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“Até que a morte nos separe”. As teias tóxicas que prenderam Margarida, Teresa e Sofia

8 mar, 08:00
Violência no namoro (Pexels)

No Dia Internacional da Mulher, a CNN Portugal lembra aquelas que não podem exercer em pleno a sua feminilidade e a sua personalidade e conta a história de três mulheres que se viram enredadas na teia de uma relação tóxica. Só uma conseguiu sair e conta como o fez

Margarida tem 49 anos e vive na serra algarvia. Foi casada durante 13 anos. Os primeiros cinco foram “muito felizes”, mas depois começou a notar no marido “atitudes muito estranhas”.

“Além do comportamento estranho dele, comecei a dar conta de dinheiro a desaparecer da conta. Confrontei-o e ele disse que estava tudo bem. Mas continuou e percebi que não estava tudo bem e havia outras pessoas”, recorda.

“Passámos a viver na mesma casa, mas eramos dois estranhos. Vivi dois anos a dormir no sofá e ele na cama, porque, depois de saber que ele tinha outras pessoas, não conseguia conceber a ideia de ele me tocar”, acrescenta.

Não havia violência, mas o ambiente era, por si só, tóxico. Ao fim de dois anos, ambos concordaram que não podiam viver assim durante muito mais tempo: “Falámos os dois e concordámos em divorciar-nos”.

Ficou acordado verbalmente que Margarida ficaria na casa com o filho e o marido sairia. “Mas na altura de sair, ele recusou. Na altura, o meu pai ainda estava vivo. Ajudou-me e arrendei uma casa. O meu filho tinha 10 anos e ele, no espaço de um mês, deixou de ser um superpai para ser um pai ausente”, recorda.

O divórcio foi assinado em 2010. E foi no meio deste turbilhão de emoções que conheceu o atual companheiro e achou que iria ser finalmente feliz: “Ele também estava num casamento muito tóxico e começámos por conversar muito. Ficávamos horas a desabafar um com o outro. Até que percebemos que estávamos a gostar um do outro”. Foram só amigos durante anos, até começarem a namorar. Estão a viver juntos há cinco.  

Margarida não tem dúvidas que o companheiro gosta dela, mas “o gostar dele é muito obsessivo”. O namoro sempre foi conturbado, como muitos finais e muitos recomeços. “Fui sempre aceitando voltar, porque ele prometia que ia mudar. E mudava. Durante uns tempos andava bem. Mas, pouco tempo depois, voltava tudo ao normal”, reconhece.

A vergonha é, muitas vezes, a razão apontada pelas vítimas para não quebrarem o ciclo de toxicidade em que estão enredadas. (Foto de arquivo/DR)

“Não era eu”

Margarida é uma mulher de afetos. Gosta de beijos, de abraços, de toque. A sua personalidade afetuosa nota-se na voz, na escrita… “Todas as mensagens que mando vão sempre com emojis de corações ou beijinhos. Ele não gostava e implicava muito com isso. Houve uma altura em que deixei de escrever assim e ele andou mais calmo. Mas não era eu”.

“As pessoas que me conhecem, mesmo no trabalho, porque lido muito com o público, tratam-me por ‘querida’ ou ‘fofinha’, porque sou mesmo muito de afetos. Mas sempre sem maldade nenhuma, da minha parte ou da delas. Qualquer homem que me tratasse por ‘querida’ ele achava logo que tinha alguma coisa comigo”, diz.

‘Guidinha’ cansou-se de ser alguém que ela própria desconhecia. “Disse-lhe que não aguentava mais ser uma pessoa que não era. Houve uma altura em que nos separámos, porque disse ‘já não aguento mais, já sofri muito’”, recorda.

Nessa altura, tinha uma vida financeira “muito estável” e um emprego seguro. Contudo, seguiu-se uma catadupa de acontecimentos menos positivos. O pai de Margarida morreu e “ele nem uma mensagem enviou”. Teve um esgotamento, teve de ficar em casa de baixa e ele não lhe deu qualquer apoio. A vida de Margarida deu uma volta de 180 graus. Esteve sem trabalhar muito tempo, descobriu “outros problemas de saúde” e viu as poupanças esvaírem-se como grãos de areia fina entre os dedos.

