Violações aumentaram 10% em 2024. Caso de Loures foi visto por milhares, mas só o hospital denunciou

28 mar 2025, 12:10

 

 

 

 

 

Em Portugal foram reportadas 543 violações no ano passado, foram registados dois mil crimes cometidos por jovens entre os 12 e os 16 anos e sete mil crimes praticados em grupo

Uma jovem de 16 anos foi violada, em fevereiro, por três rapazes com idades entre os 17 e os 19 anos em Loures. A violação, filmada e divulgada nas redes sociais, aconteceu depois da jovem, seguidora dos suspeitos nas redes sociais, ter marcado um encontro presencial com eles após troca de mensagens virtuais.

Os vídeos foram divulgados brevemente nas redes sociais e, segundo o jornal Expresso, terão sido vistos pelos milhares de seguidores sem que ninguém tenha dado o alerta. A denúncia à PSP seria feita pelo Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, para onde a jovem foi levada pelos pais depois de o crime ter acontecido numa zona próxima da sua residência, "vindo a PJ a ser ativada dado a competência reservada para a investigação dos crimes em causa".

Os jovens suspeitos são influencers com “um público já muito significativo”, como revelou o diretor da Polícia Judiciária aos jornalistas na quinta-feira. Ficaram sujeitos a apresentações periódicas e à proibição de contacto com a vítima e estão acusados dos crimes de violação agravada e pornografia de menores.

Em declarações à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), a família da vítima diz que continua em choque e que quer justiça, revelando ainda que a jovem está a receber apoio psicológico.

De acordo com o Relatório de Segurança Interna (RASI), a que a CNN Portugal teve acesso, os crimes de violação aumentaram 9,9% em 2024, tendo sido registados mais 49 crimes no ano passado do que em 2023.

  2022 2023 2024
Crimes 519 494 543
Inquéritos 20,1% 20,2% 20,7%

O RASI acrescenta que neste tipo de crime prevalece a relação de conhecimento/familiar entre o autor e a vítima (43,2%) e que a maioria das vítimas são do sexo feminino e têm entre os 21 e os 30 anos. Já no que concerne aos arguidos, 94,4% são do sexo masculino, tendo sido detidas 65 pessoas no ano passado, dos quais 64 homens. 

Para além do aumento nos crimes de violação, aumentou também a criminalidade grupal (facto criminoso praticado por três ou mais suspeitos) e a delinquência juvenil (ato qualificado pela lei como crime cometido por indivíduo com idade entre os 12 e os 16 anos). O primeiro aumentou 7,7% e o segundo 12,5%.

  2023 2024
Criminalidade grupal 6.756 7.279
Delinquência juvenil 1.833 2.062

Segundo os especialistas, este caso aumenta ainda mais a perceção dos perigos que estão à solta nas redes sociais, muitos deles através de influencers, que não são controlados por nenhuma entidade, e que criam doutrina sobre as relações interpessoais e até sobre a sexualidade.

A comissária Patrícia Firmino, do departamento de Operações da PSP, explica à TVI que "é importante que se perceba com quem é que os filhos conversam, qual é que é o tipo de conversas, quem é que está do outro lado do ecrã". Mas não só.

"Principalmente os conteúdos que consomem. E hoje em dia consome-se conteúdos que não são adequados para a idade com uma facilidade surpreendente", alerta, revelando que há crianças "com 10/11 anos" a consumir pornografia.

Para além disso, os apelos a atos misóginos e a partilha de vídeos pornográficos estão não só a distorcer a realidade como a aumentar na Internet. Tito de Morais, fundador do Projeto Miúdos Seguros na Net, alerta mesmo que "há grupos de WhatsApp dedicados a promover esse tipo de viés" e a fazer uma espécie de lavagem cerebral aos jovens.

“Dizemos que é um fulano que é misógino, que defende ideias como a mulher só existe para trazer ao mundo os filhos dos homens, o lugar da mulher na cozinha, as mulheres que são violadas devem ser responsabilizadas pelo facto de o serem. Há grupos de WhatsApp dedicados a promover esse tipo de viés”

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