Marco, 34 anos, é uma das mais de 800 vítimas que pediram ajuda à Associação Quebrar o Silêncio, que apoia homens vítimas de violência sexual. Confessa que demorou algum tempo a perceber que as situações que vivia quase diariamente eram muito mais do que “uma brincadeira”. Arrepende-se, hoje, de não ter pedido ajuda mais cedo. A ansiedade, os pesadelos e as insónias tomaram conta do seu dia-a-dia
Marco, 34 anos, é um dos mais de 800 sobreviventes que pediram ajuda à Associação Quebrar o Silêncio, que apoia homens vítimas de violência sexual. Confessa que demorou algum tempo a perceber que as situações que vivia quase diariamente eram muito mais do que “uma brincadeira”. Arrepende-se, hoje, de não ter pedido ajuda mais cedo. A ansiedade, os pesadelos e as insónias tomaram conta do seu dia-a-dia
Marco prefere não revelar a identidade. O pesadelo que tem vivido no trabalho ainda lhe tira o sono e provoca pesadelos. Demorou a perceber que estava a ser vítima de assédio no local de trabalho, porque ele próprio vivia subjugado a mitos e preconceitos.
“Na altura nem sequer sabia que os homens podiam assediar outros homens, especialmente porque ele é casado com uma mulher e eu também. Parecia mais brincadeira, pelo menos no início”, conta, num testemunho escrito partilhado com a CNN Portugal.
“Ele dizia que eu era o homem mais bonito que ele tinha conhecido e que, se ele fosse gay, me iria querer como namorado. De início, eu achava que era tudo brincadeira, de tal modo que até comentei em casa com a minha mulher, mas ela já achava estranho que ele fizesse aqueles comentários, especialmente no local de trabalho”, começa por contar.
Nem os alertas da mulher fizeram soar as campainhas. Marco sempre foi desvalorizando e estava convicto de que “eram tudo brincadeiras entre colegas”. “Sempre fui hetero e nunca tive dúvidas, mas ele embirrava que sim [que Marco era homossexual]. Estava sempre a dizer que eu um dia ia sair do armário e andar nas marchas”, recorda.
Desvalorizou as diferentes situações ao ponto de até chegar a “dar troco”, “só para não ser o chato de serviço que não brinca com os outros colegas”. “Mas, na maioria das vezes, eu não ligava porque não gostava”, confessa.
Até ao dia que o colega em causa passou das palavras aos atos e a situação escalou para o assédio físico: “Começou a dar-me palmadas no rabo e apalpar as partes íntimas. Metia-me a mão na nuca e depois massajava-me, dizia que eu andava muito tenso e perguntava se a minha mulher não me ajudava a aliviar. Chegou também a passar-me a mão dele pela minha cara para mostrar que eu tinha a pele suave e beijar-me a face sem pedir”.
“Ele começou a ser cada vez mais físico comigo, e sempre que podia, metia-se colado a mim, com a mão dele na minha perna, nos meus braços, por cima dos meus ombros, roçava-se em mim”, relata.
“Já era tarde…”
O dia no trabalho começou a afetar-lhe as noites. “Comecei a ter pesadelos, porque já não conseguia aguentar que ele estivesse constantemente em cima de mim e a tocar-me”, confessa.
Um dia, não aguentou mais e confrontou-o. O colega garantiu que “era tudo brincadeira, e que se eu via maldade onde não havia, que o melhor era não brincar mais comigo”. “Eu fiquei contente porque pensei que ele ia parar, mas depois ele começou a espalhar rumores, dizendo que eu tinha tentado beijá-lo e outras coisas mais sérias”, conta, sublinhando que passou a “ser o mau da fita” e o ambiente de trabalho tornou-se insustentável.
Demorou a perceber que estava a ser vítima de assédio sexual no local de trabalho e reconhece que, só quando contactou a Associação Quebrar o Silêncio, por outros motivos, percebeu o drama que estava a viver. Arrepende-se de não ter falado mais cedo, mas ainda se questiona “quando é que é a altura certa para falar?”.
Percebe agora que foi isolado pelo próprio agressor e que o seu silêncio só contribuiu para isso. “O meu maior erro foi não falar logo com um colega sequer ou com a direção. Tornou-se a minha palavra contra a dele. Quando finalmente abri a boca, já era tarde. Já todos estavam do lado dele”, disse.
