Zelensky, um mês a falar ao coração dos parlamentos do mundo

9 abr, 14:00

O primeiro discurso de Volodymyr Zelensky perante um parlamento estrangeiro aconteceu a 8 de março, no parlamento britânico. Entretanto, Zelensky já se dirigiu a 20 parlamentos de todos os continentes. A todos invocou memórias, lugares e acontecimentos capazes de criar uma ligação entre esses países e a situação da Ucrânia.

Volodymyr Zelensky deverá falar perante os deputados portugueses nos próximos dias. A Assembleia da República será mais uma etapa numa espécie de tournée global virtual pelos parlamentos do mundo. Nunca um chefe de Estado fez algo parecido. Zelensky já discursou perante 20 parlamentos de vários continentes. Sobretudo para a Europa, mas também para a América, a Ásia e a Oceânia. E para Israel, no Médio Oriente, no cruzamento da Europa com África e a Ásia.

Além destes 20 discursos para parlamentos diferentes, e dos vídeos diários que publica na sua página oficial, Zelensky já discursou para as mais importantes organizações internacionais: o Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Conselho Europeu, a NATO, o G7. Tudo começou a 1 de março numa sessão especial do Parlamento Europeu. “Provem que estão connosco. Provem que não nos deixam cair. Provem que são realmente europeus”, apelou Zelensky. Não sem antes demonstrar que a luta do seu povo é para ter aquilo que os povos dos 27 têm como garantido: “Hoje pagamos por valores, por direitos, por liberdade, apenas pelo desejo de ser igual, igual a vocês”.

Em todas as intervenções Zelensky tenta falar ao coração das suas diferentes audiências, utilizando referências que possam ser facilmente entendidas e com as quais o seu público se possa identificar. Há mensagens e apelos que se repetem: mais sanções para a Rússia, mais armas e apoio para a Ucrânia, as chamadas de atenção para a situação desesperada de cidades como Mariupol, a denúncia dos bombardeamentos de zonas residenciais e do assassinato de civis… E depois há referências que só o público daquele país entenderá completamente.

Mais do que comunicar: conseguir engajamento

É aquilo a que os especialistas em comunicação chamam “engagement” (em português, engajamento). “No caos comunicacional das sociedades contemporâneas o importante não é publicar (toda a gente pode publicar), é propagar (a medida do impacto da publicação). O importante já não é comunicar, é conseguir o engajamento com os públicos. Para isso a notícia (algo novo e interessante) não é suficiente. Nasce então a narrativa - que atrai a atenção dos públicos e facilita a partilha por terceiros”, explica Luís Paixão Martins, especialista em comunicação com décadas de experiência.

“A técnica mais natural, mais evidente, para provocar o engagement é a referência a conteúdos que se relacionam com os públicos” - é por isso que todas as estrelas da música popular, quando tocam no Pavilhão Atlântico, gritam “hello Lisboa”, dizem alguma coisa sobre a cidade, o país, os portugueses. Isto vale para os músicos pop mas também para os políticos: o objetivo é criar uma identificação com quem os ouve que permita proximidade e até cumplicidade.

“Na comunicação política costumo até empregar uma expressão comum a quem viaja: é o kiss & fly. Primeiro damos um kiss ao público e a seguir voamos para a nossa narrativa”, prossegue Paixão Martins, que elogia a forma como o presidente ucraniano tem conseguido fazer isso mesmo. “Zelensky tem feito isso na generalidade das suas comunicações” e o especialista em comunicação refere o caso recente da invocação de Guernica aos deputados espanhóis. Mas a frase que considera “mais certeira” foi a tal que Zelensky disse aos eurodeputados: o que os ucranianos querem é os mesmos direitos democráticos que os povos europeus têm.

De que forma tentará Zelensky conquistar o coração dos portugueses? “Não sei”, admite Paixão Martins. “Mas como o 25 de Abril teve um enorme impacto internacional talvez haja alguém na equipa ucraniana que lhe recomende o seu emprego para o engagement - valores da democracia para nós e valores da autodeterminação e afirmação nacional para os povos das colónias.”

Também poderá referir a candidatura da Ucrânia para integrar a UE, tal como Portugal fez mal estabilizou a sua democracia. Ou a ambição de integrar a NATO, como forma de fugir à eterna ameaça do Kremlin. Eis, a seguir, a forma como em cada parlamento Zelensky procurou esse engajamento com os deputados dos diferentes países.

