Palmas de ouro em Coura: o melhor e o pior do festival que vai ali e já volta

21 ago, 18:06
Festival Vodafone Paredes de Coura. 18 de agosto 2022. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

Maior e melhor são adjetivos diferentes, um vai para facto e outro para opinião, o primeiro serve-se de números e o segundo serve palavras. Não podendo fazer a média a 115 mil opiniões – e, se pudéssemos, o que nos contaria isso? –, sondámos a nossa própria minoria absoluta para escolher os melhores concertos deste Vodafone Paredes de Coura – e fazê-lo, claro, com palavras.

Já passa da uma manhã de quinta para sexta quando, no mais improvável dos concertos, no dos delico-franceses de algodão la la la L’Impératrice, o público entre-músicas entra em combustão espontânea e exubera a maior salva de palmas de que eles têm memória e provavelmente nós também, um aplauso que fica fica fica, e fica fica fica, primeiro passa o tempo normal e depois rasga o prazo legal, palmas palmas palmas, eles agradecem, olham uns para os outros com cara de qué-isto?, o público todo iluminado numa superabundância copiosa de palmas longas como o pescoço do cisne, transbordam, expandem-se, exabundam e já se retroalimentam, palmas palmas palmas, um crescendo euforizado de u-uhs!, yeahs! e e we-love-yous!, os técnicos de luz já não sabem que lâmpadas sobre o público acender mais, os franceses no palco já não sabem como escancarar mais os maxilares, o público ruborizado da dança continua em palmas, não lhes doem as linhas da vida das mãos sem cansaços, palmas palmas palmas, e palmas palmas palmas até que há um momento em que se percebe que já não estão dizer “vocês são os maiores”, estão a dizer “nós somos os maiores”, nós o público, nós Paredes de Coura, palmas palmas palmas, nós somos os maiores, somos gratos à arte da música e somos a arte de senti-la, palmas palmas palmas, a beleza nos ouvidos de quem ouve e nas pernas de quem dança e nas paredes desta oração loquaz, Paredes de Coura é Paredes de Coura, palmas de glória, palmas de festa, palmas de ouro, palmas torrenciais, ciclónicas, turbilhonantes.

Foi assim, um átimo nestes cinco dias.

A mística de Paredes de Coura, que reverberámos em crónicas aqui muitas vezes em autoironia, não é apenas a dos fins de tarde musicalmente mágicos: é a mística do cenário natural, deste verde desta encosta e deste rio desta vila; é a mística do campismo onde se dança, mergulha, lê, ri; é a mística dos textos mais luxuriantes, em nenhum outro festival se palavreia com tão garrido exagero tão empenhadamente berrante; é este céu, que os Beach House acenderam quando quarta à noite mandaram apagar todas as luzes (a intenção era boa, o ato falhado, se há bandas que revivem, há bandas que remorrem); é o paisagismo de interiores em tanta gente feliz, que ama e sabe de música, que é tão generosamente disponível. As palmas foram o expressionismo desse impressionismo, uma demonstração não só de afeto como de comunhão. Digam o que disserem, o público em Coura é especial, ama a vertigem e perdoa a derrapagem, sem este público Coura seria dois degraus abaixo de bonito.

Esta ode é uma forma de dizermos o nosso “ôberigádu, we love you” ao público que também faz Coura e aos leitores e espectadores da CNN Portugal e da TVI, que nos acompanharam por aqui e na TV. A nossa equipa em Coura junta-se para palmas finais, escolhendo o melhor-e-pior do festival, porque a luz precisa de sombras para definir os seus contornos. Todas as escolhas são subjetivas, ou não seriam escolhas, como o será dizer que o melhor dia do festival foi quinta e o pior foi sexta, entre a terça em início português e o sábado em fim pixielizado. Sobre os concertos, fomos escrevendo diariamente. E no final as nossas palmas são:

Melhor concerto do festival: Idles

Pior concerto do festival: Ty Segall & Freedom Band

Mais gutural: Princess Nokia e Slowthai

Mais decepcionante: Beach House

Mais festivo: L’Impératrice, L’Éclair e La Femme

Mais melancólico: Perfume Genius

Mais poético: Sam the Kid com orquestra e Orelha Negra

Melhor fim de tarde: The Comet Is Coming

Mais energético: Turnstile

Mais suave-bonito: Arlo Parks

Melhor chill: BadBadNotGood

Melhor como reivindicação política: Molchat Doma

Melhor antologia ao vivo: Pixies

Melhor momento de dança: Boy Harsher

Melhor Surpresa: 10 000 Russos

Este ano o festival teve 115 mil pessoas, foi o mais numeroso de sempre, deste o público maior e melhor. No próximo ano, o Vodafone Paredes de Coura realiza-se de 16 a 19 de agosto. Até lá, como diz 28 vezes Arlo Parks na canção, “you’re not alone”.

 

 

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