz: "A gente anda lá é para isso mesmo, é para viver e conviver”, diz Palmira

Entretanto, chegam alguns elementos do Grupo de Concertinas Mouquim e do Rancho Folclórico de Albergaria-a-Velha e entre modas populares e outras mais pimba, faz-se a festa na bancada e até os atletas aproveitam para dançar um pouco no intervalo.

Animação é com Maria Inês Barosa (“Não é Barbosa, é Barosa”, faz questão de sublinhar). Mesmo meio a coxear, lá anda ela de um lado para o outro, ora vai incentivar as colegas da claque, ora vai distribuir bananas e barritas de cereais aos jogadores. Antes de se reformar, Maria Inês foi empregada de escritório. “Adorava andar de bicicleta. Aliás, quando eu comecei a trabalhar, primeiro ia a pé. Eram três quilómetros. E depois o meu meio de transporte era a bicicleta. Era uma maravilha”, recorda. Quando na Universidade Sénior surgiu a oportunidade de praticar walking football nem pensou duas vezes. “Gostava muito de jogar mesmo. Adorava. Foi logo no princípio. Durei dois anos, talvez. Mas depois tive um problema nos joelhos…”, lamenta. “Tive que deixar, é a minha mágoa, mas tem que ser.” Agora é delegada de jogo, que é assim uma espécie de ajudante do treinador: “Tomo conta dos golos que entram, tomo conta dos apetrechos dos colegas e dos jogadores, faço o que é preciso”. Maria Inês fica no relvado e entusiasma-se com o jogo, puxa pela equipa, desespera com os golos falhados. Tem de se conter para não entrar por ali - não a correr, porque não se pode, mas a andar muito depressa.

Maria Inês Barosa já foi jogadora, mas teve de parar por ordem do médico. Agora é delegada de jogo. O importante é participar.

“Há rivalidade dentro de campo, que é saudável. Cá fora as pessoas convivem, vamos almoçar todos juntos"

Percebendo o potencial da modalidade, além dos torneios distritais, a Federação Portuguesa de Futebol começou este ano a organizar, na Cidade do Futebol, em Oeiras, torneios que juntam as melhores equipas competitivas de todo o país. O segundo torneio, no final de abril, juntou cerca de 300 atletas com uma média de idades de 61 anos. O Arões SC foi a equipa vencedora. O encontro serviu de preparação para a primeira edição da UEFA Walking Football EURO Cup 2026, que se realiza a 25 de junho, em Nyon, na Suíça, na qual Portugal estará presente. A seleção nacional de walking football será uma das oito equipas que disputarão o primeiro título oficial promovido pelo organismo que tutela o futebol europeu.

No resto do ano, “há competição, mas não há competição”, diz Luís Alcobia. “No walking Futebol, cada encontro é um encontro. E mesmo nos encontros é raro a gente promover algum vencedor. É muito parecido ao modelo competitivo para os miúdos mais pequeninos, em que os resultados dos jogos são celebrados, mas depois não se lançam, não se promovem. Porque o objetivo é que a modalidade cada vez cresça mais e cada vez haja mais equipas. Até mesmo a divisão entre lúdico e competitivo foi para conseguirmos ter um espaço para aqueles que querem competir, mas continuar a ter um espaço para aquela gente que quer só estar a fazer a sua atividade física e a conviver.” 

Helena Bento, 54 anos, foi jogadora de futebol, treinadora e agora é coordenadora do projeto "Para ti se não faltares" na Fundação Benfica. Rendeu-se ao walking football: "No início, uma pessoa tem tendência a correr, não a andar. Mas depois habituamo-nos.”

Ainda assim, nos jogos os ânimos podem exaltar-se, soltam-se uns palavrões, há quem saia do campo zangado porque as coisas não correram muito bem. “Nós gostamos de ganhar, como toda a gente. Mas isso não é o mais importante”, garante José Carlos Soares, 69 anos, jogador do Oliveira do Bairro. “O melhor de tudo é camaradagem de toda a gente. O facto de sermos uns para os outros, de brincarmos, do convívio que temos.” As zangas desaparecem quando se sentam à mesa para beber uma cerveja e comer uma sandes de leitão. “A competição é só durante o jogo, corrobora o treinador João Araújo. “Há rivalidade dentro de campo, que é saudável. Cá fora as pessoas convivem, vamos almoçar todos juntos, as equipas misturam-se, os treinadores misturam-se. Fora de campo é mais o convívio. E é também um componente bastante importante do walking foot, o convívio e combater o isolamento.” 

Os responsáveis pelo walking football enumeram os vários benefícios para a saúde por praticar uma atividade física e, sobretudo, por ser uma atividade em grupo. Numa idade em que muitas pessoas estão sozinhas, são viúvas ou estão longe da família, juntar-se a uma equipa de walking football pode mesmo ser transformador. 

Luís Alcobia sublinha ainda que, para os clubes, este tipo de atividades é importante, sobretudo para criar comunidade. “Temos pessoas do Walking Football que se tornam voluntários nas outras atividades da fundação, como o futebol adaptado. Um dos treinadores do Walking chegou aqui através do Wellcome Through Football, que é um projeto de apoio a jovens refugiados. Criam-se relações giras entre eles. E isto também traz para os clubes pessoas que antes estavam afastadas dos clubes.  Porque vêm os avós, os netos, os amigos. Todos podem participar em alguma coisa. E é para isso que os clubes devem servir, não é? Para todos termos um sítio em que possamos fazer parte.”

Maria de Lurdes, 74 anos, de Oliveira de Bairro: "Nunca na vida tinha jogado futebol. O mais difícil é o jeito de ajustar a bola, tiveram de nos ensinar, não é? E todas marcamos golos, eu e todas."
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