Grupo de timorenses mostra bandeira portuguesa escondida durante 48 anos a Marcelo

Agência Lusa
20 mai, 12:28

O funcionário escondeu a bandeira de 1975 durante toda a ocupação Indonésia. O momento insólito ocorreu antes do Presidente condecorar o português que vive há mais tempo em Timor-leste por promover a ligação entre os dois países

Uma bandeira portuguesa de 1975, guardada por um funcionário publico timorense durante toda a ocupação Indonésia, foi esta sexta-feira mostrada ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, momentos antes de este condecorar o português que vive há mais tempo em Timor-Leste.

O inesperado momento aconteceu à entrada da Escola Amigos de Jesus, projeto de vida do padre jesuíta João Felgueiras, quem em junho cumpre 101 anos e a quem o Presidente conferiu a segunda condecoração do Estado português.

Vinte anos depois de Jorge Sampaio entregar o Colar de Oficial da Ordem da Liberdade, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou o padre jesuíta com a Grã-Cruz da Ordem de Camões, em reconhecimento pelo seu papel na difusão da língua e cultura portuguesas.

“É alguém que há 51 anos se dedica a fazer a ponte entre Timor e Portugal. Esteve por detrás da ajuda permanente das ligações entre Portugal e Timor. Fez esta obra, e agora são mil e tal alunos. Excecional”, disse o Presidente português, referindo-se à escola, construída com apoio do Governo timorense e com doações de cidadãos privados e empresas.

“Condecorei o padre Felgueiras com uma ordem que foi criada há muito pouco tempo, a Ordem de Camões, com a Grã Cruz. Esta ordem agradece a projeção da língua portuguesa, da cultura portuguesa em todo o mundo”, explicou.

Foi algo que o jesuíta “fez e está a fazer (…) há mais de meio século, que o fez em condições muito difíceis durante aqueles 25 anos em que abria portas que mais ninguém abria”, recordou.

Esta nova condecoração foi entregue, entre outros, ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e, postumamente, ao Nobel da Literatura, José Saramago.

Depois de visitar três escolas em Timor-Leste, Marcelo Rebelo de Sousa frisou a importância que tem tido a promoção da língua portuguesa no país, vincando que as autoridades timorenses querem um reforço neste que é o setor principal da cooperação de Portugal.

Depois, e perante aplausos e vidas de centenas de crianças, ouviu-se o hino de Timor-Leste e Portugal e, a pedido do próprio padre, um poema de Fernando Pessoa e a canção “Ai Timor”, de Luis Represas, “a favorita” de João Felgueiras.

Momento insólito surpreende Marcelo 

Antes desse momento, que marcou o encontro com o padre Felgueiras e a visita à Escola de Marcelo Rebelo de Sousa, um pequeno grupo de pessoas do bairro juntou-se ao portão e abriu duas bandeiras, uma visivelmente mais desgastada.

A várias vozes, o grupo foi contando a história de uma bandeira guardada desde 1975 por José Pinto Baptista - funcionário da administração portuguesa e pai de 11 filhos -, e que está agora à guarda do filho, que a quis mostrar a Marcelo Rebelo de Sousa.

“Esta bandeira é de 75. Era do pai do meu marido que a guardou toda a vida”, contou Eregina Pinto Baptista, 48 anos, explicando que o pai “sempre amou Portugal”.

“O pai já morreu e agora é o meu marido que a guarda. Esteve sempre escondida no tempo indonésio, com muitos documentos e cassetes”, disse.

“Não sei a história, porque ele a guardou quando nos éramos pequeninos. E agora aproveitámos que o Presidente vem, para a mostrar ao Presidente, uma lembrança para nós. Amamos muito Portugal”, disse.

Segundo a timorense, o seu pai dizia que “bandeira é Lulik”, numa referência ao papel sagrado que a bandeira portuguesa ainda tem para muitos timorenses.

De certa forma cumpriu-se assim uma já quase tradição aquando da visita de chefes de Estado portugueses – vistos em Timor-Leste quase como liurais, os chefes tradicionais – com a bandeira portuguesa, algumas com décadas, a serem apresentadas ou entregues, muitas vezes por anónimos.

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