Este vinho premiado é produzido num dos climas mais rigorosos do planeta

CNN , Michael Cross e Tom Page
29 nov, 12:00
Nas encostas das montanhas Naukluft, na orla do Deserto da Namíbia, a Neuras Wine and Wildlife Estate está a produzir vinhos premiados num dos locais mais secos do mundo (N/a’an ku sê Films)

Entrar no negócio do vinho não é para os fracos de coração. Lançar-se nesta área sem qualquer experiência prévia, num deserto onde as temperaturas atingem os 50 ºC, poderia ser considerado uma loucura. Mas para Rudie van Vuuren a aposta valeu a pena.

Van Vuuren é o diretor-geral da Neuras Wine and Wildlife Estate, situada a cerca de 225 quilómetros a sul de Windhoek, na Namíbia. Localizada nas encostas das montanhas Naukluft, na fronteira do Deserto da Namíbia é, segundo os seus proprietários, a vinha mais seca fora do Deserto de Atacama, no Chile. Enfrentando um clima hostil e babuínos famintos, a Neuras percorreu o caminho do entusiasmo amador à produção de vinhos premiados, colocando este recanto remoto de África no mapa da viticultura.

Nos últimos anos, a pequena vinha tem conquistado medalhas internacionais, incluindo ouros e duplos ouros, pelos seus vinhos — tinto, ruby (tipo Porto) e "nappa” (um destilado semelhante à grappa).

O responsável da adega afirma que nada disto teria sido possível sem a inesperada ajuda de um leopardo chamada Lightning.

Antes de se dedicar à produção de vinho, Van Vuuren teve uma carreira multifacetada. Médico de profissão, foi membro das seleções nacionais da Namíbia de críquete e râguebi, tendo participado em Taças do Mundo em ambas as modalidades — e tornou-se conservacionista.

Em 2009, Van Vuuren estava num helicóptero a seguir um leopardo, a Lightning, que tinha sido resgatada e depois libertada na natureza, quando avistou, subitamente, um oásis no meio do deserto. Descobriu que a terra pertencia a um antigo executivo da Shell, que cultivava uvas numa pequena parcela dos seus 14.500 hectares. Van Vuuren desceu para avisar sobre a presença do grande felino na sua propriedade e apaixonou-se pela vinha — e pelo seu vinho. 

“Voltei e contei à Marlice [van Vuuren, mulher de Rudie] sobre o lugar e ela perguntou apenas: ‘Há água? Como é o terreno? E as estradas?’”. “Eu disse-lhe: ‘Não olhei para nada disso, só para o vinho — e vamos comprar a Neuras’.”

A vinha faz parte de uma propriedade de 14.500 hectares, descrita por Rudie van Vuuren como um verdadeiro "oásis no deserto" (N/a’an ku sê Films)

Em 2011, a vinha e as terras circundantes passaram a integrar o programa de conservação do casal, a Fundação Naankuse.

“Era perfeito”, recorda Van Vuuren. O local podia servir como ponto de libertação de animais para o vizinho Parque Nacional Namib Naukluft “e, além disso, contava com o motor económico da produção de vinho” — cujos lucros poderiam financiar o seu trabalho de conservação.

Sem qualquer conhecimento profissional de vinificação, os Van Vuuren dificilmente chegariam a atingir o máximo potencial. Demorou mais de uma década até encontrarem a pessoa certa para transformar a sua iniciativa a tempo parcial num negócio sério: o enólogo sul-africano Braam Gericke.

Gericke fala da vinificação em termos quase místicos (“não é um trabalho, é uma forma de arte”; “não se muda uma vinha pelo que se quer, são as vinhas que nos mudam”), mas a sua mão experiente trouxe resultados. “Foi ele quem decifrou o código”, reconhece Van Vuuren.

As uvas são cultivadas sob redes para afastar babuínos famintos e kudus (antílopes de grande porte) que vagueiam pela região. Todos os meses de janeiro, meia dúzia de trabalhadores colhem as uvas manualmente entre as 06:00 e as 07:30 em ponto, explica Gericke, antes de o calor intenso se instalar. 

Após 12 a 18 meses de fermentação em barril, o vinho é engarrafado à mão, “à moda antiga”, numa linha onde não se produzem mais de 200 garrafas de cada vinho por temporada.

“Gosto de pensar nisto como a vinificação do Velho Mundo a encontrar-se com a do Novo Mundo”, diz.

O segredo do local está na forma como as vinhas são regadas. Numa região que pode receber apenas 5 mm de precipitação anual, a Neuras tem a sorte de se situar sobre uma bacia com cinco nascentes subterrâneas de água doce.

“É a forma mais pura de água que se pode encontrar”, sublinha Gericke. Segundo o enólogo, a água foi datada por radiocarbono e demorou cerca de 1.800 anos a percorrer o subsolo até chegar às nascentes onde é recolhida e utilizada para regar as vinhas. 

“Quando começámos a ter sucesso, pensámos em expandir a vinha, mas a sanidade prevaleceu”, admite Van Vuuren. Na verdade, explica, um estudo hídrico da propriedade concluiu que a vinha não poderia ser alargada com os recursos de água disponíveis.

“Respeitamos o que a natureza decidiu por nós. Vamos manter a vinha pequena e garantir que a qualidade se mantém, e até melhora com o tempo”, acrescenta.

Braam Gericke (à esquerda), com um membro da equipa, supervisiona a colheita na Neuras (N/a’an ku sê Films)

A capacidade de Gericke e da sua equipa, bem como o tempo e o clima, terão um papel importante no futuro sucesso da vinha.

As alterações climáticas estão a tornar a produção de vinho um negócio cada vez mais volátil. Muitas regiões vitivinícolas em todo o mundo poderão tornar-se inadequadas para o cultivo da uva se o planeta ultrapassar os 2 graus Celsius de aquecimento provocado pelo ser humano, segundo um estudo de 2024. A corrida já começou para os produtores: vinhas estão a ser arrancadas para dar lugar a variedades mais resistentes, e alguns produtores europeus olham para o norte em busca de terrenos com condições de cultivo semelhantes, de forma a proteger o futuro dos seus negócios (veja-se, por exemplo, casas de champanhe a comprar partes de Kent, no Reino Unido).

A Neuras oferece um modelo para o sucesso?

“Cultivamos e produzimos vinho em condições extremas. Calor intenso, pouca chuva e as alterações climáticas só vêm agravar a situação”, reconhece Van Vuuren. “Por isso, em vez de resistir, tentamos aprender a adaptar-nos.”

“A nossa abordagem à gestão da água tem em consideração todos os elementos: a casta, a temperatura, a composição do solo, a profundidade das raízes da vinha. É uma ciência por si só. É preciso ouvir a vinha. Ela diz-nos do que precisa e quando”, prossegue.

E com isto, a Neuras mantém-se atenta às mudanças necessárias. A vinha está a explorar o cultivo de Pinotage, uma casta tinta conhecida pela sua resistência e menor necessidade de água [e que resulta do cruzamento da Pinot Noir e da Cinsault], esclarece Van Vuuren, usando um sistema de espaldeira não convencional e mais adequado a condições de seca.

“Embora a água limite a expansão física, inspira uma viticultura mais inteligente”, garante.

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