Aumentam as tensões com a Rússia na fronteira da Ucrânia. Eis o que precisa de saber

CNN , de Matthew Chance e e Laura Smith-Spark
9 dez 2021, 20:03
Vladimir Putin
Vladimir Putin

As tensões entre a Ucrânia e a Rússia, ambos antigos estados soviéticos, aumentaram no fim de 2013 devido a um acordo histórico político e comercial da Ucrânia com a União Europeia. Depois de o então Presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovych, ter suspendido as conversações, alegadamente por pressões de Moscovo, seguiram-se semanas de protestos em Kiev que culminaram em violência

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As tensões entre a Ucrânia e a Rússia aumentam como nunca desde há muito tempo, com relatos de uma concentração de tropas junto das fronteiras russas com a Ucrânia, aumentado os receios relativamente às intenções de Moscovo.

A Ucrânia avisa que a Rússia está a tentar desestabilizar o país antes de uma invasão militar planeada. As potências ocidentais avisaram repetidamente a Rússia, nas últimas semanas, contra atitudes mais agressivas contra a Ucrânia.

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O Kremlin nega que esteja a planear atacar e argumenta que o apoio da NATO à Ucrânia, incluindo um aumento do fornecimento de armas e treino militar, constitui uma ameaça crescente ao flanco ocidental da Rússia.

A imagem é complicada, mas eis um resumo do que sabemos. 

Qual a atual situação na fronteira?

Os Estados Unidos e a NATO descreveram há poucas semanas os movimentos e concentração de tropas na fronteira da Ucrânia e à volta da mesma como sendo "invulgar."

No mês passado, revelaram que material bélico russo, incluindo armas autopropulsadas, carros de combate e veículos de combate de infantaria, em movimento num local de treino a cerca de 300 quilómetros da fronteira. Mas muito pouca informação foi tornada pública para sustentar alegação das potências ocidentais de uma ameaça crescente.

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Muitas das bases militares russas ficam a oeste do vasto país, a direção da qual a história sugere que possam vir provavelmente mais ameaças. O ministro da Defesa russo declarou a 1 de dezembro que iniciou exercícios militares “regulares” de inverno na região sul, que em vários locais fazem fronteira com a Ucrânia. Os exercícios envolvem mais de 10000 soldados, declarou o ministro.

Entretanto, as regiões ucranianas de leste de Donetsk e Luhansk que fazem fronteira com a Rússia, uma área conhecida por Donbas, estão sob controlo de separatistas apoiados pelos russos desde 2014. As forças russas também estão presentes na região que a Ucrânia refere como "territórios ocupados temporariamente", apesar de a Rússia negar.

As linhas da frente do conflito pouco se moveram em cinco anos, mas há frequentes embates em pequena escala e ataques com atiradores especiais. A Rússia enfureceu-se quando as forças ucranianas lançaram um drone de combate fabricado na Turquia pela primeira vez em outubro, para atacar uma posição dos separatistas pró-Rússia.

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A Rússia também tem dezenas de milhares de militares na sua base naval da Crimeia, o território ucraniano que anexou em 2014. A península da Crimeia, que se situa a sul do resto do território ucraniano, está agora ligada por uma ponte rodoviária para a Rússia continental.

Qual a história do conflito entre a Ucrânia e a Rússia?

As tensões entre a Ucrânia e a Rússia, ambos antigos estados soviéticos, aumentaram no fim de 2013 devido a um acordo histórico político e comercial da Ucrânia com a União Europeia. Depois de o então Presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovych, ter suspendido as conversações, alegadamente por pressões de Moscovo, seguiram-se semanas de protestos em Kiev que culminaram em violência.

Então, em março de 2014, a Rússia anexou a Crimeia, uma península autónoma no sul da Ucrânia com fortes ligações à Rússia, com o pretexto de que estava a defender os seus interesses e os dos cidadãos falantes de russo. Primeiro, milhares de militares que falavam russo, apelidados "homenzinhos verdes" e reconhecidos posteriormente por Moscovo como soldados russos, invadiram a península da Crimeia. Em poucos dias, a Rússia completou a anexação com um referendo considerado ilegítimo pela Ucrânia e pela maioria do mundo.

