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Olhem, estou efusivo: #VodafoneParedesDeCoura

17 ago, 18:33
Festival Paredes de Coura (Lusa/José Coelho)

Samuel Úria, curador da CNN Portugal para o festival Vodafone Paredes de Coura de 2022, leva-nos numa viagem temporal. Acompanhe o festival esta semana aqui connosco - e com Samuel Úria, que aqui escreve

As surpresas dum festival de música não são exclusivas da música. Nem sequer têm de deter-se num momento só e podem advir da acumulação, da repetição, do uníssono. Podem advir até de redundâncias; surpresas surpreendentes.

A 4ª vez talvez tenha sido aquela que me deixou pasmado. Ontem, nas dezenas (estimativa conservadora) de abordagens generosíssimas com que fui sendo presenteado pelo recinto do festival, muitas ensaiaram uma espécie de reajuste do ditado “Boda molhada, boda abençoada”. O comprazimento pela chuva - raramente bem-vinda num festival de verão - deixou-me sempre admirado. Mas foi a diversidade de pessoas com frases similares (“Coura molhado, Coura abençoado”,  “Concerto molhado, concerto abençoado”,  “Público molhado, público abençoado”, etc. etc.) que me espoletou mais espanto. À 4ª vez que alguém me interpelou com uma  variação desse provérbio pluvioso, senti que estávamos aqui a cumprir um guião com falas detalhadas; o filme corria bem a toda gente, secos ou molhados.

Ontem foram sobretudo jovens, muito jovens, irritativamente jovens, os emissores daquele adágio popular das bodas e chuvas - coisa que eu achava exclusiva de gente antiga. Outra vez, o guião do filme deste dia parecia cumprir-se com cadência escrupulosa. Jovens, irritativamente jovens, a serem veículos duma tradição oral portuguesa – era o próprio público a simbolizar aquilo que se estava a cumprir com os artistas no palco. Em cada refrão, uma nova tradição. Das muitas celebrações possíveis da música portuguesa, das muitas perpetuações duma oralidade de portugueses, tenho a imodéstia de achar que as de ontem em Paredes de Coura (e por causa de Paredes de Coura) foram as ideais.

Eu podia ser mais conciso a relatar um dia de chuva, de festivaleiros satisfeitos, de música exclusivamente portuguesa no festival. Mas, por outro lado, não sei estar efusivo sem que a palavrosidade tome conta de mim. O primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura acabou molhado, abençoado e devidamente celebrado. Como não estar efusivo, então, se pude fazer parte disso?

Sobre os concertos que  decorreram ontem, infeliz e felizmente tenho pouco a dizer (isto, poupando-vos à deselegância de falar da minha própria atuação). Infelizmente não pude assistir a muito, felizmente pelos melhores motivos – o escrupuloso cumprimento dos horários, sobretudo pela obstinação em não sobrepor concertos, limitou-me a ação. Por entre chegadas, montagens, actuações, refeições  e compromissos de imprensa, não me foi possível ter a atenção devida para uma reportagem geral que fosse detalhada e justa.

O que me falhou na experiência dos concertos sobejou no reencontro entre artistas, na amizade que a música continua a fazer, na música que a amizade continua a fazer, e num público que não é indiferente ao resultado objetivo dessas relações. Aplausos, abraços, elogios, autógrafos, fotografias, carinho a rodos – Paredes de Coura veio interromper a hegemonia despótica do distanciamento social. É, pois, natural que este primeiro balanço pareça mais um batimento cardíaco.

Para hoje, dia 17, aguarda-me uma experiência festivaleira mais ortodoxa. Não confundir isso com qualquer ortodoxia rígida do cartaz. Uma das coisas mais curiosas do que se aguarda para esta noite é a confirmação de algum ecletismo que raramente é atribuído ao festival. Tem-se pensado em Paredes de Coura como predominantemente ligado ao rock alternativo; não derrubando essa consideração alargada, num dia com Beach House, Badbadnotgood, Viagra Boys ou Idles, é muito difícil falar em “predominância”. Veremos que provérbios populares é que brotarão disto.

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