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Deixem os géneros contaminar-se: #VodafoneParedesDeCoura

18 ago, 19:28
Festival Vodafone Paredes de Coura. 18 de agosto 2022. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

Samuel Úria, curador da CNN Portugal para o festival Vodafone Paredes de Coura de 2022, leva-nos numa viagem temporal. Acompanhe o festival esta semana aqui connosco - e com Samuel Úria, que aqui escreve

O segundo dia de Vodafone Paredes de Coura teve céu pouco nublado. O estado do  tempo, contudo, não fez escassear os  precavidos – umas boas centenas mantiveram o impermeável na indumentária. Isto não me serve para falar outra vez de chuva, serve-me para falar de precaução. Uma noite que, muito provavelmente, teve por maior destaque o punk-rock dos Idles, não deixa de ser uma noite pejada de precavidos, serenos e ordeiros – até quando se acendeu o mosh pit, ou se ensaiou uma wall of death. 

Se acham que acabei de escrever uma crítica à civilidade indevida num concerto punk, pensem outra vez. Não era um apontar de dedo indicador, era um levantar de polegar. Dificilmente me apanharão a escrever contra a civilidade,  ou a  favor da grunhificação da nação. E, citando uma velha banda barulhenta dos subúrbios lisboetas: “Para o exclusivismo punk, estou-me nas tintas”. 

Por outro lado (e vai parecer que me contrario) nada tenho contra a selvajaria protocolar dum concerto de música “selvagem”. Tudo a favor, até. A  rudeza não é só um adereço na música punk; é a fonte, é a base da estética, é o veículo da revolta, é a peculiaridade que tudo define. Mas, relembro: para o exclusivismo, estou-me nas tintas. O facto de admirar um estilo e uma cultura na sua forma elementar, não significa que defenda a pureza da raça como um desprezível teórico da eugenia. 

Deixem os géneros contaminar-se, criar sons que escandalizem os puristas e exclusivistas. Deixem os festivais programar sem ser para tribos, onde engravatados possam curtir a música de cavernícolas. Deixem que a pessoa que ouviu Beach House de olhos fechados e sorriso plácido, minutos depois rosne e se entregue à molhada amistosa junto às grades de Idles. Deixem que o serpentear de cabeças a acompanhar Badbadnotgood se transfigure num headbanging contestatário a respaldar as palavras do Joe Talbot. Deixem que os maiores comedores de pó, os mais prontos para a biqueirada, os mais vigorosos a brandir o punho, depois carreguem  um impermeável, ponham garrafas de água vazias na reciclagem, liguem aos pais a dizer que está tudo bem. O Paredes de Coura deixa-nos isso tudo. Deixa no duplo sentido: porque nos permite, e porque é o seu legado.

Ainda volto aos Idles por (tal como avancei) ontem terem dado o concerto que mais destaque merece. Não digo tratar-se do meu preferido, mas não vi outro que parecesse deixar tamanha marca na segunda noite de festival. Foi emocionante, competente, e foi o que favoreceu a maior ligação palco - público. Um carteiro entrega correspondência; com os Idles houve correspondência de entregas. 

A banda britânica deu a entender, de forma bastante simples, o porquê de ser um caso recente de considerável sucesso em Portugal, mas também o porquê  de ser uma banda que colhe  bastantes ódios. Os Idles são dos grupos que, hoje em dia, mais bem preconizam a democratização da tal música rude. Nisto do legado punk, compensam a falta de crueza com um expressionismo inegavelmente cativante. Por aqui  explica-se o apelo massificado, mas antevê-se também o torcer de nariz dos exclusivistas: se o punk-rock foi criado para gente com cristas e alfinetes de dama, porque é que à volta deste punk-rock vemos só gente com tote bags e cigarros electrónicos?

Há ainda outras questões que se levantam, sejam da estética, sejam do âmago, ou do âmago feito estética. É muito difícil ser-se revolucionário, ou  ter relevância na contestação, quando a maioria dos refrães anti-sistema se assemelha a hashtags, a cartilha batida, a justiceirismo de redes sociais. O punk tem quase 5 décadas, mas o mundo está a anos luz do que era. É difícil ser-se revolucionário quando as causas estão tão mediatizadas, quando a revolta real e a revolta de pacotilha usam os mesmos filtros de instagram. Os Idles habitam essa dificuldade. 

Mas, bom, não é suposto estar aqui  a fazer uma tese de doutoramento sobre as complicações socio-políticas do punk nos anos 20. Isto é, sim, espaço de resumos; o de ontem faz-se desta forma: Idles deram o concerto mais marcante do segundo dia do  Vodafone Paredes de Coura. Não foi o meu  preferido, mas eu também às vezes tenho acessos inconscientes de exclusivismo. Estejam nas tintas.

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