"És mulher e deves respeito ao homem": caso de violência doméstica abala Exército

13 mar, 22:40

EXCLUSIVO | Homem e mulher militares - que são ex-companheiros - estão em tribunal devido a processo por violência doméstica. Vão agora participar num longo exercício com armas e munições reais. O Exército garante que vai separá-los 

Uma militar receia ser agredida pelo ex-companheiro, também ele do Exército, durante um exercício nacional com armas marcado para começar na próxima segunda-feira, 16 de março, e que durar duas semanas no Campo Militar de Santa Margarida.

A procuradora do Ministério Público responsável pelo processo não aceitou os argumentos da militar - que alegadamente foi agredida repetidamente ao longo de ano e meio - para garantir o afastamento do ex-companheiro. A procuradora manteve a medida de coação mínima, ou seja, termo de identidade e residência.

Em resposta à reportagem do Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), o Exército garante que os antigos companheiros vão participar mesmo do exercício, mas em locais e contextos distintos para evitar qualquer imprevisto.

"Não permitia que eu usasse perfume ou desodorizante"

Além do testemunho desta jovem, o Exclusivo falou com outra ex-namorada do alegado agressor e que relata comportamentos semelhantes. 

“Ele controlava literalmente tudo. Quando eu digo tudo chegava ao ponto de nem sequer me permitir usar coisas simples como perfume ou desodorizante porque eu não tinha que cheirar bem para ninguém, eu tinha que estar constantemente tapada, mesmo que tivesse um dia horrível de calor”, diz a jovem, também militar no Exército, que sobre a violência física acrescenta: “Era mais à base de apertar o pescoço, encostar-me contra a parede. Chegou a partir uns auscultadores na minha cara”.

A nova relação com a outra militar começou em 2024 e prolongou-se por ano e meio. 

Processo por violência doméstica

Pelo meio foi aberto um processo de violência doméstica após uma participação feita pela Polícia Judiciária Militar, na sequência de suspeitas da superior hierárquica da jovem no Exército. 

Entretanto, o militar também fez queixa contra a ex-companheira, acusando-a não só de agressões mas também de inventar episódios para o incriminar. 

Além dos testemunhos de alegada violência recorrentes, nos áudios de algumas discussões podem ouvir-se ameaças do militar contra a ex-namorada e nos quais este diz, por exemplo, que “tu és mulher e deves respeito ao homem”.

15 dias com armas

Enquanto o caso se arrasta nos tribunais, os dois militares foram convocados para um exercício militar com armas, treino de artilharia e munições reais durante 15 dias, levando a jovem a sentir-se “aterrorizada”, sendo obrigada a estar no exercício sob pena de não entrar no quadro do Exército. 

A alegada vítima fez vários requerimentos para evitar estar próxima do antigo companheiro no exercício no Campo Militar de Santa Margarida, mas sem sucesso.

Exército garante segurança

Do lado do Ministério Público, a procuradora concluiu que sem agressões reportadas desde junho de 2025 não há risco de continuação da atividade criminosa do arguido. 

O processo inclui relatórios médicos com sinais de agressões contra a jovem e o militar tem uma patente superior à alegada vítima.  

Após a insistência do Exclusivo, o Exército garantiu que tem salvaguardadas todas as circunstâncias que podiam configurar perigo, acrescentando que os militares não vão participar da mesma atividade de treino e vão esta no exercício em contextos e locais distintos. 

Apesar da resposta anterior, horas depois a jovem alegadamente vítima de violência doméstica foi informada de que não vai ao referido exercício, tal como nenhum colega do curso que frequenta, numa decisão que levanta críticas da sua advogada. 

Contactado pela TVI, o militar acusado pela jovem também contraria a versão do Exército, apenas dizendo - sem mais comentários sobre as alegadas agressões - que não vai ao exercício no Campo Militar de Santa Margarida. 

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