O Maisfutebol visitou a cidade berço nas horas que antecederam a receção ao Betis. Com a loucura espanhola como pano de fundo, escutámos relatos imperdíveis e conhecemos lugares especiais para os adeptos. Uma viagem no tempo com direito a chá, petiscos e brindes
Uma fé inabalável para o sol que afasta as nuvens do passado. Este poderia ser o mote para os "Conquistadores" encararem o que resta da época, depois da goleada sofrida na receção ao Betis (0-4), nos "oitavos" da Liga Conferência. A esperança era contagiante e levou mais de 27 mil adeptos ao Estádio D. Afonso Henriques, na noite desta quinta-feira.
Horas antes do segundo duelo entre Vitória e Betis, o Maisfutebol esteve no berço da nação para medir o sonho dos filhos desta cidade.
Do coração de Guimarães às imediações do estádio, a ambição remetia os vimaranenses para a melhor campanha europeia. Em 1986/87, na Taça UEFA, o Vitória eliminou Sparta Praga, Atlético de Madrid e Groningen, caindo perante o Borussia Mönchengladbach, nos "quartos".
Recuemos, então, até às 16h, quando a polícia havia reunido centenas de adeptos do Betis no Largo do Toural. A festa durava desde manhã e as esplanadas estavam pintadas de verde e branco, à boleia de fumos e bandeiras penduradas nas varandas. Em redor, olhares atentos – até cortantes – de adeptos vimaranenses.
A menos de um quilómetro, com as cantorias dos espanhóis como pano de fundo, Marques, de 77 anos, não se incomodava com a “invasão”. Acomodado numa das cadeiras do Café Milenário, agradece a presença do Maisfutebol.
«Este é um café quase centenário, o meu pai era vimaranense e sempre aqui me trouxe. E o Vitória foi fundado neste lugar em 1922. Na altura era uma chapelaria, mais tarde foi um quiosque», começou por contar, enquanto pede um café.
«Nestes dias há um ambiente diferente, porque o Betis traz muitos adeptos, o que alegra a cidade, além do movimento económico que permite. Gosto de viver estes momentos. A presença dos adeptos do Betis não me incomoda, aliás, como sócio, até preferia que viessem 20 ou 30 mil. O que me incomoda são alguns comportamentos.»
«Espero uma noite de euforia e de história. Em Sevilha não jogámos menos do que eles. Esta noite vamos viver um ambiente que não existe noutro estádio português. A massa associativa é o que define a grandeza do clube e da cidade», prosseguiu.
Como seria de esperar, também este adepto septuagenário ostentava o bilhete para o duelo com o emblema andaluz. Todavia, a memória permite-lhe destacar outra epopeia na Europa.
«O maior jogo europeu do Vitória foi contra o Atlético de Madrid, para a Taça UEFA, em 1986. E já jogámos contra o Barcelona, por exemplo. Mas, o jogo com o Atlético foi memorável», terminou. Antes da despedida, Marques apostou no Chelsea como vencedor da Liga Conferência.
Ana e David, o amor que une Vitória e Betis
À saída do Café Milenário, o Maisfutebol cruzou destinos com Ana e David, vimaranense e andaluz – de 19 e 27 anos, respetivamente – namorados há quase um ano. Por estas semanas, a “Conquistadora” esteve nas bocas da cidade, face ao interesse neste curioso elo entre Vitória e Betis.
«Fui de Erasmus para Sevilha, na área da comunicação e marketing. Fomos apresentados por um amigo em comum. Só vim a Portugal para tratar da papelada na escola e, uma semana mais tarde, voltei para Sevilha, onde moro há um ano. Estávamos à espera do sorteio da Liga Conferência, queríamos muito este duelo.»
«Estive na bancada do Benito Villamarín, porque o David é sócio. Os espanhóis ficaram muito contentes pela minha presença», recordou.
Em todo o caso, o amor ficou à porta do estádio: «Jogamos em casa, esperemos que dê para o Vitória. Os adeptos também acreditam, é uma situação complicada para nós».
Quanto a David, o andaluz prometeu festejar na bancada. Por certo, longe de imaginar que venceria por 0-4.
