Gripes, Zika, Dengue, Ébola, Sarampo, Poliomielite. Além da covid-19 e monkeypox, a que outras doenças devemos estar atentos?

5 jun, 08:00
Coronavírus

Não há motivo para alarme, dizem os especialistas. Mas num mundo cada vez mais globalizado e com as alterações climáticas, devemos estar cada vez mais preparados para que doenças consideradas raras se tornem comuns

São já mais de 130 os casos de monkeypox diagnosticados em Portugal e 257 em 23 países. A Organização Mundial da Saúde diz que é pouco provável que se torne pandemia e o virologista Paulo Paixão concorda: "A monkeypox não tem grande caráter pandémico e não é uma doença muito grave, a taxa de mortalidade pode chegar aos 10%, mas ainda estamos muito longe disso", diz o especialista à CNN Portugal. "A comunidade científica está atenta e é normal que estejamos todos alerta porque é uma situação nova para nós e um vírus que era desconhecido da maior parte das pessoas", explica, considerando no entanto que "não há sinal para alarme".

Num mundo cada vez mais globalizado e sofrendo os efeitos das alterações climáticas, teremos de nos preparar para que cada vez mais doenças doenças se tornem comuns, explicaram os especialistas à CNN Portugal. Tal como a monkeypox, que já existia noutros países e que agora chegou à Europa, há muitas outras doenças de que geralmente não falamos mas que estão constantemente a ser monitorizadas porque podem vir a tornar-se epidemias ou mesmo pandemias.

De uma forma geral, diz Paulo Paixão, os especialistas consideram que os vírus que são "potenciais agentes de pandemia" são sobretudo de dois tipos: os vírus respiratórios e os arbovírus.

"Se olharmos para a história das pandemias no mundo, verificamos que a maior parte delas teve transmissão pela via respiratória", explica Paulo Paixão. "Mesmo a peste, na Idade Média, tinha transmissão respiratória, foi por isso que se espalhou tanto." Por esse motivo, todos os vírus que se transmitem desta forma estão sempre sob monitorização. "E falamos dos vírus e não das bactérias, porque para estas geralmente temos antibióticos."

Dentro dos vírus respiratórios, encontramos os vírus da gripe (Influenza) e os coronavírus (os principais são: Sars-CoV, MERS-CoV, Sars-CoV-2).

Os arbovírus são aqueles vírus que são transmitidos por artrópedes, sobretudo insetos. Neste grupo, incluem-se o Dengue e o Zika. Paulo Paixão explica que, devido às alterações climáticas, "há cada vez mais insetos fora das suas zonas habituais" e que, portanto, é sempre preciso estar atento

Existem outros vírus que podem "causar distúrbios" mas que, segundo Paulo Paixão, "têm pouco carácter pandémico". 

Gripe suína e gripe das aves

Os vírus da gripe animal são distintos dos vírus da gripe sazonal humana e, de uma maneira geral, não se transmitem facilmente entre humanos. No entanto, os vírus da gripe zoonótica - vírus da gripe animal que podem ocasionalmente infetar humanos por contacto direto ou indireto - podem causar doenças em humanos que variam de uma doença leve à morte.

Antes da covid-19, a última vez que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tinha emitido um alerta pandémico foi em 2009, com o vírus H1N1 -  inicialmente chamado vírus da gripe suína, o H1N1, é uma combinação dos vírus da influenza suína, aviária e humana. A doença foi detetada na América do Norte e espalhou-se por mais de 70 países. O alerta pandémico manteve-se até 2010 e, desde então, o vírus circula como influenza sazonal e está incluído nas vacinas contra a gripe sazonal.

O subtipo H5N1, responsável pela chamada gripe das aves, foi isolado pela primeira vez em estorninhos, em 1961, na África do Sul. Em maio de 1997, o vírus Influenza A H5N1 foi isolado pela primeira vez em humanos, numa criança de Hong Kong. Dezoito pessoas foram infetadas nessa altura, morrendo seis destas. De acordo com a OMS, a taxa de mortalidade é de 60%.

Desde então, o vírus H5N1 tem atacado esporadicamente na Tailândia, Camboja, Vietname e Indonésia. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, desde 2003 a 31 de março de 2022, um total de 864 casos e 456 mortes de infeção humana por H5N1 foram relatados em 18 países.

Desde final no ano passado, vários países estão a debater-se com um surto de gripe das aves em diversos animais. No entanto, em 2021 e 2022 apenas foram documentados dois casos de contágio humano: um no Reino Unido e outro nos EUA, em que a transmissão se deu devido a um contacto prolongado e muito próximo com as aves infetadas. A OMS continua a monitorizar este vírus, sublinhando que os vírus da gripe sofrem constantemente mutações genéticas, no entanto este apenas será um motivo de preocupação quando a sua transmissão entre humanos se tornar frequente.

Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS)

A SARS é uma doença infecciosa respiratória viral causada por um coronavírus conhecido como SARS-CoV-1. O vírus foi simplesmente chamado de SARS-CoV até dezembro de 2020, quando uma nova cepa foi identificada, dando origem à pandemia de covid-19. O primeiro surto conhecido da doença ocorreu na China em novembro de 2002 e rapidamente se espalhou pelo continente asiático e, depois, noutros locais, causando a epidemia de SARS em 2002-2004.

Os sintomas incluem febre alta, dor de cabeça, dores musculares, perda de apetite e fadiga. No entanto, quando a infecão atinge o estágio em que afeta o sistema respiratório, pode causar graves dificuldades respiratórias e falta de oxigénio no sangue. Embora a SARS tenha causado um número relativamente baixo de infeções em comparação com as outras epidemias, teve uma taxa de mortalidade de 11%, causando mais de 800 mortes em apenas oito meses.