“Vontade de fazer um disparate”

Ao fim de alguns anos, reaproximaram-se e voltaram a namorar. “Ele disse que estava mudado e tinha efetivamente mudado. Mas quando temos uma discussão básica, ele vai buscar discussões do passado e reclama das mensagens para os meus amigos, da forma como cumprimento as pessoas”, conta.

“Ele é muito reservado. Não se abre muito. E eu respeito. Não posso pedir-lhe que mude. Mas isso faz com que se chateie e guarde para ele durante dias, sem dizer nada e fica aquele ambiente pesado em casa. No fim do ano, do nada, deixou de me falar. As atitudes dele e a maneira como me tratava eram de desprezo. Perguntava-lhe o que se passava e ele não respondia. Andou assim mais de uma semana. Nem um bom Ano Novo me desejou. Senti uma mágoa muito grande”, conta.

Sentia-se nessa altura, como em tantas outras dos últimos anos, a viver com um estranho em casa. “A minha vontade era fazer um disparate. Tive vontade de tirar a minha vida. Eu própria não consigo explicar porque senti aquela mágoa tão grande. Só uma semana depois é que descobri o que se passava. Parece que, no Natal, fiz ou disse qualquer coisa – não sei o quê, porque ele não disse exatamente - e ele pensou que era para implicar com ele. Nunca me disse nada, mas deixou de falar comigo”, recorda. “Por muito que lhe explique as minhas atitudes, tente desmontar as crenças dele, ele pensa que é verdade. Para ele, o que ele pensa é a verdade e não aceita outra”.

Margarida sente que vive com uma pessoa com duas personalidades. Tão depressa lhe diz que a ama e que ela “é linda”, como, no momento seguinte e sem qualquer explicação, deixa de lhe falar. A toxicidade da relação faz com que os sentimentos dela por ele mudem sem retorno: “Gosto dele. Tenho um carinho muito grande por ele. Mas não o consigo amar”.

Sempre incentivou as mulheres da família e as amigas vítimas de violência doméstica ou em situação de toxicidade numa relação a “saltarem fora”, mas, agora que é com ela, sente-se presa e sem capacidade para sair. “Tive de deixar de trabalhar por questões de saúde. Só ganho o subsídio de desemprego… pouco mais de 500 euros. Não me separo dele porque estou dependente financeiramente e ele sabe disso e manipula-me”, admite. “Já lhe disse que o que mais desejo é arranjar um trabalho e fazer a minha vida como quero. Não sou feliz, mas não consigo sair”.

Margarida admite que não é feliz, mas está presa financeira e emocionalmente a uma relação tóxica. (Foto de arquivo/DR)

Os sinais de alerta

A psicóloga Cátia Silva define, a pedido da CNN Portugal, o que é uma relação tóxica e é perentória: “Uma relação tóxica não tem de ser violenta. A questão da toxicidade tem muito a ver com quando a pessoa tem de deixar de ser ela própria numa relação, quando não diz nada ao outro por medo do que o outro vai dizer ou fazer, quando tem dificuldade em impor os próprios limites. (…) Muitas vezes até os palpites do parceiro de como a pessoa se deve vestir são sinais de toxicidade, porque, ao vestir-se como o outro quer, deixa de ser ela própria”.

“Numa relação, é suposto uma pessoa ser livre. Ter a liberdade para ser ela própria”, sublinha.

Os primeiros sinais de alerta, reforça Cátia Silva, até podem ser “coisas muito simples”. “O controlo, o ciúme, a manipulação também são formas de toxicidade. Ao contrário do que muita gente pensa, ter ciúmes não é sinal de amor. O ciúme é algo tóxico para a relação, por que faz com que a pessoa deixe de fazer coisas em função do outro, do que o outro possa pensar, dizer ou fazer”, alerta.

“Às vezes, em consulta, dizem-me muito ‘não digo isto ou aquilo para não o irritar’. Isto é um sinal de toxicidade”, sublinha.

