Face às sanções impostas pelos países ocidentais, os vinhos russos passaram a representar cerca de 60% do mercado interno
A guerra na Ucrânia e as sanções económicas impostas ao Kremlin alteraram profundamente os hábitos de consumo na Rússia, especialmente no setor do vinho. Onde antes predominavam rótulos franceses e italianos, as prateleiras dos supermercados russos são agora ocupadas, em grande parte, por vinhos nacionais.
Desde que as sanções foram impostas após a invasão da Ucrânia, em 2022, os preços dos vinhos importados dispararam e a oferta de marcas estrangeiras diminuiu drasticamente. Como consequência, os vinhos russos passaram a representar cerca de 60% do mercado interno, uma subida significativa face aos 25% registados há uma década, segundo a Reuters.
De acordo com Yury Yudich, presidente do comité de vitivinicultura da Federação de Restauradores e Hoteleiros, “o vinho russo conquistou uma fatia muito elevada do mercado nacional”, uma mudança que se deve não só ao aumento dos impostos sobre produtos provenientes de “países hostis”, mas também ao esforço de modernização da produção vinícola russa.
Yury Yudich acrescenta ainda que “gradualmente, o mercado começou a mudar e os preços dos vinhos começaram a subir”. Os vinhos importados terão aumentado de preço entre 30% a 40%, mas, apesar disso, muitos consumidores ainda estão a tentar “habituar-se” ao sabor dos vinhos locais.
Vladimir Putin já fez vários elogios à resistência económica da Rússia e tem instado as empresas e os funcionários a procurarem uma forma de escapar às sanções impostas pelos países ocidentais, que o próprio considera ilegais e injustificadas.
A região do Mar Negro, com uma tradição milenar na produção de uvas, tem sido o epicentro desta nova fase do vinho russo. Depois de décadas de declínio causadas por revoluções, guerras civis e campanhas anti álcool da era soviética - nomeadamente sob a liderança de Mikhail Gorbatchev em 1985 -, o setor renasceu graças ao investimento de empresários que adquiriram terrenos para reabilitar as vinhas e modernizar a produção, recorrendo à experiência de enólogos vindos de França e Itália.
Um dos exemplos mais notáveis deste renascimento é a adega Côte Rocheuse, situada perto do Mar Negro. A vitivinicultora chefe e diretora de produção, Irina Yakovenko, explica que a empresa iniciou a venda de vinhos em 2022 e tem aumentado a produção anualmente, diz que “as vendas continuam a aumentar”, embora a produção seja limitada a 500 mil garrafas por ano. As vinhas cultivam castas europeias tradicionais, como Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Chardonnay, mas também castas como a variedade russa Krasnostop Zolotovsky, com origem na região de Rostov.
Apesar da utilização de equipamentos franceses e italianos, os vinhos da Côte Rocheuse possuem uma identidade marcadamente russa, moldada pelo solo e pelo clima locais. Este orgulho nacional reflete-se também nos consumidores, como mostra o testemunho de Galina Romanova, turista que visitava a adega: “Quero que os nossos filhos vejam isto, para que não comprem vinhos italianos ou alemães, mas sim os nossos. Os nossos vinhos são os melhores”.
Com mais de 25 mil sanções aplicadas ao país desde 2014, a Rússia tem procurado fortalecer a sua autossuficiência económica. No setor vinícola, o resultado é visível: uma indústria a revitalizar-se, apoiada por um crescente sentimento de patriotismo e pela necessidade de adaptação a uma nova realidade de consumo.