Apesar de o vírus ter desaparecido quase tão rapidamente quanto apareceu, sem nenhum caso relatado desde o final de 2004, não há garantia de que não reaparecerá no futuro. 

Febre Zika

A febre Zika é uma doença viral descoberta pela primeira vez em macacos no Uganda em 1947 e, mais tarde, em humanos no Uganda e na Tanzânia em 1952. É transmitida pela picada de um mosquito Aedes infetado – o mesmo mosquito que transmite a febre amarela e outras doenças – geralmente encontrado em regiões tropicais e subtropicais.

Os sintomas do Zika tendem a ser leves e geralmente duram de vários dias a uma semana. Tanto a hospitalização quanto as taxas de mortalidade são baixas, e os sintomas mais comuns incluem febre, erupção cutânea, dores musculares e conjuntivite. No entanto, a doença ainda representa um risco, principalmente se infetar uma mulher grávida, uma vez que pode provocar no feto problemas congénitos graves e lesões cerebrais. 

A epidemia mais recente do vírus Zika ocorreu entre 2015-2016, quando se espalhou pelo continente americano. Na altura, estimava-se que 1,5 milhão de pessoas estavam infetadas só no Brasil, causando 3.500 casos de defeitos congénitos. Vários países emitiram avisos de viagem e houve preocupações com os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, provocando uma transmissão generalizada. No entanto, essas preocupações não se concretizaram e, em novembro de 2016, a OMS declarou que o Zika  já não era uma emergência global.

Dengue

A infeção pelo vírus Dengue é provocada por um flavivírus e transmite-se através da picada dos mosquitos do género Aedes, particularmente Aedes Aegypti, infetados com o vírus, não ocorrendo transmissão de pessoa para pessoa.

Embora se estime que haja entre 100 e 400 milhões de infeções todos os anos, mais de 80% são geralmente leves e assintomáticas. O número de casos reportados à OMS desceu nos anos de 2020 e 2021, o o que poderá estar relacionado com a diminuição da mobilidade devido à pandemia de covid-19.

O Governo de São Tomé confirmou, no início de maio, um surto da dengue no país, com confirmação laboratorial de 30 dos 41 casos notificados, entre os quais quatro internados, mas sem ocorrência de óbitos.

Doença do vírus Ébola

O vírus Ébola é uma doença viral rara, mas mortal, descoberta em 1976 na República Democrática do Congo. Desde a sua descoberta, a maioria dos surtos e casos registados ocorreram no continente africano. Entre 2014-2016, no entanto, um surto do vírus Ébola que começou na Guiné espalhou-se e rapidamente foi classificado como uma epidemia global, provocando cerca de 11.300 mortes.

"O Ébola não tem transmissão respiratória, portanto dificilmente se tornaria uma pandemia, mas tem uma mortalidade elevada, na ordem dos 30% a 50%, e por isso é preocupante", diz Paulo Paixão.

Os sintomas do Ébola podem ser confundidos com os sintomas típicos da gripe no início da infeção, com fraqueza, febre, dor de cabeça, dor de garganta e dores musculares sendo identificadores comuns. À medida que o vírus progride, causa sangramento interno, bem como dos olhos, ouvidos e nariz, e dentro do trato digestivo.

Durante a epidemia de 2014-2016, realizou-se um teste de vacina de dois anos na Guiné, com resultados bastante positivos. 

O mais recente surto de Ébola foi registado em fevereiro de 2021. No entanto, devido aos recursos e experiência adquiridos com a epidemia de 2014-2016, combinados com a experiência no combate à pandemia de covid-19, o surto foi contido com sucesso antes de voltar a ser uma epidemia.

De acordo com relatórios da Organização Mundial da Saúde, existe a possibilidade de os surtos do vírus Ébola se tornarem mais comuns num futuro próximo. Os relatórios sugerem que, devido à desflorestação, vários tipos de morcegos tiveram que sair dos seus habitats naturais, aproximando-se das populações humanas e aumentando o risco de contaminação entre espécies.

Poliomielite e Sarampo

Na semana passada, a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, referiu-se ao reaparecimento da poliomielite em Moçambique, sublinhando que "há sempre a hipótese de Portugal importar casos" e "a partir dessa reintrodução no nosso país virem a desenvolver-se focos da doença, que está eliminada na Europa".

Trata-se do primeiro caso naquele país desde 1992, segundo a OMS, que não detetou situações de propagação da doença. A sequenciação permitiu associar a infeção a uma variante que circulava no Paquistão em 2019, como aconteceu noutro caso relatado pelo Maláui em fevereiro. Segundo a OMS, os dois casos não afetam a certificação de que África se encontra livre do poliovírus selvagem desde agosto de 2020, mas o surto no país vizinho fez Moçambique realizar duas campanhas de vacinação, abrangendo 4,2 milhões de crianças.

A poliomielite, que está eliminada em Portugal, é uma doença infecciosa sem cur,a que afeta sobretudo as crianças com menos de cinco anos, podendo provocar, nalguns casos, a paralisia de membros, e só pode ser prevenida com a vacina.

Paulo Paixão considera improvável o surgimentos de surtos significativos de poliomielite ou de sarampo, uma vez que para ambos os casos "a vacina é muito eficaz". "O sarampo é o vírus mais transmissível de todos, por isso a taxa de vacinação tem de estar acima dos 95%, sempre que há um abaixamento surgem alguns casos", recorda. No entanto, este especialista acredita no trabalho que está a ser feito em todo o mundo para aplicar as vacinas.

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