Por alguma razão traz Vitória no nome
Há uma imagem perfeita para definir esta noite.
Poucos segundos após o apito final, enquanto os companheiros se envolviam num enorme abraço, celebravam com os adeptos e eram registados nas imagens que ficam para a história, Beni Mukendi percorria sozinho o relvado de joelhos, numa promessa que tinha de cumprir, até chegar lá ao outro lado, levantar os braços ao céu e agradecer a Deus.
E é uma imagem perfeita porquê? Porque este triunfo teve, de facto, muito de místico. Teve quase tudo de místico, aliás. Há uma frase batida que se adequa a tudo o que se viveu.
Parecia escrito nas estrelas.
Não há outra forma de o dizer. Depois de vencer FC Porto e Sporting, o Vitória Guimarães completou a trilogia de histórias de filme com outro triunfo arrancado a ferros, numa reviravolta confirmada nos descontos. Um daqueles triunfos que estava destinado.
Um herói com nome de aristrocata inglês
Não deixa de ser irónico, de resto, que o herói deste Vitória tenha um nome de aristocrata inglês. Charles, pois claro. É irónico porque o Vitória foi o contrário de um aristocrata.
Foi sobretudo uma equipa de faca nos dentes, como é sempre.
Uma equipa que sabe ter limitações, mas acredita que nada disso será inultrapassável se houver talento. No fundo, é o perfeito oposto deste Sp. Braga.
Nesta altura vale a pena dizer que já se imaginava que isto não fosse apenas uma final: era uma reunião de condomínio, mas com árbitro e muita gente na garagem... perdão, no estádio. Entre dois vizinhos separados por poucos quilómetros, muitas histórias e zero paciência.
Ora quem já participou em reunião de condomínios sabe que, ao pé disso, uma final é coisa de meninos. Por muito que se queira, uma final tem menos gritos, irritações e ameaças de processos judiciais. Para além disso não tem aquele passado contado pelos avós.
Este dérbi minhoto transformado numa final foi especial exatamente por isso: porque se alimentou dessas quezílias, dessas distâncias e desses contrastes que vêm de longe e tornam qualquer assembleia de moradores uma experiência inesquecível.
Um vizinho moderno e outro que estende a roupa à janela
De um lado, o vizinho moderno, bem vestido, que conduz um carro elétrico e já tem bomba de calor e chão aquecido desde quando ainda ninguém na rua sabia sequer o que isso era.
Do outro lado o vizinho antigo, feito de pedra e memória, que sacode a toalha para a rua e estende a roupa à janela. O vizinho que não investe, nem compra a crédito. Que é poupado e vive com o que tem. E que gosta de lembrar que já estava aqui quando o outro chegou.
Por isso, porque são dois vizinhos completamente diferentes, Sp. Braga e Vitória ofereceram a esta final duas perspetivas completamente opostas. O primeiro trouxe arte e talento, boa ocupação dos espaços, qualidade com bola, naquele futebol jogado de cabeça levantada e progressão curta. Já o Vitória trouxe capacidade de choque, saídas rápidas e bolas paradas.
Só um delez traz Vitória no nome
A verdade, porém, é que esta não era noite para fato de gala. Estava demasiado frio para isso. Por isso, mesmo quando o Sp. Braga chegou ao intervalo em vantagem, depois de uma primeira parte em que foi melhor, sentia-se que o V. Guimarães podia reagir a qualquer altura.
Exatamente por isso tinha tido várias ocasiões de golo, provavelmente até as melhores. Era uma equipa viva no jogo e que só precisava de uma faísca para crescer como um foguetão.
Ora essa faísca veio do banco, nas substituições de Luís Pinto, que introduziu Samu e Camara para agitar, antes de colocar Ndoye para a fagulha final.
A segunda parte foi por isso toda do Vitória, que empatou num penálti de Samu, atirou ao ferro num remate de Nélson Oliveira e obrigou Hornicek a grande defesa antes de fazer o segundo golo. Depois, então sim apareceu Charles. Enorme, a voar para parar um penálti nos descontos e segurar o triunfo do Vitória, que vale um troféu inédito no museu.
A final, essa, foi imensa, gigante, espetacular. Carregada de ocasiões de golo, oportunidades de golo e incerteza no marcador. Uma grande final, com um volume de ódio enorme, entre dois vizinhos tão diferentes.
A verdade, porém, é que só um deles traz Vitória no nome.