Setor do vinho em Portugal reconhece que uma tarifa de 200%, como aquela com que Trump ameaça as bebidas alcoólicas da União Europeia, vai penalizar o negócio, até porque os EUA são o nosso segundo maior cliente. Mas, pelas experiências do passado, não acreditam que tal implique despedimentos, fechos de empresas ou destruição de stocks. Por falar em stocks, há quem esteja a adotar estratégias “preventivas”, garantindo que há vinho português suficiente nas prateleiras americanas para os próximos meses
“Vamos apanhar um susto tremendo, vamos ficar arrepiados. Mas o arrepio vai passar, temos é de agir rapidamente”. Esta frase de Duarte Leal da Costa, diretor-executivo da Ervideira, podia resumir o estado de espírito dos produtores de vinho portugueses quanto à mais recente ameaça de Donald Trump.
É que o presidente americano promete tarifas de 200% sobre o vinho, champanhe e outras bebidas alcoólicas da União Europeia se o bloco comunitário não retirar os 50% que quer aplicar ao whisky americano – medida que está integrada num pacote que é a resposta às taxas aduaneiras americanas.
A avançar, o setor do vinho em Portugal também vai sentir os efeitos. Até porque os Estados Unidos da América são o segundo maior cliente das exportações portuguesas: valem 102,1 milhões de euros e têm vindo a reforçar-se a cada ano que passa. Só França vale mais.
E daí que os agentes do setor em Portugal antecipem tempos “terríveis”, de busca de mercados alternativos. Ainda assim, e lembrando outras crises, descartam que consequências extremas – como despedimentos, fechos de empresas, uvas que não são retiradas das vinhas ou destruição de stocks – possam ser uma realidade generalizada. A acontecer, dizem, apenas nas empresas que estavam demasiado expostas ao mercado americano.
Ainda assim, para evitar danos maiores no negócio, há empresas portuguesas a adotar estratégias “preventivas”, garantindo que há vinho português suficiente nas prateleiras americanas para os próximos meses. No caso da Sogrape, seis meses.
A única alternativa: encontrar mercados substitutos (mas vão estar todos a tentar o mesmo)
Quem se dedica ao vinho em Portugal acredita que a negociação e a diplomacia conseguirão evitar o pior. Mas, a acontecer, há um caminho que todos referem: encontrar mercados alternativos.
“Dificilmente encontraremos um mercado que, por si só, possa substituir os Estados Unidos da América”, reconhece Ana Isabel Alves, diretora-executiva da ACIBEV - Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal.
O problema é que Portugal não é o único visado nesta medida. Todos os outros países da União Europeia procurarão que muito do vinho não consumido nos EUA seja absorvido no próprio bloco comunitário.
“É complicado substituir mercados, até porque não existem muitos mercados com a dimensão e o poder de compra dos EUA. Temos de perceber que todos os países vão tentar fazer isso. Vamos ser mais um”, reage Francisco Mateus, presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana. Os vinhos alentejanos estão entre os mais procurados pelos americanos. Nos últimos anos, as exportações cresceram 40%. Hoje pesa 10% do total.
“A concorrência na Europa já era brutal e vai ficar pior. Não é uma situação confortável para Portugal. Em vez do vinho barato, em quantidade, devíamos procurar aumentar o valor acrescentado, mesmo que isso implique vender menos, com estratégias mais criativas e dirigidas aos jovens consumidores”, aponta Paulo Amorim, presidente da ANCEVE - Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas.
Entre os profissionais ouvidos pela CNN Portugal, o Brasil e o Japão apresentam-se como mercados interessantes para procurar superar o bloqueio americano. O Canadá é outro dos exemplos destacados, até porque, na retaliação, será um dos países a importar menos vinho americano. E abre-se todo um mercado para a Europa.
Falências, despedimentos? Só se a dependência dos EUA for grande
O setor do vinho em Portugal já passou por sustos com outros mercados, como o angolano ou o chinês. E aprendeu que o lema de não colocar todos os ovos no mesmo cesto é mesmo a melhor estratégia. Por isso, não se espera que as consequências venham a ser extremas - como despedimentos, fechos de empresas, uvas que não são retiradas das vinhas ou destruição de stocks.
“O mundo não vai acabar, já me deparei com outras crises bem graves. Temos encontrado sempre formas de resistir”, assegura Paulo Amorim, que conhece bem as dinâmicas do mercado americano, onde começou a trabalhar na década de 1980.
Os vinhos alentejanos e os vinhos verdes são aqueles que melhores desempenhos têm tido nos EUA. E, tendo em conta a sua fama, Francisco Mateus não acredita que esta porta se feche na totalidade, mesmo com uma tarifa de 200%, até porque os turistas desta nacionalidade que visitam Portugal continuarão a impulsionar o consumo. “Diria que nos vinhos mais caros, até pelo perfil do cliente, é possível acomodar o aumento nas exportações. O problema será nos vinhos mais baratos, porque perdem muita competitividade”, diz.
E, sendo o preço baixo um dos fatores pelos quais Portugal se destaca neste produto, os receios não se apagam. “Nem quero pensar nas consequências. Em última instância, poderá implicar falência de empresas, uvas na vinha. Sem mercados alternativos, será impossível com este valor e volume de exportações”, diz Ana Isabel Alves.
Empresas portuguesas já se preparam para evitar o pior
Perante a incerteza, que é para muitos a pior coisa que pode acontecer a um negócio, há empresas portuguesas que estão a adotar medidas para evitar o impacto. É o caso da Sogrape, onde o mercado americano representou cerca de 20% das exportações em 2024.
“A Sogrape adotou uma abordagem preventiva ao reforçar o stock no nosso importador nos EUA, para minimizar eventuais perturbações no mercado. Esse reforço ainda está em curso. Antecipar encomendas em períodos de incerteza permite-nos assegurar a continuidade do fornecimento e responder da melhor forma às necessidades dos nossos clientes”, indica João Gomes da Silva, administrador-executivo da Sogrape.
O stock foi reforçado “para garantir cerca de seis meses de disponibilidade” nos produtos considerados “críticos”. “Estamos confiantes de que, independentemente do que aconteça, conseguiremos gerir qualquer impacto e que o nosso negócio continuará a progredir após este período”, junta o responsável.
Protecionismo com danos dentro de portas
Se a guerra comercial no álcool for para manter, há um lesado claro: “os consumidores dos EUA”, porque deixam de ter acesso a toda uma gama de produtos, resume Ana Isabel Alves. A responsável lembra que havia marcas portuguesas a adaptar os seus produtos às peculiaridades do gosto americano.
Se o protecionismo procura impulsionar o consumo de produtos nacionais, a verdade é que ele acabará também por afetar muitas empresas americanas. Paulo Amorim explica que, no contacto que tem tido com importadores daquele país, o receio de fecho de portas está cada vez mais vincado.
“Os importadores americanos dependem dos vinhos europeus para sobreviverem. Não conseguem ter massa crítica apenas com os vinhos da Califórnia, do Chile ou da Argentina”, aponta.