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Pouco depois, separatistas pró-Rússia nas regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk declararam a sua independência de Kiev, o que culminou em meses de intensos combates. Apesar de Kiev e Moscovo terem assinado um tratado de paz em Minsk em 2015, mediado por França e pela Alemanha, tem havido repetidas violações do cessar-fogo.

Segundo os últimos números da ONU, houve mais de 3000 mortes de civis no leste da Ucrânia desde março de 2014.

A União Europeia e os EUA impuseram uma série de medidas em resposta às ações da Rússia na Crimeia e no leste da Ucrânia, incluindo sanções económicas que visavam indivíduos, entidades e setores específicos da economia russa.

O Kremlin acusa a Ucrânia de provocar tensões no leste do país e de violar o acordo de cessar-fogo de Minsk.

Qual o ponto de vista da Rússia?

O Kremlin negou repetidamente que a Rússia esteja a planear invadir a Ucrânia, insistindo que a Rússia não é uma ameaça para ninguém e que os movimentos de tropas no país no seu território não deveriam constituir motivo para alarme.

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Moscovo vê o crescente apoio da NATO à Ucrânia, em termos de armamento, treino e pessoal, como ameaça à sua segurança. Também acusou a Ucrânia de aumentar o número de tropas para se preparar para tentar retomar o controlo da região de Donbas, uma alegação que Ucrânia negou.

O Presidente russo Vladimir Putin apelou à existência de acordos legais que eliminariam qualquer aumento da expansão da NATO para leste e em direção às fronteiras da Rússia, declarando que o Ocidente não cumpriu as anteriores garantias verbais.

Putin também disse que o facto de a NATO estar a colocar armas sofisticadas na Ucrânia, tais como sistemas de mísseis, seria ultrapassar uma "linha vermelha " para a Rússia, entre preocupações em Moscovo de que a Ucrânia está a ser cada vez mais armada pelas potências da NATO.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que no mês passado eu os EUA e outros países da NATO já estavam fornecer armas e conselheiros militares à Ucrânia. "E tudo isto, claro, leva a um agravamento da situação na linha de fronteira," declarou ainda.

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Se os EUA e os seus aliados da NATO não mudarem de rumo na Ucrânia, o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergey Lavrov avisou que Moscovo tem “o direito de escolher formas de garantir os seus legítimos interesses de segurança.”

 

Qual o ponto de vista da Ucrânia?

O Governo ucraniano insiste que Moscovo não pode impedir Kiev de criar laços mais próximos com a NATO se assim o decidir.

"A Rússia não pode impedir a Ucrânia de se aproximar da NATO e não tem o direito interferir em conversações relevantes", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros numa declaração à CNN, em resposta aos apelos russos à NATO para que pare a expansão para leste.

"Quaisquer propostas russas de discutir com a NATO ou com os EUA quaisquer denominadas garantias de que a Aliança não se expandiria para Leste são ilegítimas", acrescentou.

A Ucrânia insiste que a Rússia procura desestabilizar o país tendo o seu Presidente, Volodymyr Zelensky, declarado recentemente que foi revelado um plano de golpe que envolvia ucranianos e russos.

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O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, avisou que um plano de golpe poderia ser parte do plano futuro da Rússia de uma futura invasão militar. "A pressão militar externa anda a par com a desestabilização interna do país", declarou.

As tensões entre os dois países foram exacerbadas por um aprofundamento da crise energética ucraniana que Kiev acredita que Moscovo provocou propositadamente.

Ao mesmo tempo, o Governo de Zelensky' enfrenta desafios em muitas frentes. A popularidade do Governo estagnou entre diversos desafios políticos internos, incluindo uma terceira vaga de infeções por covid-19 nas últimas semanas e uma economia com dificuldades.

Muitos estão também insatisfeitos por o Governo não ter ainda cumprido a promessa de benefícios e de acabar com o conflito na zona leste do país. Tem havido protestos antigovernamentais em Kiev.

O que diz a NATO?

O secretário-geral Jens Stolenberg disse que "haverá um alto preço a pagar pela Rússia" se voltar a invadir a Ucrânia.

