O acidente com o voo 642 da China Airlines, a 22 de agosto de 1999, foi considerado "um milagre". No momento da aterragem, o McDonnell Douglas MD-11 capotou e incendiou-se. Dos 315 ocupantes, morreram três, muitos ficaram feridos. A Joana, os pais, os irmãos e os tios saíram praticamente ilesos
Quando o McDonnell Douglas MD-11 levantou voo do Aeroporto Internacional de Banguecoque, a 22 de agosto de 1999, estava um dia bonito. Uma chuva fraca dava uma certa magia ao céu do Sudeste Asiático. “Até estava calor.” A bordo seguiam 15 tripulantes e 300 passageiros, 78 dos quais portugueses. Havia gargalhadas e boa disposição entre os integrantes de uma excursão pela Ásia organizada por um conimbricense. Nada fazia prever o desfecho trágico que se havia de se seguir.
O voo 642 da China Airlines tinha como destino Taipé, mas tinha uma paragem programada em Hong Kong. À medida que o avião se foi aproximando de território chinês o tempo começou a piorar. Em plena época de monções e tufões, Hong Kong estava sob efeitos do Tufão Sam. Vento muito forte, com rajadas muito intensas, muita chuva, pouca visibilidade e muita turbulência. A maioria dos voos com aterragem programada para Hong Kong estavam a divergir para outros aeroportos. O voo 642 insistiu na aterragem. A aterragem foi filmada por alguém em terra, junto ao aeroporto. O vídeo tem-se reproduzido no Youtube e mostra que o desfecho podia ser mais trágico do que foi.
Na aproximação à pista, o vento intenso fez com que o aparelho perdesse a estabilidade. A asa direita embateu no solo, o avião ficou virado de cabeça para baixo e incendiou-se de seguida.
“Viagem muito instável, com muita turbulência. Chovia muito. Ouvia-se a chuva a bater no avião. Estava tudo cinzento lá fora. Não se via nada. Os meus pais estavam junto à janela da asa que quebrou. A língua de fogo entrou pelo avião, mesmo à frente deles”, recorda Joana Santos, uma das portuguesas que sobreviveu àquele que foi considerado o acidente mais “incrível” da história da aviação. Com a dimensão que teve, podiam ter morrido centenas de pessoas. Das 315 que seguiam a bordo, morreram três e mais de 200 ficaram feridas.
As vítimas mortais foram uma portuguesa e dois cidadãos chineses. Entre os feridos, estavam 23 portugueses, 12 deles em estado grave.
"Silêncio assustador"
Joana tinha, na altura, 19 anos. Estava numa viagem de férias pela Ásia, com os pais, os irmãos e os tios paternos. A viagem anual em família era já uma espécie de tradição. “A viagem tinha sido organizada pelo senhor José Soares, que faleceu uns anos mais tarde. Passámos a primeira semana na Tailândia”, recorda Joana Santos.
Uma semana depois, a vida desta família ficou, literalmente, de pernas para o ar. “A asa bateu no chão, o avião faz o looping e, quando faz o looping, eu tirei o cinto. Só acordei no vale entre pistas, quando o avião já estava capotado”, conta Joana Santos.
“Apercebi-me que o chão era, na verdade, o teto do avião. Comecei logo à procura da minha família, sobretudo do meu irmão mais novo. Durante aquele tempo que estivemos à espera de socorro, ouvia-se o crepitar das chamas, sentia-se o calor e viam-se as labaredas. O mais impressionante era o silêncio assustador. Não se ouviam gritos. A única coisa que rompia o silêncio era o crepitar das chamas”, recorda.
“A maioria das pessoas não levava cinto, porque não tínhamos sido informados de que iríamos aterrar. Durante o voo, não houve comunicação praticamente nenhuma da tripulação. Houve muitos feridos entre o grupo. Muita gente queimada. A minha mãe conseguiu tirar o cinto, ajudar o meu pai a tirar o dele e ainda ajudar outra mulher a soltar-se. Uma senhora que ajudei a sair dizia-me ‘oh Joana, estou aqui com uma dor de cabeça…’. Tinha a cabeça partida.”