Reino Unido, 8.3.22
Foi no 13º dia da invasão que Zelensky se estreou nos parlamentos estrangeiros. Fez um relato, dia a dia, das atrocidades cometidas pelos russos até então. Apelou a mais ajuda humanitária e militar, ao encerramento dos céus da Ucrânia, a mais sanções contra os russos. E fez o paralelismo com a resistência britânica ao invasor alemão, na II Guerra Mundial. “Não queremos perder o que temos, o que é nosso - a Ucrânia. Tal como não queriam perder a vossa ilha quando os nazis se preparavam para iniciar a batalha pelo vosso grande poder, a batalha pela Grã-Bretanha.”

Polónia, 11.3.22
O segundo parlamento a convidar Zelensky para uma sessão especial foi o da Polónia, um dos vizinhos da Ucrânia que mais têm sido afetados pela enorme vaga de refugiados que fogem da guerra. Uma das capitais que mais têm apelado ao apoio militar direto da UE e da NATO à Ucrânia. O presidente ucraniano começou por dirigir-se ao seu homólogo polaco, Andrzej Duda, como “meu amigo Andrzej”. E a amizade entre os dois países, posta à prova nestes dias, foi o primeiro argumento do discurso. “Na manhã de 24 de fevereiro não tinha dúvidas de quem [...] me diria: ‘Irmão, o teu povo não será deixado sozinho com o inimigo’. E assim aconteceu. E eu estou grato por isso. Os irmãos e irmãs polacos estão connosco.”

Falando para um país que viveu na órbita soviética nas décadas subsequentes à II Guerra Mundial, a resistência histórica, e comum, de ucranianos e polacos ao controlo do Kremlin foi um dos pontos centrais do discurso. Com referências a um polaco que ajudou na luta contra o império soviético, o Papa João Paulo II. 

Na luta comum contra o Kremlin, Zelensky lembrou até o desastre de aviação de 2010, perto da cidade russa de Smolensk, em que morreu o então presidente polaco e dezenas de figuras do regime - a suspeita, até hoje, é que o “acidente” terá sido orquestrado pelos russos para decapitar as elites polacas.

A Ucrânia, disse Zelensky, está a lutar para que as vítimas seguintes de Putin não sejam a Polónia e os países bálticos. “Lembrem-se, somos 90 milhões juntos! Podemos fazer tudo juntos. E esta é a missão histórica, a missão histórica da Polónia, a missão histórica da Ucrânia, sermos líderes que juntos tirarão a Europa deste abismo, salvá-la-ão desta ameaça, pararão a transformação da Europa numa vítima.”

Canadá, 15.3.22
Aos 20 dias de guerra, Zelensky discursou para os deputados do Canadá, numa sessão em que estava também o primeiro-ministro canadiano, “querido Justin”. “Quero que percebam o que os ucranianos estão a sentir”: “Imaginem só... Imaginem que às quatro da manhã cada um de vocês ouve explosões. Explosões terríveis. Justin, imaginem que as ouvem. E os vossos filhos ouvem. Ouçam os ataques de mísseis no aeroporto de Otava. Em dezenas de outros lugares do vosso belo país, o Canadá. Mísseis de cruzeiro. Mesmo antes do amanhecer. E os seus filhos abraçam-no e perguntam ‘o que aconteceu, pai?’. E já estão a receber os primeiros relatórios sobre quais as instalações que foram destruídas por mísseis da Federação Russa. E sabem quantas pessoas já morreram e onde”.

Com inúmeras cidades, praças, bairros habitacionais e infraestruturas bombardeadas, Zelensky convidou os canadianos a imaginar que lhes acontecia o mesmo: “A famosa Torre CN em Toronto... Quantos mísseis russos serão suficientes para a destruir? Acreditem-me, não desejo isto a todos vós. (...) A nossa Praça da Liberdade em Kharkiv e a vossa Praça Churchill em Edmonton. Imaginem mísseis russos a atingirem o seu coração. O nosso Babyn Yar é o local de sepultura das vítimas do Holocausto. Os russos não pararam antes de bombardear esta terra. E quanto ao Monumento Nacional ao Holocausto em Otava? Irá resistir ao impacto de três ou cinco mísseis? Aconteceu-nos a nós”.

EUA, 16.3.22
O discurso para o Congresso norte-americano foi outro grande acontecimento mediático, após a alocução de Zelensky perante os deputados britânicos. Perante o país que se proclama como o farol da democracia e a “Terra da Liberdade”, o presidente ucraniano lembrou que “agora o destino do nosso Estado está a ser decidido, o destino do nosso povo”. “Está a ser decidido se os ucranianos serão livres. Se irão preservar a sua democracia.” Enumerou os valores americanos de “democracia, independência, liberdade e cuidado para todos, todos os que trabalham com diligência, que vivem honestamente, que respeitam a lei”, e acrescentou que “nós na Ucrânia queremos o mesmo para nós, tudo isto que é uma parte normal da vossa vida”.

