opinião
Artista

Cabeças acenantes, braços dançantes, ancas bamboleantes: #VodafoneParedesDeCoura

19 ago, 21:21

Samuel Úria, curador da CNN Portugal para o festival Vodafone Paredes de Coura de 2022, leva-nos numa viagem temporal. Acompanhe o festival esta semana connosco - e com Samuel Úria, que aqui escreve

“Mas eu ando aqui a brincar?” - a pergunta é retórica, irónica, expressa com indignação caricatural, e a súmula duma ideia milenar onde as coisas, para serem bem executadas, têm forçosamente de excluir qualquer brincadeira. Todos já ouvimos a frase, todos a dissemos. Raro talvez (desnecessário certamente), seja o clique que nos faça questionar tal expressão. À partida, as coisas tornam-se corriqueiras para estarem imunes a questões.

Contudo, o clique aconteceu, aconteceu-me. Eu estava na fila para uma caipirinha (ali junto ao palco Vodafone Fm) quando, durante uma conversa, certa amiga lançou um sonante “Mas eu ando aqui a brincar?”. Foi retórico, irónico e expresso com indignação caricatural. O contexto da pergunta não interessa, falo-vos antes do clique. No palco, tocavam os suiços L’Eclair. A banda fazia tudo bem. Demonstravam o tipo de entrosamento que só se alcança com muitas horas de ensaio. Fluía-lhes o domínio instrumental de vidas dedicadas à escuta e à execução. No entanto, em palco, e na imagem de palco que o público reflectia, só vi gente a brincar. Gloriosa brincadeira. Clique! Acabou-se o menosprezo recreativo.

O 3º dia do Paredes de Coura pode muito bem ter sido o mais divertido desta edição. Bem sei que os adjectivos lúdicos são comummente usados para nos distrair da falta de consistência de alguma coisa. Quando é giro, quando é bem-disposto, quando é distractivo, então não precisa de ser profundo, sólido, significativo. Se, no entanto, tiveram paciência para o introito do presente artigo, sabem para onde estou a apontar: este 3º dia tão folgazão, este dia em que assisti a tanta brincadeira, pode também ter sido o dia mais consistente do festival.

Assumo que o meu resumo é feito de dados muito subjectivos, considerando que não consegui assistir a todas as actuações de ontem. Há, ainda assim, uma objectividade matemática e uma estratégia geográfica - nos concertos em que estive, tentei sempre colocar-me nos sítios onde pudesse contabilizar o número de cabeças acenantes, braços dançantes, ancas bamboleantes, ombros colidentes; em suma, corpos a obedecer às brincadeiras dos titereiros em palco. O número contabilizado é superior ao dos dias precedentes.

A saber:

Vi um trio de jazz (The Comet is Coming) ganhar as divisas do rock (e, portanto, passar a ser um power-trio). O saxofonista dos Comet foi antes flautista da Hamelin: conduziu os infantes festivaleiros a psicadelismos raros numa fim de tarde, mais raros em gente aparentemente sóbria.

Vi a surpresa feita dança (entranhou-se, nunca se estranhou) com que o público acolheu os bielorrussos Molchat Doma, banda cujo Synth-pop à la anos 80 está mais perto dos nossos cantores de intervenção que dos OMD ou dos Depeche Mode

Vi a inteligência musical dos Parquet Cours num dos concertos mais sólidos do festival, a fazer vibrar todos os convivas para quem, aparentemente, solidez e inteligência são mais um canal rumo à diversão. Desde Variações que a estrada entre o Minho e Nova Iorque não se encontrava tão bem pavimentada.

Vi a molhada acertada e concertada (mosh tão perfeito que era quase uma flash mob. Flash Mosh) no hardcore empático dos Turnstile. Hardcore digno dum palco principal num festival superlativo. Era o bailinho de Baltimore (“deixem passar esta linda brincadeira”).

Vi os surpreendentes L’Eclair (enquanto sorvia caipirinhas e papava perguntas irónicas/retóricas) a acender no público minhoto uma ginga que nem no Santoinho. Da Confederação Helvética veio tão somente isto: uma banda sonora de blaxploitation apta para o green courense. Mas eu ando aqui a brincar?

Vi, por fim, o nu-disco de L’Imperatrice, a movimentar a maior massa dançante desta edição do festival. Era um dos concertos que mais me intrigava, por querer perceber como funcionaria a dinâmica de banda completa. Dir-se-ia, para o bem e para o mal, que são maquinais – mas nem esse tipo de competência zelosa atenuou a competência que este texto hoje celebra: a da brincadeira, a da diversão pura e abnegada. No final, a resposta do público foi, muito provavelmente, a mais efusiva e comovente de todo o Paredes de Coura. Os L’imperatrice, trajados com corações luminosos (a lembrar ursinhos carinhosos) estavam rendidos; estavam nas palmas de quem tiveram na mão.

No fim dos concertos, os festivaleiros tornam o barómetro do sucesso claro: primeiro pede-se mais uma, depois canta-se uma versão adulterada e hooliganista da "Seven Nation Army". Espero, sinceramente, que o Jack White esteja rico com esta brincadeira.

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados