Diretor da prova, Javier Guillén, diz que «manifestações e desporto» podiam ter coexistido sem problemas e explica que a etapa se considera «realizada» e não cancelada, com os tempos tomados até à interrupção. E frisa que só a UCI podia determinar uma exclusão da Israel Premier-Tech
O diretor da Vuelta, Javier Guillén, condenou esta segunda-feira os incidentes que levaram à interrupção da última etapa da prova, em Madrid, no domingo, deixando claro que a organização da prova atuou sempre de acordo com as normas da União Ciclista Internacional (UCI), em particular alusão à participação da equipa Israel-Premier Tech na prova, que foi alvo dos vários protestos de milhares de manifestantes pró-Palestina.
«Quero condenar o que aconteceu na última etapa. São necessários poucos comentários sobre o que vimos ontem. As imagens falam por si e é inaceitável o que aconteceu», começou por dizer Guillén, numa conferência de imprensa extraordinária após o sucedido.
«Isto não se deve repetir. Podíamos ter convivido perfeitamente entre manifestações e desporto. Sabíamos que era um dia complicado. Vimos vários incidentes», apontou Guillén, esclarecendo que a etapa se considerou realizada e não cancelada, mas sem vencedor, sendo considerados os cerca de 44 quilómetros iniciais percorridos da etapa de 103,6 quilómetros entre Alalpardo e Madrid. «A etapa considera-se realizada, foram tomados os tempos ao quilómetro 44 da etapa. Foi a solução que adotámos para completar a última etapa», esclareceu.
Guillén pediu ainda respeito pelos desportistas e apontou para a UCI quanto ao que podia ter sido uma exclusão da Israel Premier-Tech da prova. «Somos uma corrida, somos desporto. Tudo bem que o mundo aproveite a nossa plataforma para fazer as suas reivindicações. Mas exigimos respeito pelos nossos atletas. Pedimos o mesmo respeito que oferecemos aos outros. Um respeito que também pedimos em nome de um público numeroso, que queria desfrutar da corrida. A posição da Vuelta é clara: guiamo-nos pelas normas da UCI», disse.
«É à UCI que cabe determinar a participação e a exclusão das equipas nas corridas. Ficamo-nos por aí e centrámo-nos no que tínhamos de fazer. Tomámos uma posição de não entrar num debate, o que é legítimo. Explicámo-nos até onde pudemos. Falou-se com a UCI para ver o que se faria, eles tomaram uma posição em comunicado, que era a de manter a Israel na prova. Nós não podíamos fazer outra coisa. Sem a sua autorização, havia consequências legais. Não há nenhuma federação que tenha vetado a Israel das suas competições, nem a União Europeia. A UCI fez o comunicado e entendo que conhece o que aconteceu», acrescentou Guillén.
O Governo espanhol e a organização da prova sugeriram à equipa israelita que se retirasse da Vuelta, o que esta recusou fazer para não abrir um «precedente perigoso». A UCI, que em 2021 baniu equipas russas e retirou a bandeira dos ciclistas daquela nacionalidade, condenou os incidentes, sem apontar a qualquer decisão.
«Tenho de agradecer às 3500 pessoas que formaram a equipa da Vuelta, ninguém saiu. E agradecer às equipas e ciclistas, que em todo o momento quiseram correr a Vuelta e nunca manifestaram o contrário», frisou, ainda, o diretor da prova espanhola, ganha pelo dinamarquês Jonas Vingegaard, seguido do português João Almeida, que fez história para o ciclismo luso com o segundo lugar.