Falando diretamente para Joe Biden, o presidente da superpotência que se afirma como líder do mundo, Zelensky deixou o desafio: “Hoje não basta que seja o líder de uma nação. É preciso que seja o líder do mundo. E ser o líder do mundo significa ser o líder da paz”.

A história americana não foi esquecida, nomeadamente os momentos em que o território dos EUA foi atacado de surpresa, sem que os atacantes tivessem sido provocados. Tal como aconteceu à Ucrânia a 24 de fevereiro. “Lembrem-se de Pearl Harbor. A terrível manhã de 7 de Dezembro de 1941. Quando o céu ficou negro dos aviões que vos atacavam. Lembrem-se apenas disso. Lembrem-se do 11 de Setembro. Um dia terrível, em 2001, quando o mal tentou transformar as vossas cidades num campo de batalha. Quando pessoas inocentes foram atacadas. Atacados do ar. De certa forma, ninguém esperava. De certo modo, não se podia impedi-lo. O nosso Estado experimenta isto todos os dias! Todas as noites! Há já três semanas!”

O encerramento do espaço aéreo da Ucrânia com a força da NATO ainda era, por essa altura, uma das grandes reivindicações de Zelensky. E voltou a afirmá-lo perante os congressistas, citando Martin Luther King: “‘Eu tenho um sonho’ - estas palavras são conhecidas de cada um de vós. Hoje posso dizer: eu tenho uma necessidade. A necessidade de proteger o nosso céu. A necessidade da vossa decisão. Da vossa ajuda. E significa exatamente a mesma coisa que vocês sentem quando ouvem: ‘Eu tenho um sonho’”.

Alemanha, 15.3.22
O discurso de Volodymyr Zelensky ao Bundestag alemão foi um dos discursos mais duros deste seu périplo virtual por parlamentos do mundo. Afinal, tratava-se do principal país da União Europeia, a maior economia dos 27, cuja proximidade económica à Rússia coloca enormes dificuldades para uma resposta mais firme à invasão da Ucrânia. Trata-se do país que achou boa ideia colocar-se na dependência energética de Moscovo, e também o principal travão à entrada da Ucrânia na NATO. Tudo isso foi recordado por Zelensky. Mas também se trata do país que ao longo da Guerra Fria estava dividido ao meio por um muro com assinatura soviética.

“É como se vocês estivessem outra vez atrás do muro. Não o Muro de Berlim. Mas no meio da Europa. Entre a liberdade e a escravatura. E este muro cresce mais forte com cada bomba que cai sobre a nossa terra, sobre a Ucrânia. Com cada decisão que não é tomada em nome da paz.”

Zelensky discursa no parlamento alemão a 15 de março (AP Photo, Markus Schreiber)

Quando é que isso aconteceu?, questionou-se Zelensky. “Quando vos dissemos que o [gasoduto] Nord Stream era uma arma e a preparação para uma grande guerra, ouvimos em resposta que afinal era economia. Economia. Mas era cimento para um novo muro. (...) Quando vos perguntámos o que a Ucrânia precisa de fazer para se tornar membro da NATO, para estar segura, para receber garantias de segurança, ouvimos a resposta: tal decisão ainda não está em cima da mesa e não estará num futuro próximo. Tal como a cadeira para nós nesta mesa. Tal como continua a adiar a questão da adesão da Ucrânia à União Europeia. Francamente, para alguns é política. A verdade é que se trata de pedras. Pedras para um novo muro.”

O resultado, disse Zelensky, é que os negócios e as rotas comerciais entre a Alemanha e a Rússia se tornaram hoje “o arame farpado sobre o muro, sobre o novo muro que divide a Europa”. “E não se vê o que está por detrás deste muro, que está entre nós, entre as pessoas na Europa. E por isso, nem todos estão plenamente conscientes do que estamos a passar hoje.”

O presidente ucraniano lembrou o famoso episódio do bloqueio de Berlim, quando os russos tentaram ocupar toda a cidade, impedindo o acesso por via rodoviária e ferroviária - ao que a Alemanha ocidental, os EUA e os aliados responderam com uma ponte aérea. Só foi possível, lembrou Zelensky, porque “os céus eram seguros”.

E não faltou também a referência às atrocidades cometidas pelos alemães na II Guerra Mundial, quando Zelenky lembrou que algumas das vítimas da atual invasão são sobreviventes desse conflito. Se Putin reclama hoje “espaço vital” para a Rússia, era também esse o argumento nazi. Hoje, milhares de ucranianos são bombardeados, torturados e mortos em cidades como Kharkiv, Chernihiv ou Sumy, “pela segunda vez em 80 anos”. Os políticos alemães que dizem “nunca mais” sobre a II Guerra Mundial têm de fazer mais para travar esta agressão, exortou Zelensky.

