Cruéis e descartáveis: relatório secreto revela táticas brutais do Grupo Wagner na Ucrânia (e porque são uma ameaça única)

CNN , Tim Lister, Frederik Pleitgen e Victoria Butenko
25 jan, 08:00

Os combatentes do Grupo Wagner tornaram-se na infantaria descartável da ofensiva russa no leste da Ucrânia, mas um documento dos serviços secretos ucranianos, obtido pela CNN, mostra o quão eficazes têm sido em redor da cidade de Bakhmut - e quão difícil é lutar com eles.

O Grupo Wagner é uma empresa militar privada, também conhecidos como mercenários, dirigida pelo oligarca russo Yevgeny Prigozhin, que tem sido muito visto na linha da frente nas últimas semanas - e sempre rápido a reivindicar o crédito pelos avanços russos. Os combatentes do grupo estiveram fortemente envolvidos na tomada de Soledar, a alguns quilómetros a nordeste de Bakhmut, e noutras áreas ao redor da cidade.

O relatório ucraniano - datado de dezembro - conclui que o Grupo Wagner representa uma ameaça única em combate de proximidade, como o combate urbano, mesmo sofrendo baixas extraordinárias. "A morte de milhares de soldados da Wagner não interessa à sociedade russa", afirma o documento.

"Os grupos de ataque não se retiram sem uma ordem. A retirada não autorizada de uma equipa ou sem serem feridos é punível com execução no local."

Os telefonemas interceptados pela inteligência ucraniana e partilhados com a CNN indicam também uma atitude impiedosa no campo de batalha. Num deles, ouve-se um soldado falar de outro que tentou render-se aos ucranianos.

"Os wagnerianos apanharam-no e cortaram-lhe os testículos", diz.

A CNN não conseguiu autenticar de forma independente a chamada, que alegadamente terá tido lugar em novembro.

Yevgeny Prigozhin afirmou na semana passada que o Grupo Wagner era, provavelmente, "o exército mais experiente do mundo". Créditos: AP

Os combatentes feridos do Grupo Wagner são muitas vezes deixados no campo de batalha durante horas, de acordo com a análise ucraniana. "A infantaria não está autorizada a transportar os feridos para fora do campo de batalha, uma vez que a sua tarefa principal é continuar o ataque até que o objetivo seja alcançado. Se o ataque falhar, a retirada só é permitida de noite."

Apesar de uma indiferença brutal pelas baixas - demonstrada pelo próprio Prigozhin - o relatório diz que as táticas do grupo "são as únicas eficazes para as tropas mobilizadas mal treinadas que constituem a maioria das forças terrestres russas".

O documento sugere mesmo que o exército russo pode estar a adaptar as suas táticas para se tornar mais parecido com o Grupo Wagner: "Em vez dos clássicos grupos táticos de batalhão das Forças Armadas russas, são propostas unidades de ataque."

Isto seria uma mudança significativa na tradicional dependência russa de grandes unidades mecanizadas.

No terreno, de acordo com os telefonemas interceptados pelos serviços secretos ucranianos, algumas tropas mobilizadas dizem estar a pensar mudar para o Grupo Wagner. Numa dessas chamadas, um soldado compara o Grupo Wagner com a sua unidade e afirma: "É como o céu e a terra. Por isso, se é para ser f....., é melhor ser f..... lá."

O estilo de guerra do Grupo Wagner

O relatório ucraniano diz que o Grupo Wagner emprega as suas forças em grupos móveis de cerca de uma dúzia ou menos, utilizando lançadores de granadas (RPG) e explorando a capacidade de vigilância em tempo real dos drones, que o relatório descreve como "elemento chave".

Outra ferramenta ao serviço dos mercenários da Wagner é a utilização de equipamentos de comunicação da Motorola, de acordo com o documento.

A Motorola, empresa de telecomunicações norte-americana, garantiu à CNN que suspendeu todas as vendas para a Rússia e encerrou as suas operações no país.

Os condenados - dezenas de milhares recrutados pela Wagner - formam frequentemente a primeira linha de ataque e sofrem as baixas mais pesadas - até 80%, de acordo com o documento.

Seguem-se os combatentes mais experientes, com equipamento de visão noturna e câmaras térmicas.

