Violência doméstica: quando o sinal mais visível é isolar a vítima para atrasar a queixa

25 nov, 07:00
Violência no namoro (Pexels)

Assinala-se esta sexta-feira o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Este ano, em Portugal, de acordo com dados oficiais, foram assassinadas 21 mulheres e uma criança em contexto de violência doméstica. À CNN Portugal, a psicóloga Teresa Feijão explica que o isolamento das vítimas leva a que a queixa surja muitas vezes tarde ou tarde de mais

Os números oficiais só mostram dados até 30 de setembro (22 vítimas), mas o balanço feito pelo Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA) contabilizou, entre 1 de janeiro e 15 de novembro deste ano, 28 mulheres mortas, 22 das quais no contexto de relações de intimidade. Um número superior ao registado em todo o ano de 2021, em que em 23 vítimas de violência doméstica, 16 foram mulheres, cinco homens e duas crianças.

Esta sexta-feira, assinala-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres consagrado pela ONU em 1999. De acordo com a ONU, uma mulher ou rapariga é morta a cada 11 minutos e, em 2020, foram assassinadas 81.000 mulheres e meninas em todo o mundo, 47.000 às mãos de companheiros ou familiares. Mas, como se pode identificar e ajudar uma vítima de violência doméstica? Quais são os primeiros sinais?

À CNN Portugal, a psicóloga Teresa Feijão explica que o facto de "os dados atuais do número de mortes cada vez serem maiores" pode estar relacionado com "o isolamento das vítimas que leva a que a queixa surja muitas vezes tarde ou tarde de mais". Segundo a especialista, a primeira bandeira vermelha a ter em conta são as personalidades que tendem a ser opostas. "As vítimas - maioritariamente mulheres - são pessoas tendencialmente com personalidades mais submissas, mais frágeis, com autoestimas mais baixas, sujeitas a passarem por este tipo de situações e outras mais graves. Em termos psicológicos, a mulher acaba por ser mais triste, com um comportamento mais ansioso, mais medroso, mais desconfiado".

"É importante sensibilizar que as próprias vítimas estejam atentas aos sinais. Os agressores têm personalidades mais agressivas, são mais ciumentos, tendem a humilhar, a serem incongruentes na forma como expressam o dito amor/apoio (tão depressa podem elogiar como rebaixar) na frente de terceiros. Por isso é que, na frente de terceiros, a violência doméstica não é tão facilmente detetada. Quando em casal, muitas vezes, esses ditos agressores têm posturas mais leves, mais simpáticas, mais de elogiar a mulher, mas entre portas é exatamente o oposto", alerta.

A especialista diz ainda que para além dos comportamentos, quem convive com a vítima (amigos, familiares, colegas de trabalho) devem estar atentos "às marcas constantes com que as vítimas aparecem no corpo e no rosto". Mas deixa o alerta: "Os agressores sabem onde bater".

Isolar, afastar, fazer desaparecer

Para Teresa Feijão, apesar de não ser físico, um dos sinais mais visíveis em contexto de violência doméstica é o isolamento da vítima, perpetuado pelo agressor. 

"O que também acontece muito pelo lado do agressor é afastar a mulher da família, dos amigos. Tendencialmente há o isolamento, da família, dos amigos, há o desaparecimento da mulher, porque acaba por ficar isolada”, diz Teresa Feijão.

A psicóloga alerta que este sinal, que nasce da manipulação, faz com que a vítima muitas vezes corte totalmente o contacto com quem lhe é próximo e chegue a revoltar-se com essas pessoas por a tentarem ajudar ou alertar para denunciar a situação, numa “revolta manipulada pelo agressor”. E, por causa disso, a denúncia “ou não é feita ou, quando é feita, é tarde demais”.

“O pior de tudo isto, as denúncias surgem muito tarde ou tarde demais. A manipulação dos agressores é de tal forma grande e grave que a própria mulher chega a um ponto que acaba por ser manipulada e dificilmente há a denúncia de imediato ou em curto/médio espaço de tempo. Portanto, cada vez mais isso é o mais grave. Daí os dados atuais do número de mortes cada vez serem maiores”.

E, apesar de darem um novo fôlego à divulgação de como pedir ajuda, as redes sociais nem sempre ajudam assim tanto, uma vez que, segundo a especialista, o que lá é mostrado também é manipulado. "Em situações de casal, não nos esqueçamos que estamos a falar de pessoas que são manipuladoras. Vivendo em casal, o que divulgam nas redes sociais, é completamente o oposto do que se vive dentro de portas. E por isso é que aparentemente quem esta de fora até pode achar que aquele casal é perfeito".

Teresa Feijão lembra ainda que o agressor chega mesmo a usar as redes sociais "para agredir, humilhar e fazer ameaças, muitas vezes de exposição" e pode chegar ao ponto de proibir a vítima de as usar.

"Não nos podemos esquecer, as próprias vítimas estão impedidas de aceder às redes sociais. A manipulação é tal que as vítimas ficam impedidas de aceder às redes. É mais um limite em termos de acesso a informação e apoios. Os extremos acontecem e é nos extremos que acontecem as mortes". 

Crianças, como identificar sinais?

Para além de atrasar as queixas, que podem levar a uma intervenção tardia (ou mesmo fora do tempo) das autoridades, o isolamento da vítima coloca não em causa a vítima, neste caso a mulher, mas também os filhos (quando existem). 

São eles que, muitas vezes, acabam por fazer transparecer que alguma coisa não está bem em casa enquanto a mulher tenta “esconder o que se passa e se culpabiliza por tudo aquilo que está a acontecer”. 

“Os dados revelam que muitos casos [de violência doméstica] têm filhos que assistem a isso. As crianças manifestam [o que está a acontecer] quando estão na escola e com outros familiares. E aqui é muito importante terem atenção porque os comportamentos são vários dependendo da idade”, alerta a especialista.