“Chanceler Scholz! Deite abaixo este muro!”, concluiu Zelensky, parafraseando o desafio de Ronald Reagan para que o então líder soviético, Gorbachov, derrubasse o Muro de Berlim.

Suíça, 19.3.22
Na sua alocução aos suíços, Zelensky retratou a Suíça como “um estado que tem uma história muito longa de paz e uma história de influência ainda mais longa - em muitas áreas uma influência decisiva sobre o mundo”- O chefe do Estado ucraniano revelou que já visitou muitas vezes a Suíça, que conhece bem o país, as suas instituições e o seu modo de vida, e confessou que sempre quis que os ucranianos vivessem como os suíços. Ter “o mesmo nível de vida”, a “mesma liberdade”, a mesma organização em comunidades, a mesma capacidade de decidir o bem comum e o futuro conjunto em referendos. “Talvez estas sejam coisas vulgares para vocês. Para nós, são reformas. E este é o caminho que estamos a seguir e que queríamos seguir”... até que “tudo mudou”.

“E tal como eu queria que os ucranianos vivessem como os suíços... também quero que vocês sejam e se tornem como os ucranianos - na luta contra o mal”, pediu Zelensky, agradecendo o papel dos bancos suíços que já congelaram bens da Rússia e do círculo de poder de Putin, mas também pedindo mais sanções e censurando quem prossegue os negócios como se nada fosse.

“'Boa comida. Boa vida.' Este é o slogan da Nestlé. A vossa empresa que se recusa a deixar a Rússia. Mesmo agora - quando há ameaças da Rússia a outros países europeus. Não só para nós. Quando há mesmo chantagem nuclear por parte da Rússia.”

Israel, 20.3.22
Acusado por Vladimir Putin de liderar um país de nazis, Volodymyr Zelensky é judeu e dirige um país onde a comunidade judaica teve sempre uma presença muito forte. Tem raízes ancestrais e foi muitas vezes perseguida - nomeadamente pelos nazis e pelos soviéticos. Começou por aí o discurso de Zelensky aos deputados israelitas: “As comunidades ucraniana e judaica sempre estiveram e, tenho a certeza, estarão muito interligadas, muito próximas. Viverão sempre lado a lado. E sentirão alegria e dor juntas”.

Golda Meir, uma das figuras de referência do Estado de Israel e célebre primeira-ministra num dos momentos mais difíceis da história do país, nasceu em Kiev e Zelensky citou as suas palavras - “que todos os judeus já ouviram”: “Pretendemos continuar vivos. Os nossos vizinhos querem ver-nos mortos. Esta não é uma questão que deixe muito espaço para compromissos”.

Quando o presidente ucraniano falou ao Knesset, ainda Israel não tinha feito todo o caminho de condenação de Moscovo que percorreu entretanto. Mas Zelensky pintou os dois países como estando bastante mais próximos do que possa parecer: “Estamos em países diferentes e em condições completamente diferentes. Mas a ameaça é a mesma: tanto para nós como para vós - a destruição total do povo, do Estado, da cultura. E mesmo dos nomes: Ucrânia, Israel”.

E não escapou a Zelensky uma coincidência histórica. “24 de fevereiro - este dia já passou duas vezes para a História. E de ambas as vezes como uma tragédia. Uma tragédia para os ucranianos, para os judeus, para a Europa, para o mundo. A 24 de fevereiro de 1920 foi fundado o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha. Um partido que ceifou milhões de vidas. Destruiu países inteiros. Tentou matar nações. 102 anos mais tarde, a 24 de fevereiro, foi emitida uma ordem criminosa para lançar uma invasão russa à escala total da Ucrânia. A invasão, que já ceifou milhares de vidas, deixou milhões de desalojados. Tornou-os exilados. Nas suas terras e nos países vizinhos. Na Polónia, na Eslováquia, na Roménia, na Alemanha, na República Checa, nos Estados Bálticos e em dezenas de países diferentes. O nosso povo está agora espalhado por todo o mundo. Estão à procura de segurança. Estão à procura de uma forma de permanecer em paz. Como outrora vocês procuraram.”

Itália, 22.3.22
Diz o ditado que não se vai a Roma sem ver o Papa e Zelensky decidiu que ao discursar para Roma - para a Câmara dos Deputados - devia começar por falar no Papa. “Esta manhã falei com Sua Santidade, o Papa Francisco, e ele disse palavras muito importantes: ‘Compreendo que quer a paz. Compreendo que tendes de vos proteger. Tanto os militares como os civis defendem corajosamente a pátria. Todos estão a defender a pátria’. E eu respondi: ‘O nosso povo tornou-se este exército’."

