Como proteger os seus filhos da violência no namoro. Saiba a que sinais deve estar atento

CNN , Julianna Bragg
26 abr 2025, 18:00
Comportamentos controladores são, de uma forma geral, sinais de alerta para problemas mais profundas, avisa Krista Mehari, psicóloga clínica e professora assistente na Universidade de Vanderbilt, em Nashville.
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Comportamentos controladores são, de uma forma geral, sinais de alerta para problemas mais profundas, avisa Krista Mehari, psicóloga clínica e professora assistente na Universidade de Vanderbilt, em Nashville

Nota do editor: se o leitor ou alguém que conhece estiver numa relação abusiva, existe ajuda disponível, por exemplo, na Linha de Apoio à Vítima da APAV, ligando para o 116 006

Uma recente série documental da Netflix revelou detalhes inéditos sobre a história da criadora de conteúdos de viagens Gabby Petito, uma jovem de 22 anos assassinada pelo noivo, Brian Laundrie, durante uma viagem de carro pelos Estados Unidos da América em 2021.

Tal como em acontece em muitos outros casos de violência doméstica, a história retratada em “American Muder: Gabby Petito” gerou indignação pela falta de intervenção antes de os restos mortais da jovem, que foi vítima de um estrangulamento, terem sido encontrados na Floresta Nacional Bridger-Teton, em Wyoming. Segundo o médico legista, Laundrie viria a suicidar-se mais tarde.

O caso de Petito é uma das muitas tragédias de violência doméstica que envolvem jovens e que continuam a provocar indignação e receio, sobretudo quando há adolescentes.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a violência no namorado entre os adolescentes continua a ser comum: cerca de um em cada três jovens sofre abuso físico, sexual, emocional ou verbal por parte do parceiro, segundo estatísticas do Hospital Pediátrico de Filadélfia.

As consequências da violência no namoro entre adolescentes podem tanto ser imediatas como duradouras. As vítimas têm maiores probabilidades de sofrer de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, assim como de manifestarem comportamentos agressivos e pensamentos suicidas, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Ter uma relação saudável pode ser um desafio tanto para adolescentes como para os pais. Contudo, a cautela e a comunicação aberta são essenciais para prevenir atos de violência.

Sinais de alerta precoces

Muitas pessoas associam a violência física – como empurrões, agressões ou até mesmo agressão sexual – a relações abusivas, mas nessas relações também é comum uma forma de violência psicológica, conhecida como controlo coercivo.

Esta tática é utilizada para exercer poder sobre alguém, incutindo sentimentos de isolamento e de medo, explica Sherry Hamby, professora de psicologia na Universidade do Sul, em Sewanee, Tennessee, e diretora do Life Paths Research Center, que se dedica a promover a resiliência e a justiça social em comunidades marginalizadas.

Sinais comuns de controlo coercivo podem incluir exigir saber onde está o parceiro, forçá-lo a partilhar a sua localização, fazer pressão para o envio de fotos explícitas ou de outras informações, como palavras-passe, bem como comportamentos de isolamento, como desencorajar o parceiro de ver amigos, familiares ou outras pessoas que sejam consideradas “uma ameaça” à relação.

Muitos adolescentes têm dificuldades em reconhecer estas dinâmicas tóxicas, especialmente porque a cultura popular costuma retratar o ciúme como um sinal de amor.

No entanto, comportamentos assentes no controlo são, de uma forma geral, sinais de problemas mais profundos, refere Krista Mehari, psicóloga clínica e professora assistente no departamento de psicologia e desenvolvimento humano da Universidade de Vanderbilt, em Nashville.

A vitimização sexual é outra preocupação importante que os adolescentes e os pais devem ter em conta. Mesmo que um incidente não envolva violação, qualquer forma de coação – beijos forçados, toques sem consentimento ou pressão para participar em atividades sexuais – continua a ser considerada uma agressão sexual.

O consentimento deve sempre ser explícito, entusiástico e contínuo, o que significa que pode ser retirado a qualquer momento durante uma interação, explica Hamby.

Além disso, a coação reprodutiva – que inclui pressionar o parceiro para ter relações sexuais sem proteção, mentir sobre métodos contracetivos ou manipular alguém para engravidar – é outra forma de abuso que os adolescentes podem não reconhecer facilmente, junta Hamby.