A psicóloga continua a enumerar exemplos concretos de toxicidade: “O querer saber sempre onde o outro está, mexer no telemóvel sem autorização, exigir o acesso às passwords são sinais muito simples e práticos que podem desencadear em algo mais gravoso”.

E, ao contrário do que se possa pensar, é nos jovens que estão as vítimas mais permissivas e os agressores mais naïfs. “Os jovens acham que saber sempre onde o outro está e trocar as passwords é amor. E não é. É muito comum os casais de namorados partilharem permanente a localização um com o outro. Esse controlo não é amor!”, reforça a psicóloga.

“Uma criança com outra ao colo”

Quem olha para Teresa, agora com 39 anos, não imagina que já pesou “mais de 100 quilos”, teve dias sem vontade de sair da cama, de tomar banho ou de, sequer, lavar os dentes. E teve muitas alturas em que a única vontade que conseguia sentir era a de pôr termo à vida. Viveu quase duas décadas numa relação tóxica e, sobretudo, violenta.

Na verdade, Teresa mal sabe o que é viver num lar sem violência física e emocional. Aos 16 anos, casou com o primeiro namorado “a sério” para fugir do ambiente tóxico que vivia em casa e ao qual nunca se tinha habituado. “Mal sabia onde me estava a meter”, recorda.

“Conheci o meu ex-marido quando tínhamos 12 anos. Começámos a namorar com 16. Dois anos depois saí de casa para ir viver com ele”, conta.

Aos 18, já era mãe. “Uma criança com outra ao colo”. Ao filho mais velho, que agora tem 21 anos, seguiram-se mais três rapazes, agora prestes a fazer 18, 16 e 11. “As coisas só começaram a melhorar quando nasceu a menina, que agora tem nove”, garante. A melhorar… nunca estiveram realmente bem.

Durante os primeiros anos de casamento, Teresa não trabalhou. Não estavam juntos há muitos anos, embora já tivessem dois filhos, quando começou a violência física. Viviam perto da Guarda. Teresa tinha arranjado trabalho como assistente hospitalar há pouquíssimas semanas – ainda estava no mês de experiência - e começou logo a fazer fins de semana. “Ele não queria. Tinha de estar em casa à disposição dele quando ele não estava a trabalhar. Nesse domingo, apanhou-me quando ia no caminho do hospital para o autocarro, no regresso a casa. Comecei a apanhar um pouco antes do Teatro Municipal e foi sempre a bater-me, aos socos e pontapés, pela rua fora, até ao centro de transportes. Toda a gente viu. Ninguém fez nada. Numa outra vez, ainda nesse mês de experiência, escondeu-me o passe, para não poder sair de casa. E ainda me deu um soco. Claro que, ao fim desse mês de experiência, fui dispensada. Ninguém fica com uma pessoa que falta vários dias no mês de experiência”, reconhece.

Outra vez, deu-lhe “uma tareia tão grande”, que ela caiu, bateu com a cabeça no armário (“o armário… sempre o armário que se atravessa no caminho das vítimas… desta vez, foi mesmo verdade. Bati mesmo com a cabeça no armário, mas foi na sequência da agressão”), ficou desmaiada “mais de meia hora” e ele deixou-a ali sozinha, sem a socorrer ou pedir ajuda.

“Era uma miúda. Não tinha, como não tenho agora, qualquer suporte familiar. Como não tinha ninguém que me ajudasse a voltar para trás, deixei-me ficar. Estava a viver o que já tinha vivido em casa dos meus pais. Achava que aquilo era normal. Os filhos são todos muito seguidos e, entre uma gravidez e outra, fui ficando”, revela.

Teresa é mãe de cinco filhos. Durante anos, foi vítima de violência física e emocional. Conseguiu libertar-se depois de traçar um plano de segurança e de um ano de preparação. (Foto de arquivo/DR)

“Tinha relações sexuais porque ele insistia muito”

Em conversa com a CNN Portugal, Teresa garante que ama os filhos profundamente. Mas admite que não foram feitos com amor. “Nenhum dos meus filhos foi planeado. Não consegui fazer nada contra isso, nem antes nem depois de estarem feitos. Amo-os muito e vivi sempre em função dos meus filhos, mas, apesar de ele me acusar de ter tantos filhos de propósito, nenhum foi planeado”, confessa.