Aos deputados italianos, Zelensky pediu que imaginassem se Génova sofresse o mesmo ataque que Mariupol. Comparou a importância regional de Kiev à importância global de Roma: “A origem da grande cultura de uma grande nação está em Kiev. E agora estamos à beira da sobrevivência. Kiev passou por guerras brutais ao longo da sua história. E merece, depois de todas as perdas e tragédias, viver em paz. Em paz eterna”, disse Zelensky, falando para Roma, a “cidade eterna”.

Zelensky discursa no parlamento italiano a 22 de março (Remo Casilli - AP Photos)

Sendo a Ucrânia famosa como “celeiro da Europa”, o presidente lembrou aos italianos - famosos pela sua paixão pela comida - que o fornecimento de muitos bens alimentares pode estar em risco com esta guerra. “Como podemos semear sob os golpes da artilharia russa? Como podemos semear quando o inimigo mina deliberadamente os campos e destrói as bases de combustível? Não sabemos que colheita teremos e se seremos capazes de exportar. Quando os nossos portos são bloqueados e apreendidos. Milho, óleo vegetal, trigo e muitos outros produtos. Bens vitais. Também para os nossos vizinhos.”

Por fim, Zelensky não esqueceu que Itália é um destino global de férias, luxo e boa vida. “Portanto, não sejam um resort para assassinos. Bloqueiem todos os seus bens imóveis, contas e iates - desde o Scheherazade até aos mais pequenos. Bloqueiem os bens de todos aqueles que têm influência na Rússia.” Para que os oligarcas russos deixem de apoiar Putin enquanto apreciam la dolce vita italiana.

Japão, 23.3.22
Na sua histórica intervenção para as duas câmaras do Parlamento do Japão, Volodymyr Zelensky concentrou-se no trauma histórico do único país que alguma vez foi vítima de bombas atómicas. O perigo que a Rússia representa esteve no centro do discurso, tanto pela ameaça do Kremlin, que admitiu vir a ordenar o uso de armas nucleares nesta guerra (“como reagir se a Rússia também utilizar armas nucleares?”), como pelas consequências dos ataques russos às centrais atómicas que existem na Ucrânia. As forças russas não só atacaram e tomaram a maior central nuclear da Europa, como invadiram a célebre central desativada de Chernobyl e toda a zona de interdição à sua volta, ainda com elevados índices de radioatividade. 

“A 24 de fevereiro, veículos blindados russos passaram por esta terra. Levantando poeira radioativa para o ar. A central de Chernobyl foi capturada. Pela força, pelas armas. (...) A Rússia também transformou esta instalação numa arena de guerra. E a Rússia está a utilizar este território de 30 quilómetros, esta zona fechada, para preparar novos ataques contra as nossas forças de defesa. Serão necessários anos após a saída das tropas russas da Ucrânia para investigar os danos que causaram a Chernobyl. Que locais de eliminação de materiais radioactivos foram danificados. E como o pó radioactivo se espalhou no planeta.”

Zelensky descreveu o “tsunami da brutal invasão russa”, e invocou a capacidade do Japão para erguer cidades e promover a harmonia. E no fim do discurso contou que, no início do seu mandato, a sua mulher, Olena, deu voz a contos tradicionais japoneses, traduzidos para ucraniano, num projeto de apoio a crianças cegas. “Porque são histórias compreensíveis para nós e para as nossas crianças.”

França, 23.3.22
Na sessão conjunta do Senado e da Assembleia Nacional de França, Volodymyr Zelensky louvou os pergaminhos de bravura, racionalismo e amor à liberdade dos franceses. “Os ucranianos veem que a França valoriza a liberdade tanto como sempre valorizou. E protege-a. Lembra-se do que ela é. Liberdade, igualdade, fraternidade. Para vocês, cada uma destas palavras está carregada de poder! Eu sinto-o. Os ucranianos sentem-no.”

Zelensky discursa no parlamento francês a 23 de março (AP Photo- Francois Mori)

Suécia, 24.3.22
Por vezes, pequenas coincidências ajudam a criar ligações. Por exemplo, o facto de a bandeira ucraniana e a bandeira sueca serem azuis e amarelas. “Agora a bandeira azul e amarela é provavelmente a mais popular do mundo. Estas cores estão associadas à liberdade. Isto é verdade para diferentes pessoas em diferentes continentes. As cores azul e amarela da bandeira nacional não se referem apenas à Ucrânia. Isto também é sobre vocês, sobre a Suécia. E obviamente que isto não é uma coincidência. É o destino. Porque nós somos igualmente pela liberdade. Somos igualmente a favor de uma vida pacífica. Somos igualmente a favor do respeito por todos. Somos igualmente pela justiça e igualmente pelo cuidado com o mundo natural em que vivemos. Por conseguinte, é lógico que a Suécia esteja agora entre aqueles que mais apoiam a Ucrânia.”