«É um jogo especial e espero que seja possível passar, porque na Europa não temos muita história. Vamos ter muita raça andaluza em campo. Se houver golo vou festejar, mas com respeito. Obviamente», anotou.
«Já não morremos de coração»
Para escapar à multidão que rumava ao estádio, interrompemos marcha na Confeitaria Ribela, que até abril de 1974 acolheu reuniões do plantel do Vitória.
«O proprietário pagava as refeições dos jogadores. As pessoas desta cidade são assim», começou por revelar Jerónimo, novo adepto septuagenário e sócio há mais de 50 anos. Ao lado está Graça, amiga nascida na Covilhã e convertida à “febre” do Vitória.
«Estes são os jogos que nos dão “pica”. A agitação na cidade é boa, já estivemos no meio dos espanhóis e tirámos muitas fotografias. Infelizmente, há quem perca a cabeça. O que nos move é a paixão pelo Vitória, somos incapazes de trocar de clube. Na minha infância havia lendas como o Eusébio, mas muitos de nós já assumíamos as cores do Vitória.»
«Nós, vitorianos, já não morremos de coração. Já vivemos muitos episódios. Jogos como o desta noite provocam imensa ansiedade. Por isso, apesar da idade – e dos problemas inerentes – devemos presenciar estes momentos», acrescentou Jerónimo, muito animado.
Enquanto oferecia um chá de cidreira, este adepto aproveitou a atenção do Maisfutebol para projetar o duelo com o Betis.
«Tenho fé, mas é preciso correr muito bem. Há uma semana jogámos olhos nos olhos, mas o Betis tem uma equipa tremenda. Ainda assim, por vezes, isso não é suficiente. Já agora, sobre o Luís Freire, está a plantar talentos que pegam de estaca e a equipa está forte. Não fossem as saídas e estaríamos próximos do pódio», argumentou.
E assim terminara a hora do chá, enquanto o relógio acelerava para as 20 horas.
«Uma noite como nos anos '80»
Antes de rumar à casa do Vitória, o Maisfutebol abriu o apetite no Dom Brasas, tendo como banda sonora os adeptos do Betis que desfilavam entre cachecóis, fumos, petardos, bandeiras e cânticos. O convite para jantar foi entregue por António Lopes, fundador da Associação Amigos do Vitória. Este adepto viveu como poucos as últimas quatro décadas dos “Conquistadores”.
No serão desta quinta-feira, António partilhou a refeição com amigos de juventude, no final do século XX camaradas na “Juvi”, a primeira claque do clube.
«Foi fundada em '84, mas vou ao futebol desde '78. E nasci em 1972. Chegava ao estádio com o meu irmão e estávamos por nossa conta. Em 2007 ajudei a fundar a associação, quando o Vitória lutava para subir à Liga.»
«Eu tinha a responsabilidade de organizar a viagem para famílias que queriam estar nos estádios de forma tranquila. Mas era uma responsabilidade assustadora. Depois da pandemia, o clube assumiu esse trabalho», comentou.
Entre copos, talheres e acessos debates, António reiterou a importância desta quinta-feira na história do Vitória.
«É o dia mais importante do ano. Vamos ter uma noite como nos anos '80. É importante voltar aos quartos de final, depois da campanha de 1986/87, na Taça UEFA. Dos jogos europeus a que assisti, destacaria a vitória sobre o Parma na Taça UEFA, em 1996. O Buffon esteve na baliza, o Parma tinha uma equipa fantástica.»
«O meu primeiro jogo europeu foi contra o Aston Villa, em 1983, meses antes da fundação da “Juvi”. Tinha 12 anos», concluiu, convidando os presentes a um brinde.
Ao descer para a rua, este grupo entregou-se às emoções, entoando cânticos de outras décadas e vivências. Uma nostalgia que reforça a fé e renova os laços entre "Conquistadores". Independentemente do momento, do resultado ou dos protagonistas. É uma luz que não se apaga.
A única derrota do Vitória na Liga Conferência dita a eliminação. Nesta campanha, os vimaranenses derrotaram Floriana (2), Zurique (2), Mostar (2), Celje, Djurgarden, Boleslav e St. Gallen, além de empatarem com Astana, Fiorentina e Betis. É, portanto, uma campanha para recordar.