O pai de Joana, então com 52 anos, tinha graves problemas respiratórios e dependia de uma bomba para acalmar as crises. O fumo e o stress provocado pela situação apressaram-se a provocar-lhe uma crise respiratória aguda. Recorreu à bomba que trazia sempre no bolso, mas na confusão e na escuridão acabou por perdê-la. “A minha mãe, quando conseguiu tirar o cinto e sair do lugar, trouxe a carteira dela. Quem é que acabou de sofrer um acidente daquela dimensão, com o avião a arder à frente dela, se lembra de agarrar na mala enquanto foge?! [Risos] Mas foi o que nos valeu. Ela tinha lá outra bomba suplente para o meu pai.”
"Vão vocês que eu fico"
Joana e o irmão mais velho (que tinha 23 anos na altura) tentaram abrir a porta de emergência do avião, mas não conseguiram. Estava “inutilizada”. “Veio um americano com um distintivo do FBI a mandar afastar toda a gente e tentou também abrir a porta. Mas também não a conseguiu abrir. No dia seguinte, veio nas notícias que foi um inspetor do FBI que abriu a porta de emergência, mas não foi verdade”, garante Joana.
A crise respiratória do pai de Joana agudizou-se. José Augusto Santos chegou a um ponto em que nem sequer conseguia andar: “Ele disse-nos ‘vão vocês que eu fico’. Mas eu era louca pelo meu pai e disse-lhe ‘não papá! Sempre foste o meu herói. Vou levar-te ao colo’”. E assim fez. Com a ajuda do irmão mais velho, conseguiu retirar a família do aparelho em chamas.
“Saímos por uma brecha do avião, saltámos para o chão e a água dava-nos pelo joelho. A chuva era tão intensa que doía, quando nos batia no corpo. Parecia que nos estavam a atirar com pregos”, recorda.
Joana entregou o pai a um bombeiro para ser socorrido. O bombeiro “estava petrificado, em choque” e foi a jovem de 19 anos que o “abanou” e tirou daquele estado de catarse. O bombeiro colocou o pai de Joana dentro do camião de socorro. “O meu pai acabou por contar que, entretanto, entrou também no carro de bombeiros uma portuguesa do grupo com os braços completamente queimados.”
A confusão era muita e a desorganização do socorro maior ainda. Joana e a família perderam o rasto ao irmão mais novo, que tinha 18 anos. Souberam horas depois que tinha sido hospitalizado, com ferimentos ligeiros.
"Senti-me em Auschwitz"
Joana, a mãe e o irmão mais velho foram encaminhados para uma ambulância. “Para mim, não fazia sentido nenhum, porque não estávamos feridos. Entretanto, mandaram-nos sair da ambulância e entrar num autocarro. Depois, mandam-nos sair do autocarro e começam a entrar macas com feridos. Macas com feridos, alguns muito graves, transportadas no autocarro. Foi tudo muito confuso. Desorganizado”, diz.
Foi outro autocarro que os transportou para a gare. “Recebemos uma pulseira com um número. Uma fita amarela, com números pretos. Senti-me em Auschwitz”, confessa.
O acidente não teve impacto só nos protagonistas. Quem assistiu a tudo em terra sofreu, igualmente, um enorme abalo emocional: “Nós é que precisávamos de afago e as pessoas do aeroporto abraçavam-se a nós a chorar.”
“Houve pessoas que ficaram completamente descompensadas”, descreve.
O psiquiatra Carlos Amaral Dias, entretanto falecido, viajou de Portugal para Hong Kong para prestar apoio psiquiátrico aos portugueses sobreviventes.
“Colocaram-nos num hotel, deram-nos um valor a cada um dentro de um envelope. No dia seguinte, à hora combinada, fomos todos de autocarro, em roupão e chinelos de quarto do hotel comprar roupa e objetos de que necessitávamos”, relembra Joana.
"Havia medo. Havia muito medo"
Durante a semana que se seguiu, a família Santos tentou aproveitar o que restava das férias com a disposição que ainda conseguiam arranjar depois da tragédia em que tinham sido também protagonistas. Ficaram a conhecer um pouco de uma Hong Kong que, até dois anos antes, era território britânico e ainda nem se tinha habituado a ser chinesa.
“Tivemos o regresso a Portugal com uma piloto britânica a tripular. Foi um voo direto, que não costuma haver. Mas, dada a situação pela qual tínhamos passado, fretaram um voo direto. Foi uma viagem espetacular, super tranquila. Toda a gente estava com medo. Havia muito medo, mas o voo foi extraordinário”, recorda.