Embora lhe custe a admitir que também isso é uma forma de abuso, confessa que “a maioria das vezes só tinha relações sexuais porque ele insistia muito”.  As humilhações eram permanentes: “Se não trazia rendimentos fixos, também não tinha direito de opinar onde se gastava o dinheiro. Se gastasse fora do padrão que ele estipulava, era uma discussão permanente. Não podia cortar o cabelo, não podia arranjar as unhas, arranjar as sobrancelhas… as coisas que são básicas para o bem-estar de qualquer mulher, ele não me autorizava a fazer. Não podia sair de casa, não tinha qualquer liberdade financeira…”, recorda.

“Eu era uma gaiata e, com as gravidezes sucessivas e a tristeza permanente em que vivia, cheguei quase aos 100 quilos. Ele chamava-me porca e gorda constantemente. Sempre que lhe pedia o divórcio, ele ameaçava-me e dizia que nenhum juiz ia dar a guarda de cinco crianças a uma mulher como eu”, acrescenta.

A pandemia foi o terror. Os sete “fechados em casa, num apartamento”. “Ele acusava-me de trazer o covid para casa e dizia que, se os meus filhos morressem, era culpa minha”, recorda.

“Um ano a blindar-me”

Teresa queria sair daquele ambiente e, um dia, ganhou coragem e foi bater à porta da Associação de Apoio à Vítima (APAV). “Não tive sorte com a pessoa que me atendeu. Se calhar, se tivesse lá aparecido com um olho negro, tinham-me ajudado. Mas ele também sabia como e onde bater. Disseram-me que não me podiam ajudar, porque eu tinha capacidade psicológica para sair deste ciclo”, conta.

Saiu dali desapontada, mas determinada a quebrar aquele elo tóxico. Naquele dia, traçou um plano. Trabalhava esporadicamente a fazer limpezas em casas particulares, sempre que ele deixava e quando os horários dos filhos permitiam (“deixava uns na escola, outros levava-os comigo”). Começou a colocar dinheiro “na conta de uma amiga”, a poupar tudo o que podia do dinheiro que ele lhe dava para o supermercado e começou a “tratar das coisas de forma calada e mais concentrada”.

“Reuni-me com um advogado, para saber de que forma é que me podia blindar em tribunal em relação às ameaças que ele fazia com a CPCJ [Comissão de Proteção de Crianças e Jovens]. Estive cerca de um ano a blindar-me com informações e a guardar dinheiro. Um dia, cheguei a casa com os papéis do divórcio e disse-lhe: ‘assina aqui’. Estávamos em 2022. Ainda resistiu, mas, no início de 2023, assinou os papéis de forma amigável”, descreve.

O ex-marido de Teresa “nunca mais quis saber dos filhos”. Ela e os cinco filhos vivem num apartamento que conseguiu arrendar. Trabalha com costura, faz limpezas, já foi chefe de vendas numa empresa. Faz o que for preciso para “trazer o sustento para casa”. Anda a preparar-se para lançar uma marca com os trabalhos de costura que faz.

Ao olhar para trás e agora que conseguiu sair “do ciclo”, reconhece que a dependência financeira era grande, mas a teia emocional em que ele a enredou era também muito densa. E depois havia o “medo, muito medo”, que pautavam os seus dias. Sempre que ouve histórias como a sua, o conselho é: “Faz as coisas na calada. Não é fácil. Mas alguém disse que era fácil? Eu estou aqui. Sempre que caí levantei-me. Caí 10 e levantei-me 11. Se cair outra vez, levanto-me outra vez”.

Admite que o ex-marido “repetiu o padrão”, já que a mãe dele também foi vítima de violência doméstica. Teresa diz querer que os filhos quebrem esse padrão. “Educo a minha filha a não depender de ninguém e nunca permitir que lhe batam ou a humilhem. E aos meus filhos digo muitas vezes que, se eles algum dia encostarem num fio de cabelo de uma namorada ou de uma mulher, sou eu quem lá vai e os parte todos à porrada”, descreve.

