Madalena Silva viveu mais de uma década de violência diária. Violência emocional, mas também física. À CNN Portugal, fala das “facas apontadas”, dos “chuveiros de água gelada em cima do corpo”, dos “murros, bofetadas e puxões de cabelo”. Mas conta, sobretudo como se libertou do agressor e deixa uma mensagem de esperança e confiança a quem vive hoje aquilo que ela viveu
O adjetivo ‘bonita’ é um eufemismo para descrever Madalena Silva. Longos cabelos loiros, olhos que irradiam vida e um sorriso contagiante. Aos 56 anos, transpira amor próprio, independência e vida. A frase “sou louca pela vida” sai-lhe da boca com a mesma cadência com que pontua as frases com vírgulas. É difícil imaginar que esta mulher já esteve subjugada ao poder físico e de manipulação de um homem. É difícil imaginar que esteve presa, durante mais de uma década, numa relação tóxica e violenta.
Nasceu numa pequena aldeia de Mirandela. Migrou para Lisboa com 20 anos, à procura de oportunidades de trabalho. Conheceu aquele que havia de ser o seu marido era ainda muito jovem. Apaixonou-se por ele da mesma forma intensa e fácil com que hoje encara a vida. Mesmo sob o encanto da paixão, não deixou de notar alguns sinais de alerta durante o primeiro ano que viveram juntos, ainda sem casar. Por isso, quando foi pedida em casamento, a primeira resposta que lhe veio à cabeça foi ‘não’. Mas a pressão da família e a vergonha com que, na altura, a sociedade encarava a união de facto, fizeram-na dizer o contrário.
A violência física veio na própria noite de núpcias e foi crescendo. A manipulação, o medo e a vergonha mantiveram-na presa a essa violência durante 12 anos. “Doze anos de inferno”, resume.
Ainda hoje recorda o “silêncio depois das agressões” e o olhar do filho quando via o pai a bater na mãe. Durante mais de uma década, foi uma sombra de si mesma. Sem brilho, sem autoestima, sem independência e sem autonomia. Libertou-se da teia de toxicidade e reergueu-se. Criou o filho sozinha, fundou a própria empresa e dedica os seus dias à beleza das mulheres. Sobreviveu e dedicou os últimos anos da sua vida a ajudar outras mulheres a quebrarem o ciclo de violência física e emocional em que estão envolvidas.
Conte-me, de forma muito resumida, a sua história.
Nasci numa aldeia no concelho de Mirandela, numa família simples, com valores de trabalho e resiliência. Sempre fui uma mulher lutadora, trabalhadora, muito inteligente, cheia de amor no coração e cheia de fé.
Conheci o homem que viria a ser o meu marido ainda jovem e, como muitas mulheres, acreditei, que aquele seria o amor da minha vida e que ia construir com ele uma família e um futuro seguro. Mas, logo no início havia sinais que, apesar de os ter visto, ignorei.
Logo no dia do casamento senti que ia sofrer. Com o tempo, a relação transformou-se. O que começou por controlo emocional evoluiu para violência psicológica e, mais tarde, física.
Durante anos, vivi entre o medo, a insegurança, a instabilidade, a esperança de mudança e a responsabilidade de proteger o meu filho.
Desde o dia do casamento até ao dia que me libertei, vivi momentos de terror, muita violência psicológica e física. Fugi de casa algumas vezes. Amigos, família e conhecidos não entediam. Algumas vezes vi a morte perto de mim. Era desde facas apontadas, chuveiros de água gelada em cima do corpo, murros, bofetadas, puxões de cabelo... Foram 12 anos de inferno.
Chegou um momento em que percebi que, se ficasse, iria perder-me completamente (houve muitos momentos que isso aconteceu). Saí sem garantias. Reconstruí a minha vida do zero, criei o meu filho sozinha e transformei a dor em voz, através dos livros e do meu trabalho.
Diz que não se queria casar ao fim de um ano de vida em união de facto. Porquê? E porque não conseguiu dizer ‘não’?
Porque, no fundo, já sentia sinais de controlo e pressão. Mas existe um mecanismo muito forte de manipulação emocional. Somos levadas a acreditar que estamos erradas, que estamos a exagerar, que devemos ceder para manter a família. Eu não disse não, porque estava emocionalmente condicionada, com medo de perder a estabilidade e a família que estava a construir. Disse à minha mãe que via que aquele ‘não’ seria o melhor caminho, mas ela alertou-me que já vivia maritalmente com ele e não ficaria bem perante os outros.
Quantos anos estiveram casados e quantos desses anos foram de violência? Houve tentativas de sair?
Vivemos um ano em união de facto e estivemos 12 casados. A violência, como disse, começou logo no dia do casamento, com agressões físicas e com palavras, humilhações e controlo.
Houve momentos em que pensei sair. Mas o medo, a dependência emocional e financeira, o filho e a falta de apoio tornavam tudo muito difícil.
Que momentos recorda com mais nitidez?
Recordo o medo constante dentro da minha própria casa. Recordo o silêncio depois das agressões. E recordo, acima de tudo, o olhar do meu filho a assistir a algo que nenhuma criança deveria ver.
Aquele primeiro estalo com o meu filho pequenino ao colo, foi tão forte, que será difícil esquecer.
As vezes que fugi e o medo até de me ir deitar e acordar morta, ele apontar-me a faca e o meu filho a chegar na aranha quando ele me batia…
Numa outra entrevista diz que ele lhe batia e a massacrava. O que quer dizer, em concreto, com ‘massacrava’?
Massacrar não é só bater. É destruir a identidade da pessoa. Era humilhação, insultos, desvalorização constante, controlo, fazer-me sentir incapaz e sem valor. A violência psicológica deixa marcas invisíveis, mas profundas. Ele passava dias e dias a “matutar” na mais pequena coisa, a bater na mesma tecla… fosse de contas, fosse de um trabalho que ele não gostava de ter… qualquer coisa servia para passar horas a falar do mesmo.
Que impacto teve esta relação no seu filho?
Teve um impacto profundo. Uma criança que cresce num ambiente de medo perde a sensação de segurança. Isso marcou-o emocionalmente, e foi também por ele que encontrei força para sair. O meu filho tem hoje marcas gravíssimas, até porque para além do pai, os avós também o desprezaram e de alguma forma lhe fizeram mal. O meu filho sofre de ansiedade e medos constantes, tem falta de auto estima e de amor próprio.
Qual foi o momento decisivo para sair?
Foi quando percebi que, se continuasse, poderia não sobreviver emocionalmente e que o meu filho iria crescer a achar que aquilo era normal. Nesse momento, escolhi quebrar o ciclo. E preparei um plano, no dia em que, após ele ter partido um aquecedor para arrombar a porta onde nos escondemos, disse “basta”.
Como foi o processo? Teve apoio? Como conseguiu financeiramente?
Foi extremamente difícil. Parti praticamente do zero. Tive de reconstruir tudo com o meu trabalho, passo a passo. Não houve facilidades. Houve sobrevivência, esforço e muita determinação. Não tive, na altura, ajuda de ninguém. Tive apenas um sobrinho que me pagou uma carrinha para tirar alguma coisa e uma amiga me pagou a entrada de uma casa alugada. Vim quase sem nada. Mesmo assim, eu saí da minha casa e, um tempo depois, não estava a conseguir sobreviver, achava eu… e ele voltou e eu não me via com alternativas.
O falecido Tozé Martinho, meu amigo e advogado, pediu para eu ir com o meu ex-marido ao escritório dele, em Lisboa. Fê-lo assinar um papel em que ele declarava que, se me voltasse a bater, teria de sair da minha casa. Aquilo nem tinha validade legal nenhuma. Era apenas para o assustar. Decidi não voltar para a minha casa comprada, na esperança de, na minha alugada, ele tivesse medo e mudasse. Foram mais três anos de autêntico inferno. Foi nessa altura que me libertei.
Porque não saiu mais cedo?
Porque a violência doméstica não é apenas física. É também psicológica. A pessoa perde a confiança, sente medo, vergonha e esperança de que o outro mude. Não é fraqueza. É aprisionamento emocional. O filho, a instabilidade, o medo, muito medo perder o que tinha.
Como conseguiu reerguer-se?
