"Os ecrãs são um íman perigoso". A criminalidade entre os jovens está a aumentar - o cenário visto a partir de um caso em Loures

28 mar 2025, 18:21
Polícia
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Violação de uma jovem de 16 anos por três influenciadores com grande visibilidade online está a colocar o tema dos perigos digitais na ordem do dia e a preocupar pais e especialistas

"Os jovens têm os ouvidos tapados para os conselhos mas os olhos bem abertos para os exemplos". É desta forma que o psiquiatra Vítor Cotovio analisa casos como o da violação de uma jovem de 16 anos em Loures - os suspeitos são três jovens com idades entre os 17 e os 19 anos conhecidos pelas suas atividades nas redes sociais. Ou seja, trata-se de influencers.

A violação, filmada e divulgada nas redes sociais, aconteceu depois da jovem, seguidora dos suspeitos nas redes sociais, ter marcado um encontro presencial com eles após troca de mensagens virtuais. Milhares de pessoas viram as imagens, mas a queixa só surgiu depois de a alegada vítima ter dado entrada no Hospital Beatriz Ângelo.

Não é simples, mas há um consenso crescente entre os especialistas ouvidos pela CNN Portugal: estamos perante um desafio urgente que exige ação coordenada de famílias, escolas, autoridades e das próprias plataformas digitais.

Vítor Cotovio alerta que os jovens estão mais propensos a seguir influenciadores do que figuras de autoridade tradicionais, como pais e professores. Lá está: "Os jovens têm os ouvidos tapados para os conselhos mas os olhos bem abertos para os exemplos".

Para o especialista, parte do problema passa pela falta de supervisão parental e pela permissividade excessiva em relação à vida digital dos filhos. "Não devemos diabolizar as redes sociais, mas a privacidade dos jovens tem de ser supervisionada. Os ecrãs são atualmente um íman perigoso", defende, acrescentando que o excesso de tempo passado à frente dos ecrãs reduz a empatia para com o outro e ativa impulsos violentos e sexuais, o que contribui para comportamentos de risco.

O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2024 aponta um aumento de mais de 12% na criminalidade juvenil face a 2023. Os delitos em ambiente escolar também estão a aumentar. No ano passado, foram identificados mais de dois mil crimes cometidos por jovens entre os 12 e os 16 anos.

A professora e porta-voz do projeto "Missão Escola Pública", Cristina Mota, afirma que os docentes têm alertado para o aumento da indisciplina e da violência em contexto escolar. No entanto, as instituições de ensino enfrentam dificuldades para responder ao problema devido à falta de recursos.

“Os poucos psicólogos que existem nas escolas estão direcionados para dar uma resposta aos jovens apenas ao nível da sua vocação e não em termos clínicos. Quando nós, professores, detetamos que os jovens estão mais envolvidos com as redes sociais e que poderá existir um problema não temos a quem recorrer", lamenta Cristina.

Para amenizar esta situação, a professora defende a contratação de mais psicólogos clínicos e assistentes operacionais de forma a reforçar o acompanhamento dos jovens, principalmente nos intervalos, momentos em que estão mais expostos às redes sociais.

Cristina Mota destaca ainda o impacto das redes sociais na continuidade dos conflitos entre alunos: “Antes, quando havia um incidente na escola, o aluno ia para casa, dormia e no dia seguinte voltava com outra postura. Agora, o conflito continua online durante a noite, alimentando tensões e contribuindo para a escalada da violência escolar.”

Para Tito Morais, fundador do projeto “Miúdos Seguros na Net”, a solução não passa por proibir os telemóveis nas escolas. “É extremamente ingénuo pensar que isso impedirá o acesso às redes sociais. Os jovens continuarão a utilizar essas plataformas noutros locais”, argumenta.

Para o especialista, a solução passa pelo envolvimento parental desde cedo - “aos 13 ou 14 anos já é tarde” - e pela regulamentação mais rígida dos conteúdos disponíveis online.

Entre os crimes mais comuns praticados por jovens em 2024, segundo o Relatório, estão a violência sexual e a pornografia de menores, muitas vezes disseminada através de aplicações como o Discord e o WhatsApp.

“Não podemos tolerar a existência de grupos que partilham pornografia juvenil ou promovem ideologias radicais. As plataformas devem ser responsabilizadas. As redes sociais, hoje em dia, são usadas para indoutrinação e são autênticas lavagens cerebrais dos jovens sobre todo o tipo de ideologias - de misoginia até seitas radicais. Parece que nos esquecemos de que houve jovens portugueses que foram combater pelo Estado Islâmico por causa das redes sociais”, afirma Tito Morais.

O especialista acredita que muitas destas publicações devem-se a um autêntico "culto do like", a busca incessante por validação digital. O sistema de “likes” funciona como um estímulo cerebral, levando os jovens a associar a sua autoestima ao número de interações que recebem. “Quando os likes diminuem, muitos jovens adotam comportamentos extremos apenas para atrair mais atenção”, alerta Tito Morais.

O advogado Gustavo Silva, ex-inspetor da Polícia Judiciária, salienta que a velocidade da comunicação digital contribui para a propagação dos crimes que observamos hoje. "Nas redes sociais tudo acontece de forma mais rápida e facilitada", garante.

O problema é complexo e exige soluções estruturais. "Cabe às autoridades, às famílias e às escolas trabalharem em conjunto para mitigar os riscos. Não é um fenómeno isolado e não pode ser tratado nem a curto prazo nem por uma autoridade em concreto, tem de se investir seriamente nesta componente", conclui.

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