Falando para um membro da UE que não faz parte da NATO mas é vizinho da Rússia, Zelensky apontou os riscos do avanço russo. “Se a Ucrânia não conseguisse resistir, defender-se (...), isso significaria que todos os vizinhos da Rússia estariam em perigo”, nomeadamente a Suécia, “pois só o mar vos separa da política agressiva deste Estado.”

“Os propagandistas russos já estão a discutir na televisão estatal como a Rússia ocupará a vossa ilha de Gotlândia. E como mantê-la sob controlo durante décadas. Mostram-na aos russos no mapa, mostram as direções da ofensiva. Pode perguntar com que objectivo? Dizem que será benéfico para a Rússia implantar sistemas de defesa aérea e uma base militar em Gotlândia”, alertou o presidente ucraniano, lembrando que o perigo está à porta.

Dinamarca, 29.3.22
A comparação entre esta guerra e a Segunda Guerra Mundial tem sido recorrente nos discursos de Volodymyr Zelensky, que o voltou a fazê-lo perante o parlamento da Dinamarca, que nesse conflito foi um protetorado e, depois, um país ocupado pelos nazis. 

E o apelo à unidade da Europa contra Moscovo, na defesa do modo de vida e das liberdades da UE, foi ainda mais veemente perante os membros do Folketing: “Vocês, na Dinamarca, no país de onde provêm os princípios básicos da União Europeia, os critérios de Copenhaga, podem sentir ainda mais a importância de toda a solidariedade europeia trabalhar para a pressão sobre a Rússia”.

Zelensky discursa no Parlamento da Dinamarca a 29 de março (Ida Marie Odgaard - Ritzau Scanpix via AP)

Noruega, 30.3.22
Falando para os deputados de outro país invadido pelos nazis na Segunda Guerra Mundial, Zelensky voltou a invocar os horrores dessa guerra perante os noruegueses para fazer paralelismos com os bombardeamentos e massacres ordenados por Putin. E, sendo a Noruega um país com uma forte vocação marítima e uma das maiores marinhas mercantes da Europa, Zelensky chamou a atenção para as operações de minagem que os russos têm feito no Mar Negro e no Mar de Azov. “A guerra não se limita agora às nossas fronteiras. Nenhum outro Estado, desde a Segunda Guerra Mundial e a agressão nazi, colocou nos mares uma ameaça tão grande à livre navegação como a Rússia já fez.”

Sem fronteiras comuns, a Ucrânia e a Noruega têm muitos séculos de história cruzada. Zelensky lembrou-o: “Olhando para o nosso caminho comum, encontramo-nos sempre na história em momentos difíceis mas definidores para a Europa. Como há mil anos, quando os vikings noruegueses eram visitantes frequentes de Kiev e participaram na formação do primeiro estado de Kiev. Ou Garðaríki, como as terras de Rus'-Ucrânia eram chamadas nas sagas escandinavas. O país das fortalezas. O país das cidades. Tanto os nossos como os vossos antepassados viveram nelas há mais de mil anos”.

E ambos os países partilham o mesmo vizinho incómodo: a Rússia. Tem cerca de 200 quilómetros a fronteira terrestre que demarca território norueguês e russo. Com os perigos que isso acarreta, como apontou Zelensky. “Penso que estão a experimentar novos riscos perto da vossa fronteira com a Rússia. Uma série de tropas russas, que não tem explicação normal, já foram concentradas na região do Árctico. Para quê? Contra quem?”

Austrália, 31.3.22
Mesmo falando para os antípodas, não faltaram a Zelensky pontos de encontro para aproximar ucranianos e australianos. Como este episódio de 2016 recordado pelo presidente ucraniano. Nesse ano, o maior avião do mundo - o Antonov-225 “Mriya”, ucraniano - partiu da Ucrânia para Perth, na Austrália, carregando um enorme gerador de 130 toneladas de que uma companhia de minagem australiana precisava com urgência. Foi um acontecimento - e graças à disponibilidade ucraniana, o gerador chegou muito mais depressa do que se seguisse por mar. O mesmo gigante da aviação percorreu o mundo durante a pandemia para entrega de colossais carregamentos de medicamentos e material médico. É o mesmo avião que foi destruído em finais de março pelos bombardeamentos russos à cidade de Hostomel.