O grupo manteve contactos anuais e, até à morte de José Soares, mantiveram encontros anuais para assinalar o dia do “segundo nascimento” de todos. “Eram encontros engraçados. Era reviver a história. Eram almoços que serviam para fazer a digestão da situação”, brinca.
As voltas que a vida dá
Oito anos depois, Joana Santos tornou-se optometrista. Casou, teve dois filhos gémeos – Guido e Gil. Durante mais de dez anos trabalhou numa das maiores empresas de ótica a operar no país. Mas resolveu mudar de vida. Em 2014, ela e o marido, enfermeiro no Hospital de Gaia, voltaram aos bancos da faculdade para fazerem medicina dentária. Os filhos tinham apenas dois anos.
“Foi complicado porque mal os víamos. Tínhamos uma pessoa que ficava connosco às horas que necessitássemos e foi uma peça fundamental para conseguirmos tirar o curso”, confessa.
Terminaram o curso em 2019 e começaram a preparar-se para abrir a própria clínica de medicina dentária. Mudaram-se de Vila Nova de Gaia para Barcelos e tinham tudo planeado para abrir ali o consultório. Mas veio a pandemia de covid-19 e gorou-lhes os planos. Joana foi recrutada para prestar assistência à vacinação, fazer inquéritos epidemiológicos e testes covid. O marido continuou como enfermeiro.
Prestou serviço no combate à covid durante mais de um ano, na Administração Regional de Saúde Norte. “Depois disso, ainda me propuseram ir para um centro de saúde, mas não era exatamente aquilo que eu queria. Fui para uma clínica trabalhar como médica dentista, trabalhei com profissionais excelentes e aprendi muito com eles. Ainda hoje mantenho contacto com eles”, garante.
Ainda fez formação para exercer numa clínica em França, mas não se identificou com a “forma de organização da equipa” e rescindiu contrato. Surgiu depois uma oportunidade de emprego no Luxemburgo. O processo de recrutamento durou um ano e terminou recentemente. No próximo mês, começam uma nova etapa de vida: de 15 em 15 dias, irão ao Luxemburgo dar consultas numa clínica portuguesa. Muitas viagens de avião os esperam.
"Tento sempre reservar um lugar à janela"
Não é um tema tabu lá em casa. Os filhos conhecem a história da mãe, dos tios e dos avós e ficam “ansiosos” quando têm de andar de avião. “Mais o Gil do que o Guido. O meu marido é que fica mais em pânico e acho que passou esse medo um pouco para eles”, brinca, tentando não o demonstrar também: “Mas há situações em que eu faço uma certa introspeção.” “Se começa alguma turbulência, já nem consigo ver nem ouvir ninguém [risos]”, confessa.
Todos os anos, no dia 22 de agosto, as memórias tornam-se mais vivas. Nenhum dos elementos da família que seguiam a bordo do voo 642 deixou de viajar. O pai já está reformado, mas irmãos e a mãe de Joana mantêm o negócio de família - a empresa Cordeiro e Campos. Uma fábrica têxtil com mais de 40 anos de existência e com vários negócios no exterior. “Quase semanalmente” viajam para cidades como Paris ou Milão. “Quando pergunto à minha mãe como correu a viagem e ela responde ‘correu muito bem’, sinto sempre que há uma tentativa de desvalorizar e de omitir a verdade”, diz.
“Eu procuro sempre reservar o lugar à janela, porque vejo Sol, vejo mar, vejo o tempo, vejo as asas... Não é que me vá valer muito, mas tento ir sempre à janela. Quando viajo sozinha custa-me muito”, confessa.
Se, até 22 de agosto de 1999, viajar de avião “era prazeroso”, desde então, Joana viaja “porque tem de ser”. “Ficaram sequelas para a vida. O meu marido diz que, quando eu viajo, deixo sempre tudo para arrumar para a última. Nunca mais fiz uma viagem de avião com uma noite bem dormida. Normalmente vou viajar com uma direta em cima”, relata.
Mas o otimismo de Joana vem em forma de quem manda voar os medos e as preocupações: “A probabilidade de cair e sobreviver já era pequena e aconteceu comigo. Qual era a probabilidade de cair outra vez?”