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opinião
Investigador universitário doutorado. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, polarização e impactos nos direitos fundamentais

A guerra cultural dos EUA à Europa

24 set 2025, 19:12

"I hate to say that I told you so, but I told you so". Pode ficar mal apelar à justa razão em causa própria, mas torna-se inevitável diante dos factos

Desde 2018 que me debruço sobre as chamadas "guerras culturais", um fenómeno que assenta numa luta entre os ditos "conservadores" e os "progressistas", em torno de matérias de ordem moral, como aborto, papel da religião na sociedade, casamento e outros direitos homossexuais, identidade de género, imigração ou identidade nacional. As diferenças nestas matérias resultam numa polarização extrema, potenciada pelas redes sociais, que se traduz numa verdadeira luta pela hegemonia cultural no coração das sociedades.

Diante do crescimento de uma esquerda cultural, que abandonou as lutas operárias para se concentrar nas lutas de identidade social, e cujos valores se tornaram progressivamente dominantes nas instituições sociais, surgiu a inevitável reação cultural de sentido contrário, o chamado "cultural backlash", uma resposta política de promoção de valores etnonacionalistas.

Vem isto a propósito do relatório do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), numa parceria com a Fundação Cultural Europeia, que indica que Donald Trump tem em curso uma "guerra cultural" contra a democracia liberal na Europa, promovendo uma transformação ideológica em direção a valores nacionalistas e iliberais.

Um relatório que não só não surpreende como é tardio. Há muito que a Europa se tornou o palco privilegiado de ensaios iliberais, reabrindo velhas feridas num continente marcado pelos traumas dos nacionalismos e dos autoritarismos. As transformações políticas ocorridas na Europa após a crise económica de 2008 e após a crise dos refugiados de 2015 são paradigmáticas do deslizamento eleitoral para aquilo que o politólogo Cas Mudde chama de "ultradireita".

A instrumentalização do ressentimento económico em favor de um nacionalismo étnico e religioso, voltado para o combate aos imigrantes, à esquerda e ao multiculturalismo, tem as mais profundas ressonâncias com a emergência dos nacionalismos da década de 1930, cujos resultados são sobejamente conhecidos.

Mas Le Pen, Orbán, Fico, Farage, Meloni ou Wilders não são apenas resultado da canalização ideológica do ressentimento ao estilo MAGA, como reporta o relatório. Na verdade, esta "guerra cultural" que Trump está a travar contra as instituições europeias, a ordem multilateral, os valores de direitos fundamentais assentes no princípio da dignidade da pessoa humana e as demais bases do Estado de direito liberal, começou com Putin. E isso no relatório fica aquém.

É, precisamente, com Vladimir Putin que se inicia a inseminação do nacionalismo racial e religioso na Europa que se traduz na guerra na Ucrânia. Explico: Putin olhou para o avanço da NATO não apenas como uma questão geopolítica, mas civilizacional. Concebendo a Rússia como uma civilização própria, assente numa identidade cultural e religiosa próprias, de pendor bizantino e de força czarista, Putin olhou para a presença da NATO na sua fronteira como um perigo civilizacional, ao representar o avanço da democracia liberal e dos seus valores inclusivos, que colocam em causa a ordem espiritual russa com a liberdade sexual, a emancipação das mulheres e os direitos LGBT+.

Foi para fazer frente ao liberalismo social e democrático que Putin financiou a direita radical europeia, promovendo toda uma ordem iliberal cujo epicentro ocidental foi a Hungria de Orbán.

Portanto, a guerra cultural de Trump à Europa é parte de uma guerra cultural maior que une uma grande internacional nacionalista de inspiração autoritária do tipo neofascista. A valorização de um ideal nacionalista de fechamento económico, industrial, cultural e geopolítico é um projeto que une Trump e Putin com um mesmo objetivo: desmantelar, por dentro, a Europa dos direitos humanos e da democracia liberal.

Cabe aos europeus recordarem-se da máxima: quem adormece em democracia, acorda em ditadura.

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