Após recordar algumas cenas de pesadelo desta guerra, Zelensky lembrou aos australianos que o que acontecer à Rússia dará pistas para outros países com tentações expansionistas. “Se a Rússia não for travada agora, se a Rússia não for levada à Justiça, outros países com sonhos semelhantes de guerra contra os seus vizinhos irão decidir que também podem fazer o mesmo.” Zelensky não precisou de ser mais explícito: todos perceberam que se referia à crescente agressividade da China em relação aos outros países do Pacífico.

Holanda, 31.3.22
Mais um país que sofreu a invasão nazi, mais uma referência à Guerra de 1939-45. “Tanta coisa tem sido feita desde a Segunda Guerra Mundial para que o que a Ucrânia está a experimentar neste momento nunca mais volte a acontecer. Mas tudo se repete. Infelizmente, tudo se repete. Até agora, só para um país europeu, não para todo o continente. Mas a Segunda Guerra Mundial também começou com a destruição de Estados individuais. E depois conduziu à tragédia de Roterdão, ao terrível bombardeamento de Londres e ao massacre que engoliu toda a Europa.”

As semelhanças não ficaram por aí. Também na Ucrânia muita gente em áreas controladas por Moscovo tem sido deportada contra a sua vontade para a Rússia - “simplesmente deportados, como os nazis fizeram nos países ocupados.”

O discurso de Zelensky aconteceu na véspera dos 450 anos da revolta armada que permitiria a existência da Holanda como país. “Qual era o objetivo dos fundadores dos Países Baixos?”, questionou-se o presidente ucraniano. E respondeu: “Obviamente: liberdade, democracia, dignidade humana, coesão, diversidade cultural, religiosa”. Ora, atalhou, “tudo isto está agora novamente a ser atacado, tudo isto precisa agora de ser novamente defendido, defendido no Leste da Europa, no nosso Estado, na Ucrânia - até agora só na Ucrânia”.

Bélgica, 31.3.22
Falando ao terceiro parlamento diferente no mesmo dia, Zelensky fez um vigoroso apelo a que os países europeus forneçam mais armamento à resistência ucraniana, elencando o equipamento de que a Ucrânia precisa e os principais focos de confronto com os russos. Não foi um acaso que o presidente ucraniano o dissesse aos belgas. Zelensky falou de Mariupol como “o quartel-general da resistência europeia” e da Ucrânia como o “quartel-general da dignidade europeia”. E disse-o falando para Bruxelas, onde estão o quartel-general da União Europeia e da NATO, as duas grandes organizações a que Kiev espera há anos poder aderir, precisamente para se proteger da ameaça russa. 

Zelensky discursa no Parlamento Belga a 31 de março (AP Photo - Virginia Mayo)

Roménia, 4.4.22
Conforme as tropas russas foram sendo repelidas das localidades à volta de Kiev, emergiram as atrocidades cometidas em lugares como Bucha. Foi nesse contexto que Zelensky falou para o parlamento da Roménia, outro país vizinho que tem recebido milhares de refugiados desta guerra. Com a palavra genocídio instalada no dicionário desta guerra, o líder ucraniano constatou que nada nem ninguém parece capaz de travar Putin, cada vez mais isolado. E fez um paralelo com o regime do antigo ditador romeno Nicolae Ceaușescu. 

“Esse regime baseou-se apenas na intimidação, repressão, brutalidade e engano. Não havia nada de brilhante nele. O povo romeno revoltou-se e defendeu-se, salvou-se a si próprio. E derrubou o poder inadequado. Porque essa era a única forma. Ceaușescu, a sua esposa, a sua comitiva, a sua ‘Securitate’, não podiam ser convencidos de nada. É também impossível convencer agora aqueles que promovem a guerra na Rússia. (...) Perderam toda a ligação com a realidade e estão dispostos a sacrificar milhões de vidas para realizar as suas ideias loucas.”

Espanha, 5.4.22
“Imaginem que as pessoas agora - na Europa - vivem durante semanas em caves para salvar as suas vidas. De bombardeamentos, de bombas aéreas. Diariamente! Abril de 2022 - e a realidade na Ucrânia é como se estivéssemos em abril de 1937. Quando o mundo inteiro soube o nome de uma das vossas cidades - Guernica.” A referência de Zelensky a um dos episódios mais negros e mais célebres da Guerra Civil de Espanha foi direta à memória coletiva dos deputados sentados nas Cortes.

O sofrimento, a resistência e os horrores de Mariupol foram colocados a par com o que aconteceu à cidade imortalizada por Picasso. E o mesmo em Bucha, Sumy, Chernihiv, Kharkiv e noutros locais. “Imaginem que nas cidades comuns as condições podem ser criadas artificialmente para que mais de cem mil pessoas vivam durante semanas sem água, sem comida, sem medicamentos...” 