Os números críticos da violência doméstica

Teresa é uma sobrevivente. Teve força para quebrar o ciclo. Mas há muitas que não tiveram a mesma força, o mesmo apoio ou até o mesmo direito a um final feliz. A violência doméstica em Portugal é um assunto crítico. Os números ficam sempre aquém da realidade. Por cada mulher que pede ajuda, muitas outras mantêm-se caladas, por medo, por vergonha, porque estão manipuladas ou porque não têm rede de apoio.

Ainda assim, as cifras são assustadoras. De acordo com o portal da Comissão para a Igualdade de Género (CIG), o ano de 2023 registou mais de 30 mil crimes, um valor muito semelhante ao de 2022. Em 2024 (29.885 participações à PSP e à GNR) e em 2025 (29.778 participações às autoridades), os números não desceram muito.

A esmagadora maioria das vítimas são mulheres. Mais de 80%. O ano de 2024 contabilizou 22 homicídios em contexto de violência doméstica – 19 mulheres e três homens. 2025 fechou com 25 vítimas mortais da violência doméstica – 21 mulheres, duas crianças e dois homens. Este ano, de acordo com um levantamento das notícias da imprensa, rádio e televisão, até 26 de fevereiro já havia registo de quatro mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica.

O último caso conhecido surgiu na imprensa a 24 de fevereiro, mas o crime terá acontecido no início do mês. Um homem de 36 anos foi detido por, alegadamente, ter agredido a namorada até à morte em contexto de relação íntima. Terá, inicialmente, alegado mal súbito, mas a autópsia revelou múltiplas lesões compatíveis com violência física.

Os números da violência psicológica e emocional não estão contabilizados. Não se conhece sequer um número aproximado das pessoas que diariamente são humilhadas, rebaixadas, ameaçadas, manipuladas e desvalorizadas pelos companheiros.

Teresa garante que educa a filha para ser independente e não permitir que seja humilhada e os filhos para não repetirem o padrão do pai. (Foto de arquivo/DR)

Um casamento “a três”

Sofia tem agora 52 anos. Há 34 que vive, nem sempre conscientemente, numa relação abusiva, mas não consegue sair e acha que vai “aguentar até que a morte nos separe”. Diz que é tão infeliz que a palavra suicídio já lhe passou pela cabeça “diversas vezes”.

Vive numa aldeia pequena, onde toda a gente se conhece, mas onde só “os mais chegados” sabem a real dimensão do que se passa. Nunca foi vítima de violência física, mas garante que o casamento sempre foi “a três”: ela, o marido e o álcool. “Quando está bem, está tudo bem. Mas quando bebe, é o inferno. Torna-se extremamente implicativo. E o pior é que ele trabalha por turnos e, nas semanas em que está a trabalhar das 14:00 às 21:00, sai do trabalho, passa pelo café e já vem para casa aos ziguezagues. Se há um feriado na quinta, ele faz ponte na sexta e bebe quinta, sexta, sábado e domingo. Eu ganhei pânico de andar de carro com ele a conduzir. Já teve um acidente brutal, quando eu estava a um mês de ter a minha segunda filha, mas não mudou nada”, recorda.

“Quando ele bebe, olho para ele e não vejo o meu marido”, acrescenta.

Confessa que foi apaixonada por ele nos primeiros 18 anos de casamento. Ou, pelo menos, acha que era. Vivia na perseguição do sonho de ser mãe e na árdua batalha contra a infertilidade. Tão concentrada nesse objetivo, “que nem percebia que era infeliz”. Só depois de “concretizar o sonho” é que começou a perceber que vivia com medo do momento em que o marido chegava a casa e na ansiedade de saber se viria sóbrio ou bêbado.

Também por causa da infertilidade deixou de trabalhar fora. Mais tarde, já depois de os filhos nascerem, tomaram, em família, a decisão de Sofia não voltar a trabalhar por conta de outrem. Passou a depender exclusivamente do marido em termos financeiros.  

