O ator de 49 anos é o protagonista de "O Agente Secreto", o filme realizado por Kleber Mendonça Filho, que já triunfou nos Globos de Ouro e está agora nomeados para quatro Óscares, incluindo Melhor Filme
Já havia atrizes - Fernanda Torres e Fernanda Montenegro -, agora há também um ator: Wagner Moura é o primeiro brasileiro nomeado para o Óscar de Melhor Ator, um feito conseguido pela sua interpretação em “O Agente Secreto”, o filme de Kleber Mendonça Filho que está também nomeado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Casting.
A nomeação não chega como uma total surpresa: o filme teve estreia mundial no Festival de Cannes, onde estava selecionado para disputar a Palma de Ouro, e foi na cidade francesa que Wagner Moura ganhou o prémio de interpretação masculina, tornando-se o primeiro brasileiro a receber este prémio. O realizador Kleber Mendonça Filho foi também galardoado.
Depois, foi eleito melhor ator do ano pelo Círculo de Críticos de Nova Iorque e, finalmente, recebeu o Globo de Ouro para melhor ator num filme dramático, tornando-se, mais uma vez, o primeiro brasileiro a ser premiado nesta categoria. “O Agente Secreto” estava nomeado para melhor filme dramático mas acabou por ganhar “apenas” o Globo de Ouro para Melhor Filme Internacional.
"Viva o Brasil! Viva a cultura brasileira!”, disse Wagner Moura, em português e de sorriso rasgado, a fechar o discurso de agradecimento do Globo de Ouro há duas semanas. E, depois, foi festejar e vimo-lo nas redes sociais a sambar ao lado da mulher e da equipa do filme.
Desde que interpretou Pablo Escobar na série “Narcos”, da Netflix, e começou a aparecer em papéis secundários em vários filmes americanos, Wagner Moura tornou-se um rosto conhecido em todo o mundo, mas é provável que muitos ainda pensassem que tinha origem hispânica. Com “O Agente Secreto”, o ator quer deixar bem claro que não é mais um “latino” em Hollywood, é brasileiro e fala português - e esse é um motivo de orgulho.
“O Agente Secreto” é uma coprodução que reúne Brasil, França, Alemanha e Países Baixos. Ambientado no Recife durante a década de 1970, conta a história de Marcelo, um especialista em tecnologia que regressa à sua cidade natal como um refugiado, depois de ter tido problemas na universidade onde trabalhava devido à repressão do regime militar. “O Marcelo representa muitas pessoas no mundo que se metem em sarilhos, que têm as suas vidas em perigo, só porque são quem são, só porque têm a cor da pele, a orientação sexual, a religião que escolheram”, explicou Moura numa entrevista. "A personagem que interpreto é apenas um homem que se mantém fiel aos seus valores. Acho que isso é uma coisa muito difícil quando se está sob um governo autoritário".
“O Agente Secreto” é, à semelhança de “Ainda Estou Aqui”, o vencedor do ano passado do Óscar de Melhor Filme Internacional, um filme sobre o trauma da ditadura e sobre a memória, que, infelizmente, parece estar a perder-se. Mas é, também, um filme que só Kleber Mendonça Filho - o realizador de “Aquarius”, “Bacurau” e “Retratos Fantasmas” - podia ter feito. Nele, o realizador conjuga as suas memórias de juventude no Recife com a sua paixão pelo cinema - pelo cinema enquanto experiência (película, sala, comunidade, imaginário). O júri de Cannes sublinhou que este é um filme “pessoal e, ao mesmo tempo, universal, que não tem pressa e funciona como um recetáculo de memória para um mundo: o mundo do Brasil sob regime militar em 1977 e o mundo de pessoas boas em tempos difíceis”.
Wagner Moura chama-lhe “um filme de resistência”, mas que ao mesmo tempo mostra “o belo caos brasileiro”, com o seu carnaval bem suado, a mitologia e a fantasia (a “perna cabeluda” é um mito urbano muito forte em Pernambuco). “Estou muito orgulhoso desse filme tão brasileiro e tão representativo de um momento do cinema brasileiro e da democracia brasileira”, disse o ator noutra entrevista.
