A 'vinha mais pequena do mundo' produz apenas 29 garrafas por ano – e cada uma custa 5 mil euros

CNN , Jacopo Prisco
1 jan, 19:00
A vinha mais pequena do mundo - traduzido. Fotos: Rossana Mazzieri

Com pouco mais de 18 metros quadrados, a Via Mari 10 produz apenas 29 garrafas de vinho tinto por ano

Tullio Masoni faz um dos vinhos mais exclusivos do mundo, mas não quer que o bebam.

Este empreendedor exuberante, colecionador de arte e antigo gestor de investimentos criou aquela que diz ser a vinha mais pequena do mundo em cima de um palazzo do século XVI no coração de Reggio Emilia. A cidade é famosa por ser o berço da bandeira nacional italiana "tricolore". Está também ensanduichada entre Parma e Modena, numa extensão de terra que deu a Itália algumas das suas exportações mais conhecidas, incluindo os supercarros Ferrari e Lamborghini e marcos culinários como a lasanha, os tortellini, o Prosciutto di Parma e o Ragù alla Bolognese.

O facto de o vinho de Masoni não acabar por ir ter a muitas mesas com tais iguarias talvez faça sentido quando consideramos as suas origens. Ele cultiva as uvas no terraço do N.º 10 da Via Mari – que é a morada do edifício e o nome do próprio vinho – um local notável porque foi visitado em 1859 por Giuseppe Garibaldi, o revolucionário que ajudou a unificar Itália.

Tullio Masoni à entrada do edifício Via Mari 10, que tem renome porque Giuseppe Garibaldi aqui entrou durante uma visita a Reggio Emilia em 1859. Créditos: Rossana Mazzieri

"O meu pai gostava de fazer vinho", disse-nos numa entrevista telefónica. "Herdei uma vinha no campo nos arredores de Reggio Emilia, mas quando vi as contas percebi que iria gastar mais dinheiro do que algum dia ganharia – por isso, vendi-a."

"Porém, 20 anos depois, arrependi-me. Portanto, criei uma vinha de bolso."

Com pouco mais de 18 metros quadrados, a Via Mari 10 produz apenas 29 garrafas de vinho tinto por ano, que Masoni vende então por uma quantia que faz vir lágrimas aos olhos: 5 mil euros cada. Em conformidade com o preço, as garrafas não são vendidas numa loja de vinhos, mas numa galeria de arte - Bonioni Arte – a poucos quarteirões de distância.

As uvas Sangiovese no terraço do prédio Via Mari 10 produzem apenas 29 garrafas de vinho por ano. Créditos: Rossana Mazzieri

"O meu vinho é uma forma de expressão artística, uma provocação filosófica, algo para ter na sala de estar para ser motivo de conversa com amigos e para lhes falar sobre o lunático que pôs uma vinha no terraço", disse Masoni, que compara a sua vinha urbana à obra do artista francês Marcel Duchamp, "Bicycle Wheel", uma roda de bicicleta autêntica que ele montou num banco no seu estúdio em Paris em 1913. Foi a base para a famosa série de objetos comuns de Duchamp que foram apresentados como arte, os chamados Readymades.

"Se virmos uma roda de bicicleta numa sala de estar e não numa oficina, percebemos a beleza que tem", disse Masoni. "A minha vinha é assim: é inesperada, estimula o cérebro, suscita novas ideias."

Arte do vinho

A ligação entre o vinho e a arte começa pela fruta, porque as videiras crescem em treliças que são obras de arte feitas por um escultor local, Oscar Accorsi. "As minhas uvas agarram-se à arte assim que nascem", afirma Masoni.

O vinho é envelhecido em barris de carvalho que também são esculturas de outro artista local, Lorenzo Menozzi, e que pretendem representar um homem e uma mulher. Masoni também pediu a Giuseppe Camuncoli, um conceituado artista de banda desenhada da Marvel nascido em Reggio Emilia, para desenhar uma edição especial do rótulo das garrafas. Em resultado de tudo isto, ele encoraja os compradores a nunca abrirem as garrafas, a tratarem-nas como obras de arte.

"Sou o único produtor de vinho do mundo que diz que não devem beber o seu vinho", disse ele.

Os barris de carvalho são esculturas feitas por um artista local. Créditos: Rossana Mazzieri

As videiras, da variedade Sangiovese, são nutridas com ovos, bananas, algas e excrementos de rouxinol, segundo Masoni, mas ele diz que a “dieta” delas também inclui as vozes do bairro – as rixas, as ofensas e os vários dialetos que enriquecem e contaminam a fruta, dando-lhe uma vantagem relativamente às uvas do campo, que apenas desfrutam do silêncio.

Masoni rejeita a ideia de que o seu vinho pode ser avaliado pelos métodos tradicionais, por exemplo, ao isolar os paladares do seu bouquet. "Não há couro nem bagas vermelhas no meu vinho”, afirmou ele.

O produtor não consegue esconder o seu desdém por aquilo que considera serem os aspetos snobes do mundo do vinho, particularmente o facto de que a maioria dos grandes produtores italianos serem famílias nobres. Isso parece não condizer com o preço do seu produto, mas ele não falou muito sobre os valores reais das vendas, tendo revelado que a maioria das garrafas é oferecida ou adicionada à galeria Bonioni como presente para compradores de peças significativas. Segundo o seu website, restam dez garrafas da colheira mais recente, 2019, tendo já esgotado vários dos anos anteriores.

O vinho é envelhecido e engarrafado no edifício onde a vinha está localizada. Créditos: Rossana Mazzieri

Questionado sobre como é o vinho no copo, Masoni ofereceu algumas notas de prova singulares: "Com o primeiro gole, sentimos muita perplexidade, mas após alguns segundos há algo que ganha vida no palato e nos abre a mente para uma nova dimensão", disse ele, a pesar cuidadosamente cada palavra.
"O meu vinho não oferece tranquilidade, traça antes uma linha vertical vermelha dentro da mente, que transmite uma sensação de velocidade infinita."
Obviamente, a maioria terá de se limitar a acreditar no que ele diz.

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