opinião
Artista

O Vodafone Paredes de Coura é a melhor Máquina do Tempo alguma vez inventada

15 ago, 19:37
Fãs dos Sex Pistols em Paredes de Coura

Samuel Úria, curador da CNN Portugal para o festival Vodafone Paredes de Coura de 2022, leva-nos numa viagem temporal. Acompanhe o festival esta semana aqui connosco - e com Samuel Úria, que aqui escreverá. "Em Paredes de Coura sempre fomos felizes sabendo-o".

Começo a escrever com essa grande cobardia que é a renúncia de responsabilidades. Um disclaimer. Parece-me imperativo precaver os leitores: embora estejam a descortinar este texto num portal noticioso, o jornalismo que se segue é do mais ilusório que há. Os factos que agora me movem são forjados e confirmados exclusivamente nesta cabeça. A atestar a falta de rigor científico que acabo de declarar, sigo com uma afirmação que parece, ela própria, fraca ficção científica: O Vodafone Paredes de Coura é a melhor Máquina do Tempo alguma vez inventada.

Justifico a afirmação, primeiro, com argumentos gerais e transmissíveis  - tão gerais que até dão pelo universalíssimo nome de “pandemia”. Após os últimos dois anos, ainda é impossível pensar em qualquer fenómeno social, ou em qualquer evento, sem a sombra de aba larga da Covid-19.  O Festival Paredes de Coura também está sob essa equação mas, acima de tudo (e esta é a minha tese), faz parte da urgente superação. Começa assim a viagem temporal.

Em 2020, colaborei com o Sérgio Godinho numa canção chamada “O Novo Normal” onde, tal como o título indica, o Sérgio elencava (com resignação e ironia) vários aspectos do novo quotidiano, dos novos hábitos que a pandemia estabelecera. É precisamente por causa desse presente consternado, e do futuro resignado, que as viagens ao passado se afiguram tão apetecíveis. O ideal deixa de ser o de ”andar com isto para a frente”, e torna-se essencial voltar atrás, à velha normalidade onde até chegávamos a ser felizes sem o saber. Em Paredes de Coura sempre fomos felizes sabendo-o; é o destino perfeito desta rota retrocessiva.

Programamos então o nosso DeLorean para um Verão de 2022 que se quer directo ao passado, um Verão igual a todos desde 1993 – Verão onde, ao cartaz musical notável, se junte o Minho glorioso, experiências inesquecíveis e laços inquebráveis. Verão rumo aos bons velhos tempos.

O meu segundo lote de justificações, embora também parta da penumbra geral da pandemia, atira-se a viagens no tempo mais pessoais. Em Paredes de Coura, no Paredes de Coura, tenho um historial bonito que pisa o palco, declama poesia junto ao rio, canta a plenos pulmões a música de outros, senta-se na relva com os demais festivaleiros, convive nas filas dos comensais e pede cervejas  na zona VIP. Como, pois, não desejar o regresso físico a essas experiências que tão diligentemente sustenho na memória?

Acima de tudo, o palco. O desejo ansioso de voltar a tocar em Paredes de Coura atira-me para este paradoxo: querer rapidamente um futuro que redunde nas boas lembranças do passado. Em 2022, após dois anos condicionados por restrições pandémicas, não há músico que não ataque as actuações ao vivo com a voracidade dos esfaimados. Se, por si só, o privilégio de ter palcos e públicos se tornou num verdadeiro tesouro, imaginem quando o privilégio passa por palcos ideais, públicos extraordinários. É assim, o Couraíso – tudo ideal, nada menos que extraordinário.

Há mais, nisto dos retrocessos idílicos. A viagem no tempo não é só de volta ao aconchego de sítios e situações, também se faz por via do rejuvenescimento. Eu, velho, que galopo a casa dos 40, que estou parco em paciência, que prefiro morrer do que baixar-me para apanhar um talher, vejo-me subitamente regressado à adolescência. A antecipação saltitante com que aguardo o próximo dia 16, a energia com que anseio a entrada no palco Vodafone, só podem ser as de um teenager. O Festival é uma Máquina do Tempo e, claramente, na Praia Fluvial do Taboão há uma fonte da juventude.

O último parágrafo contraria o primeiro; assume todas as responsabilidades. Pediram-me um texto de antecipação ao Paredes de Coura e, por portas travessas, fiz exactamente isso: declarei o quanto antecipo a semana que aí vem. Não é umbiguismo, é sinceridade - que nisto do jornalismo ainda só estou creditado para fazer reportagens do que sinto. O cartaz é excelente (e terei várias oportunidades de falar sobre ele durante a semana) mas permitam-me que, por ora, me foque na viagem. Vamos de volta a melhores dias. Todos a bordo!

Música

Mais Música

Patrocinados