Nascido em Salvador, a 27 de junho de 1976, Wagner Moura começou a fazer teatro ainda na adolescência. É formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e chegou a trabalhar como repórter, mas a sua paixão estava no teatro. Aos 21 anos, chamou a atenção com a sua interpretação na peça “Abismo de Rosas”, pela qual ganhou a estatueta de Ator Revelação no Prémio Braskem, em 1997. E, depois do sucesso da peça “A Máquina”, em 2000, em que contracenava com Vladimir Brichta e Lázaro Ramos, decidiu mesmo trocar de carreira e dedicar-se totalmente à representação e mudar-se para o Rio de Janeiro, levando consigo a namorada, a jornalista e fotógrafa Sandra Delgado. Casaram em 2001 e tiveram três filhos: Bem, Salvador e José.
Nesse mesmo ano, depois de participar em duas curtas-metragens, Moura estreou-se nos cinemas com um pequeno papel em “Sabor da Paixão”, realizado por Fina Torres, uma produção brasileira com Estados Unidos e Espanha que estreou na secção Un certain regard do Festival de Cannes daquele ano e que contava com Penélope Cruz no elenco.
Teve depois uma participação em “Abril Despedaçado” (2001), filme realizado por Walter Salles (o mesmo que realizou “Ainda Estou Aqui”) e estrelado por Rodrigo Santoro. “Abril Despedaçado” esteve nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Filme Internacional.
Em 2002 entrou em “As Três Marias” e em 2003 teve papéis em quatro filmes: “O Caminho das Nuvens”, “O Homem do Ano”, “Deus é Brasileiro” (uma comédia de Cacá Diegues onde Moura contracenou com António Fagundes) e “Carandiru”, realizado por Hector Babenco, onde interpretou o preso Zico, um dos seus grandes papéis.
Entretanto, entrou em outros filmes e fez televisão, participando em várias séries e novelas como “Sexo Frágil” (2003), “A Lua me Disse” (2005) e “Paraíso Tropical” (2007), ao mesmo tempo que continuava a fazer teatro (cumpriu o sonho antigo de ser Hamlet) e até música - Moura é o vocalista da banda Sua Mãe, que começou na faculdade com um grupo de amigos que faziam covers dos temas de The Cure e até chegou a lançar um CD em nome próprio.
Em 2007, já um ator conhecido, Wagner Moura interpretou o impetuoso capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite”, de José Padilha. O filme teve uma imensa repercussão dentro e fora do Brasil, sobretudo pela forma como mostrava a corrupção e a violência policial mas também causou polémica por contar tudo do ponto de vista de um polícia, e foi premiado com o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim. Em “Tropa de Elite 2” Nascimento foi promovido a coronel e o filme teve ainda mais sucesso, tornando-se um dos filmes brasileiros com maior receita de bilheteira.
A estreia internacional do ator aconteceu em 2013 com “Elysium”, uma grande produção de ficção científica onde fez um papel secundário, contracenando com Matt Damon e Jodie Foster.
Em 2015, Moura protagonizou a série Narcos, na Netflix, trabalho que o tornou mundialmente reconhecido. Ao longo de três temporadas, o brasileiro interpretou o papel de Pablo Escobar e chegou a ser nomeado para um Globo de Ouro de melhor ator em série dramática.
Wagner Moura apresentou-se como realizador com “Marighella”, estrelado por Seu Jorge - um filme baseado na vida de Carlos Marighella, político, escritor e guerrilheiro comunista brasileiro. Estreou-se em 2019, no Festival de Berlim, fora de competição.
Nos últimos anos, entre outros projetos, protagonizou “Sérgio”, filme da Netflix sobre o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello; também foi protagonista na série “Shining Girls”, com Elisabeth Moss, no papel do jornalista Dan Velásquez; deu voz ao Lobo Mau de “O Gato das Botas; contracenou com Ryan Gosling em “The Gray Man”; integrou o elenco de “Guerra Civil”, de Alex Garland; e participou na série “Sr. e Sra. Smith”.
No ano passado, o ator decidiu voltar aos palcos depois de 16 anos de ausência, para protagonizar a peça “Um Julgamento - depois do Inimigo do Povo”, um projeto seu com a encenadora Christiane Jatay. É um dos autores do texto que adapta o clássico de Henrik Ibsen e interpreta Stockmann. O espetáculo vai estar em Lisboa, no próximo mês de julho. São apenas três sessões no Centro Cultural de Belém. É correr para comprar ou então, quem sabe, talvez depois da noite dos Óscares, a 15 de março, abram mais datas e mais pessoas tenham oportunidade de ver de perto o talento de Wagner Moura.