Voluntária da Worldpackers participa numa ação de limpeza na Praia de Paúba, no Brasil, em 2021. (Fotografia: Worldpackers)
Ao percorrer vídeos de turistas que faziam trabalho voluntário em troca de alojamento gratuito, a nómada digital Naiara Saiz Bilbao pensou que lhe tinha calhado a sorte grande.
Naiara entrou numa das plataformas de viagens voluntárias mais populares, procurou por algo semelhante e encontrou uma vaga num alojamento na Costa Rica.
O slogan “Gosta da natureza e sonha viver à beira-mar?” despertou imediatamente o seu interesse.
À medida que continuava a ler, Naiara, natural de Espanha, descobriu que o cargo de voluntária envolveria trabalhar nas redes sociais durante algumas horas por dia, cinco dias por semana, em troca de uma estadia gratuita num alojamento elegante numa popular cidade no litoral, cercada por uma selva exuberante e com uma piscina cristalina.
Uma turista experiente que se apaixonou pelo país da América Central depois de visitá-lo várias vezes, Naiara ficou entusiasmada com a oportunidade e rapidamente se inscreveu.
Parecia um sonho tornado realidade e, para Naiara, uma turista solitária, a função também parecia segura.
“Pelo menos, vou sentir-me segura”, lembra-se de ter pensado. “Com um programa de voluntariado organizado por uma plataforma paga, temos a certeza de que o lugar onde vamos ficar vai cuidar de nós.”
Infelizmente, as coisas não correram como esperava. Quando chegou, no início deste ano, Naiara deparou-se com um edifício em ruínas ainda em construção, cuja entrada era feita por uma escadaria aparentemente interminável que conduzia a um albergue sem janelas.
“Foi um desastre”, conta Naiara. “Parecia uma prisão.”
Mais tarde, Naiara descobriu que a aparência pouco atraente do albergue era o menor dos seus problemas.
Uma indústria em expansão
Naiara é uma das inúmeras turistas que foi atraída por uma oportunidade de voluntariado no estrangeiro.
O voluntariado em viagens — trocar competências por alojamento e, por vezes, alimentação ou outros benefícios — é, há muito, um pilar da comunidade de turistas de mochila.
“A ideia remonta à época de Jesus Cristo”, diz Shay Gleeson, fundador da Helpstay, uma plataforma online que liga voluntários a anfitriões em mais de 100 países.
“É essencialmente uma troca. Em troca de uma estadia gratuita, os turistas ajudam. Contribuem de alguma forma.”
Milénios depois da era bíblica, o voluntariado em viagens explodiu em popularidade, em grande parte graças à Internet.
Mais de sete milhões de pessoas de 140 países são membros da Worldpackers, segundo a plataforma online, tornando-a a maior empresa do setor.
O seu principal concorrente, Workaway, oferece 50 mil experiências, enquanto a plataforma de voluntariado focada na agricultura ecológica Worldwide Opportunities on Organic Farms (WWOOF) diz ter atraído mais de 100 mil membros.
As oportunidades de voluntariado em cada uma destas plataformas são tão amplas e variadas quanto qualquer outra forma de viagem, desde alojamentos que procuram recepcionistas, funcionários de limpeza e promotores de festas, até escolas de surf que precisam de professores e famílias locais que procuram babysitters.
Há até oportunidades para músicos tocarem ao vivo ou artistas decorarem edifícios.
A Worldpackers diz que quase metade dos seus anfitriões são organizações sem fins lucrativos que consideram os voluntários essenciais para as suas operações.
A plataforma online também salienta que estas trocas não são empregos, mas sim experiências culturais, acrescentando que em breve será lançada no site uma nova categoria separada para “empregos”.
Não são apenas nómadas digitais como Naiara que procuram oportunidades de voluntariado e estão dispostos a pagar as taxas de subscrição das plataformas.
Milhões de jovens estão a aderir ao voluntariado como uma forma de conhecer o mundo, com muito tempo livre e pouco dinheiro, e muitos consideram o voluntariado uma alternativa aventureira a formas mais convencionais de viajar, como as viagens organizadas.
“As gerações mais jovens estão à procura de mais do que fotos ou listas de verificação”, indica Ricardo Lima, cofundador e CEO da Worldpackers. “Os jovens não estão à procura do ‘turismo convencional’ — os jovens querem experiências imersivas e autênticas.”
Uma experiência transformadora
Jenna Pollard, uma turista natural de Dakota do Sul, teve a sua primeira experiência internacional como voluntária numa fazenda familiar de amendoim, perto de Pai, no norte da Tailândia, quando tinha 28 anos.
Jenna, que trabalhou na quinta durante 10 dias em 2016, conta que se sentiu atraída pela ideia de poder viajar de uma forma mais conectada, em vez de simplesmente “ficar num hotel e visitar os pontos turísticos”.
“Fiz amigos, aprendi um pouco da língua, ajudei em vários projetos e comi comida incrível”, relata, entre risos. O que mais poderia querer?
Hoje, Jenna anima-se ao relembrar a filha de 10 anos do seu anfitrião e as estruturas de bambu onde moravam.
Agora gerente do programa de educação da WWOOF nos EUA, Jenna considera o voluntariado uma experiência transformadora.
