Das duas uma: ou Gianluca Prestianni proferiu insultos racistas contra Vinícius Júnior; ou o jogador do Real Madrid está a mentir (também Kylian Mbappé, que corroborou os insultos) e o número 25 do Benfica está a ser alvo de uma “campanha de difamação”, para usar as palavras da entidade a que preside Rui Costa
O Benfica defende-se com comunicados, vídeos e silêncios. Contudo, numa nota publicada no site oficial, as águias prometeram colaborar com “com total espírito de colaboração, transparência, abertura e sentido de esclarecimento” nas diligências da UEFA sobre o alegado caso de racismo. Mas, de novo, das duas uma: ou o SLB trabalha para esclarecer o gravíssimo episódio, ou aposta na proteção cega de Prestianni, que é o que tem estado a fazer.
No sábado, vetou as perguntas da imprensa sobre o incidente depois de vencer o AVS por 3-0. Nos dias anteriores, tinha reiterado que “apoia e acredita plenamente na versão apresentada pelo jogador Gianluca Prestianni, cuja conduta ao serviço do Clube sempre foi pautada pelo respeito pelos adversários, pelas instituições e pelos princípios que definem a identidade benfiquista”.
Talvez a conduta tenha sido exemplar no Benfica — isto é, se excetuarmos os insultos a Vini Jr, sejam eles homofóbicos (na versão do próprio e do 30 encarnado, Nicolás Otamendi) sejam eles racistas (na versão dos números 7 e 10 do Real). E se excetuarmos também a expulsão no Mundial de Clubes FIFA no verão passado por um pontapé a Colwill, jogador do Chelsea. A equipa inglesa eliminou as águias com três golos no prolongamento depois do segundo amarelo a Prestianni (o jogo acabou 1-4).
Não é a primeira agressão contra um brasileiro
Ao serviço da seleção argentina, Gianluca nunca foi um “bom rapaz”. O incidente mais lamentável teve lugar na final do torneio sub-17 em Montaigu (França), a 18 de abril de 2022. Após o apito final (vitória brasileira por 2-1), as imagens mostram um Prestianni com a camisola 11 a dar vários murros ao 4 da Canarinha, João Paulo Dalla Corte. Na sequência do espancamento, outro elemento da albiceleste empurra e atira ao chão o defesa brasileiro, e depois dilui-se na confusão como se nada fosse.
Essa foi precisamente a estratégia de Prestianni com Vini: atacar e fingir-se inocente, tapar a boca para eliminar provas e assobiar para o lado. “A felonia de Prestianni é apenas comparável com a sua a matreira encenação e o seu propósito deliberado: escapar incólume à sua embaraçosa afrenta a Vinícius”, escreveu Santiago Segurola no jornal desportivo espanhol ‘As’.
‘Felonia’ é uma boa palavra, define um “ato violento, cruel ou maldoso”. Segurola não hesita: cobrir a boca até o nariz foi uma “treta cobarde” que “diz tudo sobre a premeditação de Prestianni”. E acrescenta: “Não vai ser a palavra do extremo do Benfica contra a de Vinícius. No regulamento da UEFA inclui-se a validez das provas das testemunhas. Uma delas foi Mbappé (…). O seu relato foi contundente, impecável no conteúdo e na forma”.
Segundo o jornalista espanhol, as declarações de Mbappé na zona mista “tiveram o ponto certo de indignação, firmeza e capacidade de reflexão”. No artigo ‘A ofensa travou a ofensiva do Real’, denuncia ainda que o jogo nunca mais foi o mesmo depois da ativação do protocolo antirracista. Passou-se de uma “musicalidade perfeita” no futebol dos merengues a um jogo “tenso, estragado, nervoso”.
Ou seja, o 25 não só ofendeu gratuitamente Vinícius (e sobre isto não há dúvidas, as únicas opções são “maricón” ou “mono”). Também prejudicou o momento ascendente do Real Madrid, o espetáculo desportivo e, sobretudo — só não sabemos ainda em que medida —, a sua própria equipa, que pagou 9+2 milhões de euros ao Vélez Sarsfield de Buenos Aires pelos seus serviços.
O “travesti” de Chilavert
O historial do pequeno avançado argentino (mede 1,66 metros) não é bom — também fez pouco de Chicha Sánchez, jogador mexicano que derrotou no último mundial Sub-20; mas o que a UEFA está a investigar é apenas o que se passou a 17 de fevereiro na Luz. Quem prefere acreditar no Prestianni, começa por negar que exista racismo e a seguir nega o episódio: não há provas, ou então Vinícius ouviu mal — como se alguém pudesse confundir ‘paneleiro’ com ‘macaco’. O mais extraordinário é que o Benfica validou a tese de Otamendi, que obviamente estava a proteger o seu jovem compatriota (20 anos contra os 38 de Otamendi, que também jogou no Vélez Sarsfield) quando inventou a tese do insulto homofóbico.
A segunda linha de defesa dos negacionistas é atacar a vítima. José Luis Chilavert, ex-guarda-redes da seleção do Paraguai, disse a uma rádio argentina que “Vinícius é o primeiro a insultar toda a gente” e, não satisfeito com a inversão dos factos, acusou o brasileiro de ter chamado “cagón” a Prestianni (nisto diverge com Otamendi, que insinua que o insulto foi mesmo ‘maricón’). Mais sublimes ainda foram as palavras de Chilavert sobre Mbappé: “Solidariza-se com Vinícius, fala de valores e tudo isso, mas ele vive com um travesti”.