Mas que comportamentos são estes? E como os distinguir de uma simples virose ou de um caso de bullying? A palavra-chave é enquadrar.

Segundo Teresa Feijão, nas crianças até aos seis anos, as manifestações são mais físicas: dores de barriga, dores de cabeça, mal-estar, pesadelos, dificuldades em dormir. Já nas crianças dos seis aos 12 anos, “manifestam mais problemas no desempenho escolar, o desinteresse escolar”. 

“Não podemos isolar estes sintomas de imediato na violência doméstica, temos de ver o que se passa. Também entra aqui o bullying. Mas depois, associa-se isto com o comportamento da própria mãe e as peças encaixam”.

A psicóloga explica ainda que há ainda diferenças entre géneros. 

“Está provado e temos protocolos na Ordem dos Psicólogos, que os meninos acabam por criar um padrão e tendem a replicar os comportamentos que veem em casa, e adotam comportamentos de revolta e agressividade. Tornam-se mais agressivos e eventualmente até podem ser bullies na escola. E as meninas a tendência é mais para a baixa autoestima, para a submissão, para a depressão. Internalizam mais os sintomas e os rapazes externalizam mais os sintomas.”

Quanto aos adolescentes, “manifestam-se mais por distanciamento, negar o que está a acontecer, muitas vezes podendo ter comportamentos de adições, de rebeldia e, em última instância, de fugas”. 

Um círculo vicioso para a vítima e para quem a rodeia

Identificar os sinais, alertar a vítima, vê-la isolar-se, tentar ajudar, pedir ajuda. O ciclo repete-se a cada tentativa de ajuda à vítima e, para a psicóloga Teresa Feijão o ponto fulcral é "não deixar de falar com a pessoa", o que se torna "muito complicado" quando a vítima se isola por completo.

"Quando os familiares que se veem face a tal, que estão desesperados em fazer alguma coisa e não conseguem, o mais importante é contactar profissionais que os possam apoiar nesse sentido, porque são muito complicadas estas ações de sensibilização, falar sobre o tema", explica, lembrando que a violência doméstica é "um problema público, de todos".

A violência doméstica é crime público desde 2000 e, mesmo que a vítima não denuncie, a queixa pode ser feita. Teresa Feijão diz mesmo que "é importante" que se reforce a comunicação sobre o tema que para quem quer ajudar, quer para "os que estão de fora, que podem já estar sensibilizados e querem ajudar e estão mais do que convencidos de que querem ajudar e que as vítimas têm de ser ajudadas".

"Ao falar-se mais sobre as coisas e sobre estes crimes graves que são públicos e ao apostar-se na prevenção (escolas, serviços de psicologia/psiquiatria, associações que se criam) e saber através da informação quem devem contactar, portanto quanto mais se falar e a vítima souber que tem estes contactos, e que pode denunciar e que tem pessoas do lado dela, que tem uma rede de apoio do lado dela, para a protegerem, melhor. Tudo passa muito pela parte de informação quando tudo o resto já não funciona".

A psicóloga diz ainda que é ainda muito importante saber quem contactar, "saber exatamente quais as instituições a contactar", saber quais "os caminhos que se seguem para caminhos ou apoios" e qual o caminho que leva a "instituições de apoio que possam sensibilizar a vítima".

"É muito complicado porque é muito importante ser a vítima a ter essa coragem de denunciar, de tratar, de receber apoio, de sair desse ambiente, antes que seja tarde demais. Porque tudo depende da vítima mesmo. Porque por mais que as pessoas à volta estejam sensibilizadas, que forcem, que a convençam, se a vítima continuar a ser manipulada ao ponto de não querer, não poder, e se a baixa autoestima continuar ao ponto de continuar a esconder é impossível fazer o quer que seja".

Até porque, como alerta a Ordem dos Psicólogos, a vítima muitas vezes não só dependente emocionalmente, como também financeiramente do agressor que tem o controlo financeiro das contas da vítima e pode fazer chantagem com esta, havendo ainda casos de roubo, humilhação, apropriação, vingança financeira, desvalorização, ameaça, entre outros, que leva a que as vítimas de controlo financeiro sejam mais vulneráveis a experiencias de abuso físico, sexual e psicológico. 

A violência doméstica em números

Em 2022, de acordo com dados da Comissão Para Cidadania e Igualdade de Género, 21 mulheres e uma criança morreram vítimas de violência doméstica.

À GNR, segundo dados a que a CNN Portugal teve acesso, foram feitas 11.176 queixas que resultaram em 1.167 detidos. Já segundo dados da PSP, até 23 de novembro, foram registadas 13.285 denúncias pelo crime de violência doméstica (mais 6,3% do que a média dos cinco anos anteriores) sendo que até 31 de outubro, tinham sido detidos 802 agressores. No total, foram feitas 24.461 queixas às duas forças de segurança nacionais.

A Polícia de Segurança Pública revela ainda que o tipo de violência doméstica mais denunciado é a violência psicológica seguido da violência física e que 80% das vítimas de violência doméstica são do género feminino.

Até 30 de setembro, segundo a Comissão Para Cidadania e Igualdade de Género, as mais de 24 mil queixas resultaram em 706 prisões preventivas, 2.813 prisões efetivas e 2.351 pulseiras eletrónicas.

Em caso de violência doméstica, ligue para o 112, faça queixa em queixaselectronicas.mai.gov.pt, ou contacte o serviço telefónico de informação da CIG gratuito, anónimo e confidencial que funciona 24 horas por dia/365 dias por ano, para apoiar vítimas de violência doméstica através do número 800 202 148 ou pela Linha SMS 3060, dois serviços gratuitos e confidenciais.

 

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