Também para os ucranianos os drones são fundamentais para evitar que as suas trincheiras sejam atacadas. O relatório dá conta de um incidente em dezembro no qual um drone avistou uma unidade Wagner a avançar, permitindo que as defesas ucranianas a eliminassem antes de esta conseguir lançar granadas.

Se uma unidade Wagner conseguir tomar uma posição, o apoio da artilharia permite-lhes cavar trincheiras e consolidar os seus ganhos, mas essas trincheiras são muito vulneráveis a ataques em terreno aberto. E mais uma vez - de acordo com as ligações interceptadas - a coordenação entre as equipas da Wagner e os militares russos é muitas vezes inexistente. Numa das chamadas - mais uma vez não autenticada pela CNN - um soldado disse ao seu pai que a sua unidade tinha levado, por engano, um veículo Wagner.

Prigozhin insistiu repetidamente que os seus combatentes foram responsáveis, na última semana, pela captura da cidade de Soledar e das povoações próximas, os primeiros ganhos russos em meses. "Nenhuma outra unidade para além da Wagner esteve envolvida no ataque a Soledar", sublinhou.

O desempenho da Wagner é a forma de Prigozhin poder conseguir mais recursos e é fundamental na sua batalha contínua contra a teoria militar russa, que diz ser inepta e podre.

Segundo os serviços secretos britânicos, o chefe do Estado-maior militar russo, Valery Gerasimov, deu ordens para que os soldados russos fossem mais bem preparados. Prigozhin respondeu que "a guerra é dos diligentes e corajosos, não dos penteadinhos".

Sede do Grupo Wagner em São Petersburgo, na Rússia. Créditos: Maksim Konstantinov/SOPA Images/SIPA/AP

Comentando as novas direções de Gerasimov, o Ministério da Defesa do Reino Unido disse na segunda-feira que "a força russa continua a enfrentar um impasse operacional e pesadas baixas". "A prioridade que Gerasimov dá a ordens consideradas menores é susceptível de confirmar os receios dos seus muitos céticos na Rússia".

Gerasimov foi nomeado o comandante geral da "operação militar especial" da Rússia na Ucrânia no início do mês, após crescentes críticas ao progresso vacilante de Moscovo.

E enquanto o Ministério da Defesa russo apresentar um resultado abaixo do esperado, Prigozhin irá morder nos seus calcanhares e exigir mais recursos para a Wagner.

O grupo parece também ser capaz de obter armas por outros meios. Autoridades norte-americanas disseram na semana passada que a Wagner tinha obtido armas da Coreia do Norte. "No mês passado, a Coreia do Norte entregou foguetes e mísseis à Rússia para utilização da Wagner", disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby.

O novo Rasputin?

Prigozhin não tem falta de ambição. Ao apresentar-se em Soledar na semana passada, afirmou que a Wagner era provavelmente "o exército mais experiente do mundo".

Disse também que as suas forças já tinham vários sistemas de lançamento de mísseis, as próprias defesas antiaéreas e artilharia.

Prigozhin fez ainda uma comparação subtil entre a Wagner e a rigidez de comando do exército russo, dizendo que "todos os que estão no terreno são ouvidos". "Os comandantes consultam os combatentes, e a liderança da Wagner consulta os comandantes. É por isso que o Grupo Wagner avançou e continuará a avançar."

Há dois meses, Andrei Kolesnikov, do Carnegie Endowment for International Peace, um think-thank de política externa, comparou a crescente influência de Prigozhin à de Grigori Rasputin na corte do czar Nicolau II. "Putin precisa de eficácia militar a qualquer custo", disse à Current Time TV.

"Há um carisma diabólico em [Prigozhin] e, de certa forma, esse carisma pode competir com o de Putin. Mas Putin agora precisa dele."

Rasputin, figura mística, tratou o filho do czar que tinha hemofilia, uma doença no sangue que causa hemorragias. Prigozhin respondeu à comparação, segundo uma declaração divulgada pela empresa do oligarca, a Concord, no último fim de semana.

"Infelizmente, eu não estanco sangue. Eu sangro os inimigos da nossa pátria. E não por atos divinos, mas por contacto direto com eles."

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