Irlanda, 6.4.22
A história da Irlanda é marcada pela relação conflituosa com o Reino Unido - do qual a Irlanda fez parte até 1921 - e pelas grandes fomes dos séculos XVIII e XIX (sobretudo esta, nos anos 40, que provocou a morte de cerca de um milhão de pessoas e forçou a emigração de outro milhão). Ambos os factos explicam as escolhas de Volodymyr Zelensky no discurso que fez para o parlamento irlandês. Sem precisar de ser explícito sobre os acontecimentos da história da Irlanda, Zelensky escolheu falar daquilo que poderia ressoar na memória coletiva dos irlandeses: a fome a o vizinho poderoso e opressor.

A fome: “A Ucrânia é um dos países líderes no mercado alimentar mundial. Sem as nossas exportações, não é simplesmente uma escassez, mas uma ameaça de fome para mais de uma dúzia de países em África e na Ásia. Porque não haverá volumes suficientes de mercadorias e os preços irão subir. É um facto. Será mais difícil para milhões de pobres no Norte de África e em partes da Ásia alimentar as suas famílias. Agora, é a altura da época de plantio na Ucrânia. Destruir a nossa época de plantação, destruir as nossas infraestruturas, é provocar deliberadamente uma crise alimentar.”

A potência opressora: “Os militares russos vieram para a Ucrânia como um exército de colonizadores. Os seus propagandistas estatais e os seus políticos já nem sequer escondem o que querem. No século XXI veem o seu Estado como um império colonial que alegadamente tem o direito de subjugar nações vizinhas e destruir qualquer base para a sua vida independente. Destroem até mesmo a própria identidade das nações. Tudo o que faz de nós ucranianos.”

Grécia, 7.4.22
A situação de Mariupol ocupou boa parte da alocução de Zelensky aos deputados gregos. Não foi apenas por se ter tornado a cidade-mártir desta guerra. “Apenas ruínas. Foi isto que a Rússia fez com a nossa pacífica Mariupol. Mas também com a vossa pacífica Mariupol. Esta cidade foi sempre o lar de uma grande comunidade grega. A comunidade grega ucraniana é uma das maiores do mundo. Durante séculos, o nosso povo viveu lado a lado, criou filhos e construiu o futuro.”

A ligação histórica entre os dois países permitiu a Zelensky apresentar a tentativa russa de destruir a Ucrânia como uma tentativa de destruir, também, alguma coisa da Grécia.

Zelensky discursa no Parlamento Grego a 7 de abril (AP Photo- Thanassis Stavrakis)

“Os laços entre a Ucrânia e a Grécia são tão antigos que agora é impossível encontrar a sua origem. Pólis gregos na nossa costa do Mar Negro, intercâmbio cultural e comércio, coexistência comunitária - tudo isto são milhares de anos de história. O Chersonesus grego foi mesmo retratado na nossa moeda nacional - hryvnia. (...) Se alguém tentasse arrancar as raízes gregas à história e cultura ucranianas perderíamos uma parte fundamental de nós próprios.”

“As nossas nações sempre estiveram e estarão sempre intimamente ligadas. Acredito que seremos capazes de trazer a paz à nossa terra ucraniana. Seremos capazes de levar à justiça todos os responsáveis por estes crimes de guerra contra ucranianos, contra gregos e contra todas as outras pessoas que foram vítimas dos militares russos. Seremos capazes de reconstruir Mariupol e todas as outras comunidades ucranianas onde ucranianos e gregos viverão tão pacificamente e com respeito uns pelos outros como antes.”

Chipre, 7.4.22
À ilha que desde os anos 60 está dividida entre a parte greco-cipriota e a zona turco-cipriota, Zelensky começou por recordar que nesta guerra “está a ser decidido se vamos preservar a unidade do nosso território e do nosso Estado”, depois dos russos tentarem “destruir o nosso Estado e rasgar o nosso país, dividindo a Ucrânia”. 

Chipre é um dos refúgios favoritos dos milionários russos, das suas fortunas e dos seus iates, por isso Zelensky disse aos deputados cipriotas que o país “tem instrumentos extremamente poderosos para influenciar a sociedade russa, uma força única que pode ser posta ao serviço da paz”. Pediu que os portos sejam fechados aos navios russos, que os iates sejam apreendidos e que os passaportes dourados dos bilionários russos sejam suspensos. E, numa referência ao sistema financeiro cipriota, apelou também a que “quaisquer esforços de cidadãos russos para contornar as sanções sejam travados”. 

Europa

Mais Europa

Patrocinados