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"Temos uma vasta gama de opções: sanções económicas, sanções financeiras, restrições políticas", declarou Stoltenberg numa entrevista à CNN a 1 de dezembro.

Após a invasão da Rússia à Ucrânia em 2014, a NATO aumentou as suas defesas "com forças de combate de prontidão na região leste da Aliança, nos países do Báltico, na Letónia, mas também na região do Mar Negro", declarou Stoltenberg.

A Ucrânia não é membro da NATO, e, portanto, não tem as mesmas garantias de segurança que os membros da NATO.

Mas Stoltenberg deixou em cima da mesa a possibilidade de a Ucrânia se tornar membro da NATO, dizendo que a Rússia não tem o direito de dizer aos ucranianos que não podem tentar a adesão à NATO.

O que dizem os Estados Unidos?

Os EUA e os seus aliados da NATO têm “profundas preocupações” no que diz respeito à “postura agressiva” assumida recentemente pela Rússia em relação à Ucrânia, um aliado estratégico dos EUA, declarou o secretário de estado Antony Blinken numa cimeira da OSCE na Suécia.

Ele declarou anteriormente que a Rússia está a reunir tropas de combate ao longo da fronteira ucraniana e está a instalar capacidade para invadir de repente, se assim o decidir

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Blinken avisou a Rússia de que qualquer nova agressão pode desencadear graves consequências."

A Administração Biden está também a ponderar o envio de conselheiros militares e novo equipamento, incluindo armamento para a Ucrânia para preparar os aliados para uma possível invasão russa, disseram à CNN em novembro várias fontes com conhecimento das deliberações.

A Administração Obama foi surpreendida quando a Rússia invadiu a a Crimeia em 2014 e apoiou uma revolta na região leste ucraniana de Donbas. Autoridades dos EUA dizem que estão determinadas a não serem apanhadas de surpresa por outra operação militar russa.

"A nossa preocupação é que a Rússia possa cometer o erro grave de tentar reacender o que levou a cabo em 2014, quando reunir forças ao longo da fronteira, invadiu território soberano da Ucrânia e fê-lo com alegações falsas de que foi provocada", declarou Blinken em novembro.

Quais os fatores em jogo?

Outro grande problema tem que ver com o fornecimento de energia. A Ucrânia vê o controverso gasoduto Nord Stream 2 que liga o fornecimento de gás russo diretamente à Alemanha, como uma ameaça à sua própria segurança.

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O Nord Stream 2 é um dos dois gasodutos que a Rússia construiu no fundo do Mar Báltico, além da tradicional rede terrestre que atravessa a Europa de leste, incluindo a Ucrânia.

Kiev vê os gasodutos que atravessam a Ucrânia como um elemento de proteção contra uma invasão por parte da Rússia, uma vez que qualquer ação militar poderia potencialmente interromper o fluxo vital de gás para a Europa.

Os analistas e os legisladores americanos manifestaram preocupação de que o Nord Stream 2 aumente a dependência Europeia do gás russo gás e pode permitir a Moscovo atingir países seletivamente como a Ucrânia com cortes de energia, sem uma interrupção mais alargada do fornecimento à Europa. Contornar os países do leste europeu também significa que esses países ficariam privados das lucrativas taxas de trânsito que a Rússia teria de pagar.

Em maio de 2021, a Administração Biden levantou as sanções da empresas por trás do Nord Stream 2, dando efetivamente luz verde para a construção. As autoridades dos EUA dizem que a iniciativa era do interesse dos EUA da segurança nacional quando procurava reconstruir as desgastadas relações com a Alemanha.

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No mês passado, os EUA impuseram novas sanções a uma entidade ligada aos russos e a uma embarcação com ligações ao Nord Stream 2. Alguns senadores dos EUA pediram mais sanções a serem impostas para impedir que a Rússia de usar o gasoduto como arma; a Ucrânia também apelou ao endurecimento das medidas.

"Vemos formas diferentes como este projeto poderia não poderia constituir uma arma por parte da Rússia. Diferimos quanto ao volume e à quantidade de sanções necessários para proteger a Europa do Nord Stream 2", disse à CNN Kuleba, o ministro dos Negócios Estrangeiros à CNN.

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