Diz que expõe essa infelicidade ao marido muitas vezes. Mas “ele sabe que dependo financeiramente dele”. “O meu sogro morreu com um desgosto enorme do filho ser assim e a minha sogra tem muita pena. Mas ele não aceita que está doente e não se quer tratar”, lamenta.

A “estrada esburacada” e a alternativa

Já pediu “muitas vezes” o divórcio, mas diz que ele sabe que ela está “de pés e mãos atadas” e que não vai ser “capaz de dar esse passo”. “E, nas redes sociais, somos o casal mais feliz do mundo”, diz.

“Penso muitas vezes em separar-me, mas depois penso ‘o que é que vou fazer? E os meus filhos? E a vergonha de ser uma mulher divorciada?’. Acho que era capaz de me sustentar a mim, mas e sustentar os meus filhos? E mantê-los a estudar? E dar-lhes o conforto a que eles estão habituados?”, questiona.

A psicóloga Cátia Silva considera que, internamente, as vítimas sabem que a relação onde estão “é desconfortável” e “que não estão bem”, mas não conseguem desligar-se. O medo, a dependência emocional e financeira, a vergonha e a “desesperança” tomam conta destas mulheres e impedem-nas de pedir ajuda. Mesmo que a ajuda venha de um profissional de saúde mental. “Têm medo de serem julgadas até pelos profissionais de saúde e pensam ‘o que é que o psicólogo vai achar, porque já saí e voltei?’. Porque muitas já se livraram desse peso, mas voltaram a entrar”, relata.

Muitas mulheres mantêm-se em relações tóxicas porque, para elas, “é, de alguma forma, normativo”. “Em muitas casos, sempre foi este o padrão. Se os pais tinham este tipo de relação, para elas, a relação que vivem é normal. Muitas até já tiveram relações tóxicas e estão a repetir um padrão”, explica Cátia Silva.

Sofia é casada há 34 anos. Só ao fim de 18 anos percebeu que não era feliz. Ainda assim, mantém-se no casamento, por vergonha e por dependência financeira. (Foto de arquivo/DR)

A importância do “plano de segurança”

A psicóloga diz que, mais do que ter consciência de que se está numa relação tóxica, é preciso “saber se quer sair dela, porque há muitas mulheres que querem manter-se assim e é legítimo”. “Costumo usar esta analogia: uma pessoa passa 20 anos a fazer a mesma estrada. A estrada até é esburacada, mas a pessoa já sabe onde vai dar. Se lhe dermos a alternativa de outra estrada, até pode ser uma estrada perfeita, mas ela prefere manter-se na estrada esburacada por já terem esse conforto de saberem onde aquela estrada má vai dar”, compara.

Depois, é preciso seguir o exemplo de Teresa e fazer um planeamento. Um psicólogo pode ajudar a vítima a planear a sua libertação e a criar o chamado “plano de segurança”. “Começar a retirar coisas de casa de forma muito subtil, guardar dinheiro, criar uma rede de apoio e, sobretudo em casos graves de violência, ter uma mala com roupa e objetos pessoais no carro ou escondida num sítio que o parceiro desconheça e não tenha acesso. A vítima pode ter de sair de casa de forma súbita e, para não ter de voltar a casa, porque às vezes é muito perigoso, porque está lá o agressor”, justifica.

“É importante perceber o contexto da mulher. Ir preparando esta saída, para que ela seja feita com clareza, com apoio e com tempo”, resume a especialista.

Teresa, Margarida e Sofia são apenas três exemplos de mulheres que se viram enredadas em relações que não as fazem ou fizeram felizes. Nem todas conseguiram sair desse ciclo, ou até conseguiram, mas voltaram a entrar. O exemplo de Teresa é a prova de que é possível abandonar o barco sem voltar a afundar. Procurar ajuda é sempre o primeiro passo. Junto de um advogado, de um profissional de saúde ou mesmo de uma associação de apoio a vítimas.

Se está a viver estas circunstâncias ou conhece alguém que esteja, peça ajuda junto das forças de segurança, junto do seu médico de família ou do hospital da sua área de residência, através do 112 ou de um destes contactos:

  • APAV (Associação de Apoio à Vítima) - 116 006
  • UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta – 21 887 3005
  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) - 800 202 148
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