A reação de Marco é comum entre as vítimas de assédio sexual no local de trabalho e potenciada pelo facto de as vítimas serem homens. “Têm receio de irem falar com os recursos humanos ou com a direção e estes irem falar diretamente com a pessoa que está a assediar e que, como normalmente os agressores são pessoas que podem ter algum tipo de liderança, podem ter algum tipo de influência na equipa, rapidamente controlam a narrativa”, nota Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio.
A psicóloga Filipa Carvalhinho sublinha que a vítima não deve confrontar o agressor e deve perder a ilusão que esse confronto o vai fazer parar: “Podemos cair no escalar deste comportamento. Do outro lado, pode existir uma reação de rejeição que faça com que este comportamento escale.”
“É importante poder denunciar, poder partilhar com os recursos humanos, com os seus superiores. Reportar a situação o mais rapidamente possível pode ajudar a que ela não escale”, resume a especialista, que aconselha ainda as vítimas a guardar provas, como mensagens de telemóvel, e, sempre que possível, procurar testemunhas.
“Estratégias de evitamento”
Marco, 34 anos, é um dos mais de 800 sobreviventes que pediram ajuda à Associação Quebrar o Silêncio, que apoia homens vítimas de violência sexual e que completa esta quinta-feira oito anos de existência. Só este ano, a associação recebeu 112 pedidos de ajuda de homens ou rapazes vítimas de algum tipo de violência sexual e 50 novos pedidos de familiares ou amigos de sobreviventes. Mais de 7% dos crimes reportados à Quebrar o Silêncio dizem respeito a perseguição, importunação sexual ou assédio sexual no local de trabalho.
E se a violência sexual que tem os homens como vítimas está ainda rodeada de mitos e preconceitos enraizados, o caso concreto destes crimes em contexto laboral espelha este drama de uma forma mais intensa. Os sobreviventes têm dificuldade em reconhecer que estão a ser vítimas de um crime, na esmagadora maioria procuram a associação por outros motivos ou situações, estão convictos que controlam a situação e que esta não os incomoda e, sobretudo, recusam denunciar o agressor.
Mas muitos vêm a situação afetar-lhe as rotinas diárias, a vida familiar e a evolução profissional. É o caso de Marco, que perante a possibilidade de uma promoção e respetivo aumento de salário, recusou, porque isso o faria ter contacto ainda mais assíduo com o agressor. “Até então, a gente só se encontrava umas vezes por semana, mas se trabalhássemos juntos, íamos estar todos os dias no mesmo local e eu não teria como fugir”, admite.
“Em vez da denuncia, criam-se estratégias de evitamento. Se calhar, evita-se estar com aquela pessoa sozinho nas reuniões, se calhar, por exemplo, muda-se o horário, o turno, chega-se mais cedo ou mais tarde, para não se cruzar com a pessoa”, diz Ângelo Fernandes.
A “psicoeducação” da vítima
A psicóloga da associação, Filipa Carvalhinho, nota que, muitas vezes, é o próprio terapeuta que, durante o processo de apoio, acaba por identificar situações de alarme. “É mais difícil para os homens identificarem estas situações ligadas ao local de trabalho, acima de tudo, pela normalização de alguns comportamentos que já se estão integrados na sociedade como sendo normativos. Uma observação mais invasiva ou sexualizada, um toque desapropriado muitas vezes é normalizado como se não fosse nada demais, como se fizesse parte de uma brincadeira num bom ambiente de equipa, quando na verdade ultrapassa os limites pessoais e é uma invasão ao corpo e à integridade da pessoa”, sublinha.
A psicóloga adianta que é, assim, necessário fazer um trabalho de “psicoeducação junto das vítimas, para que haja consciência”. “O impacto já está lá, o mal-estar, a ansiedade, os comportamentos de evitamento ou fuga já lá estão, mas a consciência de que eles vêm dessas ações e que essas ações são efetivamente graves e que devem ser valorizadas, muitas vezes, não existe”, acrescenta a especialista.
Filipa Carvalhinho alerta que ignorar situações como a que foi vivida por Marco pode ter consequências também ao nível da segurança física: “muitos homens como têm dificuldade a identificar estas situações como abuso, há uma tendência a desvalorizá-las e, muitas vezes, têm uma falsa sensação de segurança. Por isso, pode ser necessário, junto com o sobrevivente, ser necessário traçar um plano de segurança”.
Violência sexual não é só violação
Identificar que se está a ser vítima de violência sexual pode, assim, nem sempre ser fácil. Para a Quebrar o Silêncio, o primeiro sinal de alerta deve começar no impacto que determinada ação tem na vítima. “Quando há uma situação que aconteceu na infância ou na idade adulta e que começa a impactar o seu bem-estar, começa a ter pesadelos, começa a tornar-se uma pessoa com mais desconfiança, com mais desesperança, baixa autoestima… é aqui que sentimos que é fundamental a pessoa procurar apoio, porque foi uma experiência que se revelou traumática para ela”, resume Ângelo Fernandes.
