"Ou pagam ou são mobilizados para a guerra": como um esquema de corrupção que envolve um amigo de Zelensky está a fazer tremer o governo ucraniano

12 nov, 19:27
Um soldado da 23ª Brigada Mecanizada opera um drone FPV na Ucrânia em 2 de junho. Oxana Chorna/Global Images Ukraine/Getty Images

Uma investigação do Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) revela como um círculo de poder, incluindo um sócio de Zelensky, usou a lei marcial para extorquir milhões e sabotou a defesa das centrais energéticas em plena guerra

Não é apenas um simples caso de corrupção. O esquema, que está a chocar a população ucraniana e que envolve alguns dos políticos e empresários mais bem conetados, vai bem mais além. Os investigadores acreditam ter desvendado um esquema que utiliza a invasão russa como arma para chantagear empresários e sabotar o esforço de defesa, colocando toda a capacidade de geração energética ucraniana à mercê dos ataques russos, em véspera do inverno. Tudo através da utilização de um gigante estatal que tem receitas de cinco mil milhões anuais. Algumas cabeças já rolaram, incluindo de dois ministros, mas dois dos elementos mais importantes do esquema foram capazes de escapar do país horas antes de as buscas começarem. 

Os suspeitos eram altamente cuidadosos. Sempre que falavam entre si por telefone utilizavam nomes de código para ocultar a sua identidade e o esquema que os enriquecia. Os investigadores acreditam que o grupo passou anos a construir uma "cadeia de comando sombra" para tomar de assalto a empresa estatal de energia nuclear, a Energoatom. Segundo o NABU, o grupo conseguiu capturar a gestão da empresa, com indivíduos sem cargos oficiais a controlarem contratos, nomeações e a direção do dinheiro.

A lei marcial na Ucrânia, instituída após a invasão russa, proíbe empresas privadas de reclamarem dívidas em tribunal de empresas estratégicas, como a Energoatom. Este regime abriu a porta para que os suspeitos pusessem em prática um esquema de extorsão contra as empresas privadas. Todos os que quisessem trabalhar com a Energoatom eram obrigadas a pagar subornos de 10% a 15% para assinar contratos, num esquema que era conhecido como "A Barreira". Quem se recusasse a "partilhar os lucros" era rapidamente colocado de parte da lista de fornecedores. Escutas captadas pelos investigadores mostram como o grupo funcionava. 

“Será um caos total para toda a linha de empresas. Vão acabar na lista negra. Vão ser completamente eliminados e todos os vossos funcionários vão ser mobilizados para o exército", afirmava numa das escutas Ihor Myroniuk, ex-assessor do antigo ministro da Energia e atual ministro da Justiça Herman Halushchenko, que tinha o nome de código "Rocket". 

Myroniuk era uma espécie de coordenador da operação. Mas não o fazia sozinho. A equipa de investigadores que chefia a "Operação Midas" acredita que o antigo político era ajudado por Dmytro Basov, antigo procurador que também já ocupou cargos executivos na gigante atómica ucraniana - e que era conhecido pelo grupo como o "Tenor".

Oleksandr Tsukerman, conhecido na investigação como "Sugarman", era o responsável pela "lavandaria", um escritório financeiro na baixa de Kiev que limpava o dinheiro dos subornos. Os investigadores acreditam que mais de 100 milhões de dólares passaram por este escritório, que pertence à família de Andrii Derkach, um antigo político ucraniano que fugiu para a Rússia e que se tornou senador em Moscovo, representando o partido de Vladimir Putin.

Mas a investigação, que durou 15 meses, acredita ter chegado a alvos bem mais importantes. No topo da pirâmide do esquema aparece Timur Mindich, amigo de longa data do presidente ucraniano, com quem Volodymyr Zelensky teve a empresa de produção Kvartal 95. A proximidade dos dois é grande, com Zelensky a celebrar o aniversário no apartamento de Mindich, em 2021, de acordo com o Kyiv Independent. O NABU acredita que Timur Mindich, que utilizava o nome de código "Carlson", controlava a operação diretamente desse seu apartamento na rua Hrushevsky, uma das principais artérias da capital ucraniana. 

