Pogacar contra o Mundo: «Tour» de emoções e um sonho português

4 jul 2025, 23:00
Tadej Pogacar no pódio do Tour de France 2024 (AP Photo/Daniel Cole)

Esloveno parte como principal favorito à vitória, mas Vingegaard quer a redenção e João Almeida espreita o protagonismo inesperado. As três semanas mais mediáticas do ciclismo estão de regresso e prometem trazer muitas surpresas

A poucos dias do arranque de mais uma edição da Tour, a emoção da «Grande Volta» mais importante do ano parece ter perdido algum fulgor e tudo por causa de um denominador comum... Tadej Pogacar.

O ciclista do momento (e dos últimos anos) tem dominado todos os palcos que pisa e em cima da mesa está a possibilidade de chegar à quarta vitória da carreira na Volta a França, caso não seja impedido pela concorrência. Vingegaard parece ser o adversário mais óbvio, mas a incerteza da modalidade pode trazer surpresas e há quem esteja à espreita para aproveitá-las.

Um domínio como não se via desde Chris Froome

A chegada do esloveno ao mundo do ciclismo profissional trouxe um impacto há muito desconhecido e para os que achavam que seria sol de pouca dura, o engano não podia ter sido maior.

Desde 2020, o ano em que «roubou» de forma sublime a camisola amarela a Primoz Roglic, no então mítico contrarrelógio de La Planche, Pogacar parece só ter olhos para o pódio. Se olharmos apenas para o que já fez esta temporada, saltam à vista as vitórias na Strade Bianche, no Tour de Flandres, na Flèche Wallonne, na Liège-Bastogne-Liège e mais recentemente no Critérium du Dauphiné.

Tudo isto assusta e de que maneira o restante pelotão, que estará certamente à procura da melhor estratégia para impedir mais um marco histórico na carreira do ciclista mais completo da atualidade. Pogacar repetiu um feito conseguido por Christopher Froome em 2016, quando venceu por duas vezes consecutivas a Volta a França, mas não chegou ao «hat-trick» por culpa de um tal de Jonas Vingegaard.

Ainda com a pandemia no horizonte, o dinamarquês impôs-se ao então imbatível ciclista da UAE Team Emirates e também ele triunfou por duas vezes no Tour. Este cenário faz com que ambos sejam os favoritos à partida, ainda que as lesões e o pouco tempo de corrida possam colocar a balança mais inclinada para Pogacar.

Trabalho na sombra e um português atrás de um sonho

Se destacamos o duelo que se espera intenso entre os favoritos, há também que salientar o papel que os restantes 14 elementos deste xadrez podem ter no «xeque-mate» ao pódio nos Campos Elíseos.

Pogacar traz consigo uma equipa experiente nestas andanças e apenas uma alteração face ao bloco apresentado em 2024. Nas montanhas estará certamente seguro com Adam Yates, mas uma infelicidade pode trazer à tona o fiel escudeiro… João Almeida. Não é segredo para ninguém a importância do ciclista de Á dos Francos para o esloveno, ainda que na mira do português esteja certamente igualar o feito de Joaquim Agostinho, o único na história de Portugal a fechar uma edição do Tour entre os três primeiros (1978 e 1979).

Do outro lado da barricada surge uma Team Visma diferente do último ano, com Van Aert de novo a apresentar-se ao melhor nível, Simon Yates ainda a saborear a conquista da Volta a Itália e alguma incógnita face ao papel de Sepp Kuss, outrora um dos melhores gregários que já se viu no ciclismo moderno. Certo é que Vingegaard parece vir com tudo para regressar ao trono e mostrar mais uma vez que os imortais, afinal, também são humanos.

As cartas fora do baralho (ou à espreita para entrar)

Há quem lhe chame malapata, há quem lhe chame descrença, há quem lhe chame renascer. Muitos são os adjetivos que podem descrever os «outros», ou seja, os adversários de Pogacar e Vingegaard neste Tour.

Primoz Roglic sabe bem o que é correr na Volta a França, mas também sabe o que é perder, sabe o que é desistir e sabe que apesar da sorte não bater duas vezes à mesma porta, o azar costuma ser o substituto que lhe aparece à frente quando corre em solo gaulês.

Num palco onde ainda não conseguiu ser feliz, o esloveno ainda procura sê-lo, mas para precaver mais um azar, a equipa (Red Bull – BORA – hansgrohe) traz a o bom momento de Florian Lipowitz. O alemão esteve entre os melhores na última edição do Critérium du Dauphiné e o terceiro lugar na geral é suficiente para alimentar as esperanças da equipa.

Agora vamos à «descrença» daqueles que em tempos olhavam para Remco Evenepoel e viam um ciclista capaz de fazer frente à dupla de titãs. A verdade é que os anos não têm feito jus a essa ideia e o belga «só» tem conseguido ser o melhor dos restantes. Na última edição da Volta a França terminou na terceira posição, a mais de nove minutos do vencedor.

Evenepoel parece ter desenvolvido uma excelente capacidade para ser favorito em provas de um dia ou até de uma semana e há que recordar a campanha fantástica nos Jogos Olímpicos, em que conquistou não só o contrarrelógio, mas também a prova de estrada. Falta saber se algum dia irá conseguir levar a melhor nos grandes palcos e se este é o ano do ciclista que deixou o futebol pelas duas rodas aos 17 anos.

Existem ainda outros nomes que vale a pena manter debaixo de olho: Oscar Onley (Team Picnic PostNL), Tobias Johannessen (Uno-X Mobility), Matteo Jorgenson (Team Visma / Lease a Bike) e Carlos Rodríguez (INEOS Grenadiers).

Contrarrelógios decisivos para a geral?

É sempre imprevisível antever uma prova de ciclismo a mais de três semanas do fim, a verdade é que a primeira metade da competição não terá grandes dificuldades para os homens que lutam pela camisola amarela. Ainda assim, o espaço para os sprinters brilharem também pode ser reduzido, se Pogacar ou Mathieu van der Poel decidirem «brincar» nas etapas iniciais.

Desta forma, o contrarrelógio da 5.ª etapa, com 33 quilómetros de distância deve separar o trigo do joio e a crono escalada da 13.ª etapa fará certamente mais estragos no pelotão.

De resto, os ciclistas terão pela frente jornadas muito intensas, com destaque claro para a 18.ª etapa, que traz três contagens de categoria especial e uma chegada em alto no Col de la Loze (Alpes), assim como a 19.ª etapa, também nos Alpes, e com cinco contagens de montanha, a culminarem na ascensão à La Plagne (Alpes).

Confira a lista completa de equipas para esta Volta a França:

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