A verdade não é para aqui chamada, e por isso o bar aberto de ataques contra quem denuncia o racismo vai continuar, mesmo depois da segunda mão (25 de fevereiro, em Madrid). Há quem ainda pense, e diga em voz alta (inclusive nas televisões e nas redes sociais), que no futebol “vale tudo”, e que apesar de que havia outros negros em campo “é sempre o mesmo que provoca”.
A saudação “romana” de Di Canio
Por partes: não, não vale tudo dentro das quatro linhas. Não são permitidos os insultos racistas nem as saudações “romanas” — o subterfúgio utilizado por Paolo Di Canio, jogador da Lazio multado em 2005 por levantar o braço como Mussolini, cuja alcunha (“DUX”) tinha tatuada no braço. Di Canio falou de romanos, depois admitiu que era “fascista”, mas negou sempre ser racista. O primeiro-ministro italiano na altura, Sílvio Berlusconi, disse que a saudação “não teve nenhum significado”, e descreveu o jogador como um “bom rapaz” (‘ragazzo per bene’).
O racismo é um crime em Itália e também em Portugal, concretamente no artigo 240 do Código Penal. Em Espanha, como apurou a CNN, pelo menos cinco dos ataques racistas sofridos por Vinícius resultaram em condenações.
Os insultos a Vinícius em 2023 no Mestalla resultaram na condenação de três adeptos do Valencia CF a oito meses de prisão. A sentença declarou os adeptos culpados de um crime contra a integridade moral com agravante por motivos de ódio. O texto detalha ainda que “a última condenação [...] foi proferida em junho de 2025 contra quatro membros do grupo ultra Frente Atlético, que penduraram um boneco com a camisola de Vinícius”. O boneco não tinha rosto e apareceu enforcado num viaduto madrileno.
“Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida e da minha família”, escreveu Vini no Instagram pouco depois do jogo. Se alguém sabe o que é o racismo, especificamente no desporto, e mais concretamente no futebol europeu, é o camisola 7 do Real Madrid. Especialistas como Miguel Cardoso, diretor executivo da Black Europeans e da mesma cor de Vinícius, têm denunciado a existência de “racismo estrutural” em Portugal, mas também a negação histórica desse mesmo racismo.
Portugal, tal como a Espanha e muitas outras nações que jogam na Liga de Campeões e tiveram impérios (Inglaterra, Países Baixos, França...), lida mal com esse passado e só muito lentamente abre espaço para reparações. O racismo é, muitas vezes, tão real e quotidiano para quem o sofre como invisível para quem não o sofre. É pouco provável que Prestianni, branco e rico (pelo menos nesta fase da vida), sofra racismo. E é menos provável ainda que Vinícius tenha inventado uma acusação com esta gravidade, porque no caso dele seria pôr em causa uma vida inteira dedicada a combater um flagelo.
Não é um rapaz “incrível”
Esta é uma das chaves. José Mourinho deu a entender, à maneira dele, que Vini não mentia: “Não quero dizer que o Vinícius é um mentiroso e o Prestianni um rapaz incrível”, admitiu na conferência de imprensa. Se Mourinho achasse que era tudo uma fabulação contra o extremo benfiquista, teria reagido assim? Teria tentado ser “equilibrado” ou teria dado uma descompostura de alto a baixo ao autor do único golo da partida?
Uma falsa acusação, nestas circunstâncias, é tão grave quanto a acusação em causa, porque marca de forma indelével a carreira de qualquer pessoa. Mourinho sabe, e o Benfica sabe, que não há aqui uma campanha contra Prestianni. O que há é uma campanha para desprestigiar Vinícius e agarrar-se à manha do argentino e dos muitos apoiantes que, entretanto, surgiram: não há registos, logo nunca vamos saber o que se passou.
Num dos vídeos da agressão, vemos Vinícius a voltar para o seu campo depois do golaço. Prestianni aparece nas costas dele e levanta a camisola antes de repetir “eres un mono”. Perto estão Eduardo Camavinga (nº 6 do Real Madrid), o árbitro francês (François Letexier) e Otamendi. Um pouco mais longe deambulam Amar Dedić (jogador bósnio do Benfica), e os madridistas Mbappé, Valverde e Carreras.
O testemunho mais decisivo vai ser o do árbitro, que não domina os insultos em castelhano e no momento-chave estava ocupado a mostrar um amarelo a Vini. Com Otamendi — que ainda teve a lata, para lá de miserável, de mostrar a Vini as tatuagens com as taças conquistadas — já sabemos que não podemos contar para esclarecer a verdade. Não sei o que terão ouvido os outros, mas sabemos o que ouviu Mbappé.
Com estes elementos vamos chegar ao jogo decisivo de quarta-feira, o terceiro em menos de um mês entre os dois gigantes ibéricos. Álvaro Arbeloa, treinador merengue, foi claro: “A UEFA tem a oportunidade de demonstrar que a luta [contra o racismo] não são só palavras. Tem de haver castigo”.