“Muitas pessoas saem da experiência a sentir que a sua fé na humanidade foi restaurada”, conta Jenna. “As pessoas estão a viver em harmonia, não apenas com outras pessoas, mas com o planeta.”
Na opinião de Jenna, essa magia transformadora acontece quando há uma ligação com completos estranhos que se tornam amigos. “Tudo começa com um ato de fé de que vai dar certo”, diz.
Mas enquanto o “ato de fé” de Pollard deu início a uma carreira e a uma paixão para toda a vida, o de Naiara terminou em desastre.
Além do perfil enganador do anfitrião, Naiara diz ter sido tratada mais como uma funcionária não remunerada do alojamento do que como uma voluntária.
Apesar de ter concordado em realizar tarefas relacionadas com as redes sociais, Naiara foi instruída a limpar casas de banho e outras áreas do alojamento — inicialmente a cada dois dias, depois todos os dias e, por fim, oito horas por dia.
Naiara diz que não recebeu nenhum equipamento de proteção nem treino formal sobre como usar os produtos químicos tóxicos que utilizava. “A água sanitária queimava os meus dedos”, conta à CNN.
Para Naiara, a gota de água foi quando ela descobriu que os seus pertences tinham sido revistados e que tinham desaparecido 400 dólares que ela guardava no compartimento secreto da sua mochila.
Depois de dizer ao gerente que não iria continuar naquele alojamento por causa disso, Naiara conta que lhe ofereceram 50 dólares para não publicar uma avaliação negativa na plataforma online que anunciava a vaga. Naiara recusou.
Um negócio arriscado?
A experiência de voluntariado de Naiara pode ter sido memorável pelas razões erradas, mas será que a sua decisão de ser voluntária foi mais arriscada do que uma viagem tradicional?
Todas as principais plataformas garantem que priorizam seriamente a segurança dos voluntários e tomam medidas ativas para evitar situações perigosas.
A Helpstay assegura que o seu fundador analisa pessoalmente cada anfitrião na sua plataforma, enquanto a WWOOF realiza verificações de identidade e solicita fotografias das áreas onde os voluntários vão comer e dormir.
A Worldpackers diz que avalia os seus anfitriões com base em referências e, sempre que possível, viaja para inspecionar os locais.
Cada uma das plataformas monitoriza o desempenho através de avaliações e fornece aos subscritores serviços de apoio, como linhas diretas específicas para contactar quando algo corre mal.
No entanto, ao mesmo tempo, estas plataformas salientam que apenas fornecem um serviço de intermediação, e que os anfitriões e voluntários são os principais responsáveis por si próprios e pela sua segurança pessoal.
As plataformas argumentam que viajar nunca é uma atividade isenta de riscos, e o voluntariado não é diferente.
Segundo Shay Gleeson, a Helpstay aconselha todos os seus membros a fazerem as suas próprias pesquisas e a organizarem planos de contingência robustos, como devem fazer em qualquer situação de viagem. O fundador da plataforma acrescenta que a maioria dos voluntários da sua plataforma faz isso.
“Não somos um serviço de acompanhamento”, explica Gleeson. “Esta é uma viagem para adultos.”
Ricardo Lima vai ainda mais longe, afirmando estar “mais preocupado com os riscos que as pessoas correm ao não viajar do que com os riscos da viagem em si.”
Mas Naiara está preocupada que a romantização do voluntariado nas redes sociais tenha minimizado a importância dessa preparação.
Naiara acredita que as plataformas de voluntariado são direcionadas a pessoas que não têm condições financeiras para viajar regularmente – e para quem acabar numa situação destas é especialmente arriscado.
A Worldpackers garante que os influenciadores com quem trabalha são voluntários genuínos que “não estão a vender um produto, mas sim a amplificar um movimento”.
As mulheres são particularmente vulneráveis a experiências de voluntariado que não correm como planeado. De acordo com Shay Gleeson e Ricardo Lima, aproximadamente 70% dos membros da Helpstay e 64% dos membros da Worldpackers são mulheres.
Estes números devem-se, em parte, à perceção de que planear uma ação de voluntariado através de uma plataforma torna as viagens mais seguras. As mulheres sentem-se tranquilas por saber que muitos dos desafios que enfrentam quando viajam, como assédio e agressão, podem ser amenizados pelas precauções extras de verificação e avaliações dos anfitriões.
Mas quando isso não é suficiente e a experiência de voluntariado não corre como planeado, são exatamente esses riscos que as mulheres podem enfrentar, e que Naiara gostaria que fossem mais discutidos na Internet.
Shay Gleeson garante que as mulheres que subscrevem a Helpstay discutem a questão e que são elas que impulsionam as melhorias, deixando proativamente avaliações e sinalizando anfitriões inaceitáveis.
Numa entrevista via Zoom a partir de um alojamento diferente na Costa Rica, Naiara sublinha que não quer que a sua experiência afaste outras pessoas de fazer voluntariado.
Em vez disso, Naiara quer incentivar outros turistas a permanecerem cautelosos e a pesquisarem diligentemente.
“Não deixem de ir”, apela «Vão, mas estejam preparados.”