Quase três em cada quatro pessoas apoiadas pela APAV foram vítimas de violência doméstica

Agência Lusa , AM
19 fev, 07:11

APAV apoiou mais de 18.500 vítimas em 2025, a maioria por violência doméstica

Quase três em cada quatro pessoas ajudadas pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima em 2025 eram vítimas de violência doméstica, revela a associação, segundo a qual este mantém-se o crime mais reportado, com mais de 26 mil queixas.

As estatísticas da APAV relativas a 2025, a que a Lusa teve acesso, mostram que a instituição apoiou 18.549 pessoas, relativamente às quais foram reportados 35.341 crimes, 73,9% dos quais violência doméstica.

Em declarações à Lusa, a assessora técnica da direção da APAV Carla Ferreira apontou que este é “sem dúvida” o crime que “leva a dianteira”, tendo em conta “os mais de 26 mil crimes reportados”.

“Há um peso de cerca de três em cada quatro vítimas que nós apoiamos eram vítimas de violência doméstica”, salientou.

Destacou, por outro lado, que houve outros crimes reportados que tiveram “aumentos significativos”, como “as situações de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, que aumentaram 87% entre 2024 e 2025”.

Mencionou também os casos de burla, que aumentaram 48% ou os crimes sexuais contra crianças e jovens que cresceram 25% entre 2024 e 2025.

De acordo com Carla Ferreira, a APAV registou um aumento de 25% nos casos de perseguição denunciados e de 14% nos crimes de ameaça e de coação, havendo preponderância de situações ocorridas no contexto online, nomeadamente nos crimes sexuais contra crianças.

Lembrou que a APAV é responsável, desde 2019, pela gestão da linha Internet Segura, através da qual “entram também muitos pedidos de ajuda para as situações de violência em contexto online, particularmente as situações de burla ou as situações de violência sexual”.

Uma realidade que a responsável entende que deve ser acompanhada de medidas não só de combate, mas também de mecanismos preventivos.

No que diz respeito à primeira, Carla Ferreira diz que Portugal tem uma legislação “bastante completa em termos de penalização dos fenómenos criminais”, mas salientou que uma coisa é a lei, outra a sua aplicação.

Deu como exemplo os vários mecanismos existentes para as vítimas de crime sexuais ou de violência doméstica que nem sempre se aplicam às demais vítimas de uma forma clara e imediata.

“Ainda há um caminho a fazer. Aliás, lançamos esses dados estatísticos a propósito do dia 22 de fevereiro, que é o Dia Europeu da Vítima de Crime, que também pretende lembrar, precisamente, que todas as vítimas de crime devem ter uma voz e todas as vítimas de crime têm direitos”, defendeu.

Relativamente à prevenção, apontou que existem várias iniciativas, tanto de órgãos de polícia criminal como da própria APAV, mas “regra geral são pouco uniformizadas”.

Carla Ferreira salientou que desde 2015 há um estatuto de vítima previsto na lei, mas lembrou que “a APAV é a única organização que presta apoio a vítimas de todas as formas de crime e de violência” em todo o país.

“O que significa que, ao contrário, por exemplo, da violência doméstica, em que existem muitas outras respostas, as demais vítimas não têm a mesma atenção”, alertou.

Admitiu que a violência doméstica é “quase endémica” na sociedade portuguesa, o que justifica a quantidade de respostas, mas defendeu que as outras vítimas não podem ficar esquecidas, apontando que o que importa não é o crime em si, mas o impacto que ele teve na vida da vítima.

De acordo com a responsável, a APAV tem constatado uma certa mutação nos crimes, apontando que “atrás de um teclado é fácil praticar crimes de discriminação” ou falsificar uma identidade.

Especificamente em relação ao contexto online, Carla Ferreira acredita que “se calhar há mesmo de facto mais crime”, tendo em conta o “escalar de algum tipo de conteúdos, de discursos de normalização de algumas formas de violência”.

APAV apoiou mais de 18.500 vítimas em 2025

O número de pessoas ajudadas pela APAV aumentou quase 42% nos últimos seis anos, ultrapassando as 18.500 vítimas só em 2025, a maioria por crimes de violência doméstica.

Os dados da APAV mostram uma evolução crescente no número de pessoas apoiadas desde 2020, ano em que ajudaram 13.093 pessoas.

O número total aumentou para 13.234 no ano seguinte, subindo novamente para 14.688 em 2022, 16.185 em 2023 e chegando às 16.630 em 2024. Daqui para 2025, registou-se um crescimento de 11,5%.

Na opinião da APAV, este aumento no número de pessoas que recorre à instituição é explicado não só com a “abrangência dos serviços” da associação, mas também com o crescimento de algumas formas de criminalidade, sobretudo violência doméstica.

De acordo com Carla Ferreira, assessora técnica da direção da APAV, em comparação com 2024, o número de crimes reportados em contexto de violência doméstica aumentou 10%, ainda que no total de crimes, o peso da violência doméstica tenha diminuído cerca de 2%.

Os dados da APAV mostram que às mais de 18.500 vítimas apoiadas em 2025 correspondem 35.341 crimes e outras formas de violência, o que representa um aumento de 13,1% face a 2024.

Dentro dos mais de 35.300 crimes estão 26.124 denúncias por violência doméstica, o que representa 73,9% do total de crimes.

Além da violência doméstica, a APAV registou também 1.076 casos de conteúdo de abuso sexual de menores, 889 ofensas à integridade física, 864 casos de abuso sexual de menores, 858 denúncias por coação ou ameaça, 662 por difamação, 576 por discriminação ou incitamento ao ódio, 539 burlas, 239 casos de perseguição e 232 violações de pessoas adultas.

O perfil geral da vítima é mulher (75,5%), idade média de 37 anos, que procurou ajuda por crimes de violência doméstica (75,7%).

As 18.549 vítimas registadas em 2025 significam, em média, que a APAV apoiou 357 pessoas por semana, 51 por dia e duas por hora.

Fazendo uma análise por grupos, o perfil da pessoa idosa vítima mostra também que é mulher, com 76 anos, cujo agressor são os filhos ou o cônjuge, e procura ajuda sobretudo por violência doméstica (81,2%). No total, a APAV ajudou 2.017 pessoas idosas em 2025.

Relativamente a crianças e jovens, mais de metade (58,1%) são do género feminino, com uma média de idades de 10 anos, cujos agressores são os progenitores ou os padrastos, e são vítimas não só de violência doméstica (60,4%), mas também filmadas para conteúdo de abuso sexual (14,5%)

Nos homens adultos, a média de idade é de 48 anos, vitimas de crime de violência doméstica (65,5%), cujo agressor se divide entre cônjuge (12,7%) e filhos (9,7%), tendo a APAV registado seis casos por dia.

Nas mulheres adultas, a média de idades é de 45 anos, vítimas de violência doméstica (85,8%) às mãos de cônjuges (20%) ou ex-companheiros (14,2%). A APAV apoiou 10.327 em 2025, o que representa uma média de 28 mulheres por dia.

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