Quanto à expressão física ou não da violência, diz o responsável da Quebrar o Silêncio, “pode contemplar uma série de situações, além do crime de violação, que é aquilo que, provavelmente, as pessoas mais facilmente identificam com violência sexual”. “É preciso sublinhar também que a violação não tem de ser uma coisa violenta nem agressiva, com recurso à força. Pode haver toques, pode haver o assédio, comportamentos que são continuados e que vão afetando o bem-estar da vítima”, exemplifica.
Os outros números da Quebrar o Silêncio
Os pedidos de ajuda à associação dizem, na sua maioria respeito a homens que foram abusados na infância ou na adolescência e viveram décadas de silêncio e só na idade adulta decidiram falar.
“Temos homens que chegam até nós que fizeram terapia durante 20 anos. Trabalharam uma série de questões, mas nunca sentiram a segurança para trabalhar o abuso”, nota a psicóloga Filipa Carvalhinho.
Em 54% dos casos, o agressor era pessoa próxima ou conhecida da vítima, em 25,3% dos casos, os agressores eram mesmo familiares. Quase 14% dos sobreviventes foram vítimas de violência sexual em contexto de relações íntimas e só 6,9% foram vítimas de desconhecidos.
Cinquenta e nove por cento dos crimes registados diziam respeito a abuso sexual de crianças, 10,9% a coação sexual, 10% a violação, 7,3% eram perseguição, importunação sexual e assédio sexual no local de trabalho, 5,5% diziam respeito a atos sexuais com adolescentes, 4,5% a violência sexual em contexto de violência doméstica e 2,7% eram casos de violação na forma tentada.
A Quebrar o Silêncio destaca a diminuição da média de idades dos sobreviventes para os 31 anos (em 2023, a média de idades de quem procura ajuda foi de 37 anos, uma média que se vinha a manter constante desde a fundação da associação, em 2017). A idade mais comum das vítimas que pediram ajuda foi de 26 anos, mas a amplitude de idades continua vasta, abrangendo quase seis décadas, entre os 16 e os 69 anos.
«Este ano, observámos um aumento de pedidos de ajuda de jovens, nomeadamente na casa dos 20 anos, e uma diminuição no grupo etário mais velho. Para a Quebrar o Silêncio, sempre foi um objetivo reduzir o longo período de silêncio dos homens vitimados. Sabemos que, em média, os homens demoram mais de 20 anos a procurar ajuda e, por isso, ficamos muito satisfeitos quando vemos, cada vez mais, jovens a pedir o nosso apoio», refere Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio.
A dificuldade em pedir ajuda
A associação sublinha ainda que, embora a maioria dos casos relate abusos ocorridos na infância, tem recebido cada vez mais relatos de violência sexual contra homens adultos. Os contextos são diferenciados e vão desde a saúde e cuidados médicos, desporto, relações de intimidade e namoro, assédio sexual no local de trabalho, extorsão sexual (sextortion), perseguição sexualizada (stalking), aliciamento online de menores ou chemsex, de acordo com comunicado da associação enviado às redações.
Os motivos que levam os homens a pedir ajuda são-lhes, muitas vezes, exteriores. “Há homens que sentem, por exemplo, que o casamento não está a funcionar ou não estão a ser capazes de manter relações estáveis, duradouras, saudáveis... e isso leva-os a procurar apoio. Ou homens que, por exemplo, foram pais recentemente, ou que os filhos têm a mesma idade que eles tinham quando sofreram o abuso. Muitas vezes, podem ser estes os fatores que desencadeiam a necessidade de apoio”, exemplifica Filipa Carvalhinho.
Talvez por isso a história que mais impressionou a psicóloga no último ano foi a de um sobrevivente que sofreu quase seis décadas e só em 2024 reuniu as condições para pedir ajuda: “um homem bem mais velho, com muitas vidas dentro da sua vida. Já várias relações que não funcionaram, vários trabalhos que não funcionaram, um sentimento de solidão muito profundo. Um homem que nunca partilhou as situações de abuso e que, quando chegou até nós, vinha numa descrença enorme de já era tarde demais. E não. Nunca é tarde demais”.
Nota:
Se foi vítima ou está a ser vítima de alguma forma de violência sexual, se conhece algum sobrevivente de violência sexual, procure ajuda junto da Associação Quebrar o Silêncio.