Nas escutas feitas pelos investigadores existem conversas entre Mindich e o ministro da Justiça Halushchenko, a quem o grupo se referia como "Professor", bem como uma conversa com Tsukerman, onde se falou de receber dinheiro fruto do esquema. Segundo o NABU, esta conversa ocorreu depois de o ministro Halushchenko ter visitado o gabinete do presidente. Tsukerman é "apanhado" nas gravações a dizer que Mindich "ia comprar uma casa" e falou das elevadas quantias que este alegadamente pediu para serem transferidas.

"Ele está a pedir para pagar três milhões para a Suíça. Outro milhão para Israel e outros três milhões para a Suiça, outra vez", afirma Tsukerman nas escutas. 

Zelensky: "A inevitabilidade da punição é essencial"

O grupo minava ativamente a defesa do país, particularmente num dos setores mais importantes e que é, neste momento, um dos principais alvos russos. Ao mesmo tempo que Moscovo lança alguns dos maiores ataques contra a infraestrutura energética do país, o grupo desviou milhões da construção de estruturas defensivas nestas infraestruturas.

"Então, não vamos construir estruturas de proteção?", questiona um dos suspeitos. "Eu esperaria. É um desperdício de dinheiro, não vale a pena", responde outra voz. 

O grupo acabou por avançar com as construções, mas criou um novo esquema: adjudicou os contratos de construção de defesa às suas próprias empresas, aproveitando para inflacionar as comissões ilegais de 10% para 15% sobre o valor das obras.

Nos últimos anos, Mindich tem vindo a ganhar muito poder e influência na sociedade ucraniana. Foi ele que recomendou ao presidente ucraniano a nomeação de Oleksiy Chernyshov, que ocupou vários cargos importantes desde 2019. Em junho deste ano, Chernyshov foi demitido após o NABU o ter acusado de suborno e abuso de poder. Mas segundo o Ukrainska Pravda, a sua lista de protegidos políticos estende-se ao ministro da Justiça, Herman Halushchenko, e à ministra da Energia, Svitlana Hrinchuk. 

O presidente ucraniano pediu a demissão dos dois ministros - horas mais tarde, os dois ministros fizeram-no. Além disso, o Conselho de Ministros dissolveu todo o Conselho de Supervisão da Energoatom e anunciou uma auditoria independente à empresa. Ainda assim, o afastamento dos ministros pode não ser suficiente para afastar a sombra que recai sobre Zelensky e o seu governo. Num vídeo partilhado nas suas redes sociais, Zelensky insistiu que o setor da energia tem de manter "a máxima transparência de processos" e que todas as investigações anticorrupção têm de receber o total apoio do governo.

Mas não é certo que Zelensky consiga fazer uma espécie de quarentena e isolar o seu governo do contágio deste caso. Até porque foi precisamente a relação entre Zelensky e Mindich que provocou a maior crise política na Ucrânia desde o início da guerra, quando o governo tentou eliminar a independência do NABU, colocando a instituição independente às ordens do procurador ucraniano, que é diretamente nomeado pelo presidente. Tudo porque o NABU estaria a investigar o aliado de Zelensky. O governo ucraniano acabou por voltar atrás, depois de uma onda de protestos em plena guerra ter enchido as ruas. 

Ao todo, foram feitas mais de 70 buscas a 10 de novembro. Cinco suspeitos foram detidos, mas Mindich e Tsukerman conseguiram sair do país "de forma legal", horas antes de começarem as buscas. Zelensky afirma que a "inevitabilidade da punição é essencial" e anunciou que vai impor sanções pessoais contra o seu antigo sócio Mindich e contra Tsukerman.

"Estamos a passar por cortes de energia, ataques russos e perdas. É absolutamente inaceitável que ainda existam esquemas no setor da energia... Minar o Estado significa ser responsabilizado por isso", afirmou o presidente numa comunicação ao país.

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