Inicialmente, andei uns anos meia perdida. Penso que nunca devemos perder-nos no caminho. As emoções, a instabilidade emocional e económica levam-nos a dar novos passos, que podem ou não ser o melhor caminho. Mas, depois de sofrer muito e de ter ficado consciente da vida, e de como funciona o ser humano, arregacei as mangas, como só eu sei fazer, pois gosto muito de trabalhar. Estudei mais, formei-me mais, criei o meu próprio negócio, reconstruí a minha independência e concentrei-me em ser um exemplo de força para o meu filho.
Transformei a dor em propósito. Às vezes, olho para trás e quase não me reconheço de tanto que me transformei.
Arrepende-se de alguma coisa nesse processo?
Arrependo-me apenas de não ter percebido mais cedo que merecia paz. De ter perdido tantos anos da vida que tanto amo.
Escreveu três livros sobre violência doméstica. São autobiográficos? Porque decidiu escrevê-los?
Sim, são baseados na minha história real. Escrevi-os porque o silêncio protege o agressor. A minha voz poderia ajudar outras mulheres a reconhecer sinais e a sair.
O meu primeiro livro teve um impacto que nunca imaginei. Depois, escrevi o segundo livro baseado em histórias reais. E, por fim, o terceiro sobre os filhos das vítimas e o quanto eles podem ficar com marcas para a vida
A exposição mediática que ganhou na sequência da publicação dos seus livros ajudou-a, de alguma forma, neste processo emocional?
Sim. Transformar a dor em algo útil foi parte da minha cura. Recebi milhares de mensagens de mulheres e homens que ganharam coragem e que se libertaram e isso deu sentido ao que vivi.
Porque é que, a certa altura, se afastou desse mediatismo? E, já agora, porque decidiu manter uma página de Facebook sobre o tema?
Afastei-me porque precisava de viver e não apenas sobreviver à minha história. Precisava de me encontrar, de ter o propósito de realizar os meus sonhos, fazer um processo de cura. Precisava de me sentir viva e, internamente, outra mulher.
Mantive a página porque continua a ser um ponto de apoio para quem precisa e porque me pedem muito que não a elimine.
Como encara as relações emocionais atualmente?
Com consciência, respeito próprio e limites claros. A paz deixou de ser negociável. Sinto que as relações estão cada vez mais tóxicas, já não há amor e respeito como há uns anos.
Como define a Madalena de agora?
Uma mulher livre, independente e reconstruída. Mais forte do que alguma vez imaginei ser. Sou tão feliz hoje comigo, que não tenho sentido necessidade de acrescentos ou complementos. Programo as minhas viagens, algo que me dá vida. Deixei de dar importância a pessoas que não me acrescentam. Não permito que alguém me venha tirar a paz, não durmo com problemas, medito muito e cada dia sou mais apaixonada pela vida.
Diz que não é ativista contra a violência de género. Então, como define o trabalho de sensibilização que tem feito?
Sou uma sobrevivente que decidiu não ficar em silêncio. O que fiz foi dar voz à realidade que muitos preferem ignorar. Fui convidada durante anos para fazer parte de associações, mas, como não tenho boa imagem delas, decidi ser apenas eu. Uma porta aberta, para quem de mim precise.
Que conselhos daria a uma mulher que está presa a uma relação tóxica? A quem devem recorrer e pedir ajuda? Que tipos de ajuda existem?
O principal conselho que dou é: não normalizem o abuso e não esperem que ele mude. A violência tende a escalar, nunca a desaparecer. Devem sempre apresentar queixa. Ir à polícia, ao Ministério Público, insistir as vezes que forem necessárias e deixar registo. Cada queixa cria histórico e pode fazer a diferença na proteção da vítima e dos filhos.
Também é importante falar com alguém de confiança e não ficar isolada. O isolamento é uma das maiores armas do agressor.
Às mulheres que estão agora a sofrer, quero, sobretudo, dizer isto: sair é difícil, mas ficar destrói-nos aos poucos. Nenhuma mulher merece viver com medo dentro da própria casa. A paz existe. E a liberdade, embora pareça impossível naquele momento, é real e vale tudo.
Durante anos vivi em silêncio. Hoje, vivo em liberdade e ninguém me volta a tirar a voz. Perdi muito naquela relação, mas recuperei o mais importante: recuperei-me a mim própria. O dia em que saí foi o dia em que voltei a nascer. Que todas as que vivem em silêncio, presas neste crime atroz, se revejam em mim.