Perguntas que os adolescentes devem considerar sobre as suas relações

Para ajudar os adolescentes a refletir sobre se as suas relações amorosas são saudáveis ou não, Hamby recomenda que os pais ou tutores conversem regularmente com eles, o que permite identificar quaisquer mudanças ou problemas.

Os adolescentes devem garantir que não estão a ser insultados ou diminuídos quando estão numa relação, especialmente quando se trata de críticas sobre a sua aparência ou sobre o seu peso.

No caso dos adolescentes que praticam desporto ou têm outras atividades extracurriculares, um parceiro saudável deve incentivá-los a continuar com esses passatempos, ficando feliz com o seu sucesso.

Hamby refere que os adolescentes mais velhos devem estar atentos a comportamentos que prejudiquem o seu crescimento pessoal. Um parceiro deve apoiar a decisão do outro de seguir estudos superiores ou de aproveitar oportunidades de trabalho que se adequam ao seu estilo de vida e bem-estar.

Entre os sinais mais óbvios de violência no namoro estão ameaças diretas, danos ou destruição de bens, investidas físicas agressivas.

Os pais ou tutores devem acompanhar as relações dos adolescentes, buscando sinais de alerta que ajudem a identificar abusos que eles próprios possam não reconhecer.

Como pais e tutores podem ajudar

Intervir na relação de um adolescente pode ser complicado, uma vez que estes tendem a resistir à supervisão dos seus pais ou tutores.

Em alternativa, Hamby sugere que partilhe recursos com informação sobre que relações são saudáveis e abusivas, o que permite que os adolescentes explorem esses conteúdos por si próprios, sem sentirem pressão.

Outra abordagem passa por envolver uma fonte externa de confiança, como um familiar, um treinador ou um líder religioso, para que o adolescente veja essa pessoa como um guia mais objetivo.

As raparigas e as jovens mulheres são, muitas vezes, ensinadas a evitar dizer que “não, para serem educadas, o que pode torná-las vulneráveis à coação sexual em fases mais tardias das suas vidas, afirma Mehari, da Universidade de Vanderbilt. Ensinar desde tenra idade as crianças a definir e a afirmar os seus limites pode ajudá-las a lidar com estas situações com confiança, antes de entrarem no mundo dos relacionamentos.

Como as conversas sobre temas sensíveis podem ser desconfortáveis, Hamby sugere aproveitar as viagens de carro mais longas para criar um ambiente mais descontraído para que essas discussões possam surgir de uma forma mais aberta.

Dar o exemplo e falar sobre relações saudáveis

Os pais e tutores desempenham um papel fundamental quando demonstram respeito, comunicação, gentileza e limites, ou seja, quando dão o exemplo do que é uma relação saudável às suas crianças e jovens.

Contudo, dar o exemplo pode não ser o suficiente. É por esse motivo que os adultos devem também dar orientações claras sobre como lidar com os desafios que surgem nas relações.

Como alguns adolescentes podem hesitar na hora de falar sobre os seus problemas nas relações, a cultura popular pode ser usada como um ponto de partida. Discutir as dinâmicas das relações retratadas em séries e filmes pode ser uma forma menos pessoal de distinguir que comportamentos são saudáveis e que comportamentos são prejudiciais.

Mehari dá o exemplo de “Baby, It’s Cold Outside”, uma das mais conhecidas canções de Natal, que alguns críticos alegam romantizar a coação e ignorar o consentimento. Esta canção pode ser usada como uma oportunidade para discutir o que se deve fazer quando alguém não aceita um “não” como resposta.

Os pais e tutores também podem iniciar as conversas a partir de relações reais que os adolescentes observam, como amigos divorciados ou colegas na escola, o que permite discussões que são menos pessoais e emotivas.

Acima de tudo, as famílias que querem que as suas crianças e adolescentes sejam honestos devem criar um ambiente seguro e livre de julgamentos, onde estes se sintam à vontade para serem vulneráveis, sem receios de castigos imediatos.

“Os pais precisam de construir relações onde os filhos sabem que serão ouvidos e onde os pais se mostram curiosos e interessados, em vez de optarem por reações intempestivas”, diz Mehari.

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