E agora que já se sabe o que Farioli é, Villas-Boas revela a revolução que o italiano ajudou a fazer no clube - incluindo “mudanças radicais” no balneário dos jogadores, por exemplo
“Ele só me alertou para esse facto agora”, revela Villas-Boas sobre uma conversa curiosa que teve recentemente com Farioli: a primeira vez em que se cruzaram apagou-se da memória de Villas-Boas mas permaneceu na de Farioli. “A primeira vez que me cruzo com ele será no Qatar, ele só me alertou para esse facto agora”, conta Villas-Boas à Renascença, numa entrevista que é um extra do podcast “O Código Farioli”. “O Francesco, quando estava na Aspire, acabou por me seguir no Zenit e no Shanghai SIPG, por conta dos estágios que eu fazia na Aspire [Qatar], no meio das temporadas ou nas pré-épocas, no caso do Shanghai. Portanto, essa é a primeira vez que ele se cruzará comigo enquanto treinador.”
A memória desse encontro sobreviveu melhor na memória de Farioli que na de Villas-Boas, afinal era um tempo em que Farioli ainda não era ninguém no futebol de topo e Villas-Boas já era alguém com vitórias europeias no currículo, mas era também um tempo em que Farioli estava a começar e Villas-Boas estava a caminho de acabar a sua carreira de treinador, houve ainda Marselha antes do fim definitivo. Mas Villas-Boas lembra-se bem de quando ganhou “consciência do treinador Francesco Farioli”: foi “mais pelo seu trabalho em França, quando se afirma finalmente como treinador, como alguém revolucionário nas ideias, no método e na afirmação das suas lideranças”, tão revolucionário que chegou a ser pensado pelo Braga. “No pré-Nice há, evidentemente, o período [de Farioli] na Turquia, no qual há o seu nome associado mais ao Braga, como potencial treinador do Braga”, recorda Villas-Boas.
Entretanto o universo alinhou-se para cruzar outra vez Farioli e Villas-Boas, mas desta vez para que ambos se lembrassem para sempre: uma época de “fragilidades e insucessos” do FC Porto, que é a adjetivação que André Villas-Boas usa nesta entrevista para se referir a 2024-2025, e um campeonato que Farioli perdeu depois de ter nove pontos de vantagem a sete jogos do fim tornou o reencontro possível e inesquecível.
“Há aqui uma parte que não podemos deixar de relacionar com o fim da aventura de Farioli no Ajax e também o fim do período de Anselmi no FC Porto, após o Mundial de Clubes”, explica Villas-Boas. “Em primeiro lugar, há uma parte que está relacionada com uma análise do que foi a época do FC Porto, a época transata, 2024/25 - todas as suas fragilidades e insucessos, que terminam com o Mundial de Clubes. A partir daí, nós tomámos uma decisão de mudança de treinador e fomos ao mercado estudar o que o mercado oferecia, quais é que eram os treinadores que se identificavam com o perfil do FC Porto, com o que os nossos adeptos exigem, e a partir daí há um treinador que merecia ter tido sucesso no Ajax mas que, se o tivesse tido, seguramente não estaria no FC Porto nesta altura. Portanto, eu acho que a forma como se dá o fim desse campeonato não invalida evidentemente a qualidade do treinador, o seu método, a sua liderança, a forma como lutou por aquele campeonato até ao fim, mas a verdade é que o tornou disponível no mercado e, a partir daí, encetámos os contactos necessários para trazê-lo para o FC Porto.”
Villas-Boas, que concedeu esta entrevista em abril, antes de o FC Porto se ter sagrado campeão, diz que Farioli tinha mais clubes interessados mas o italiano identificou-se sobretudo com um desses clubes. “Há também aqui uma parte de identificação do treinador com o nosso clube, com a nossa mística e também com as propostas que nós lhe fizemos em termos de estrutura, de scouting, de renovação de equipa. (...) Enquanto o Farioli falava com vários clubes, acabou por se identificar com este projeto e com o que este clube oferecia para o trazer para aqui.”
E depois veio uma revolução - que implicou até um novo balneário, máquinas novas para o ginásio e afins. “Apesar de nós termos todas as condições para oferecer no Olival, há melhorias que fazemos permanentemente. Não digo que sejam diárias mas são semanais e mensais - e, no caso do Farioli, houve uma imediata observação de necessidades infraestruturais que podiam melhorar o dia a dia do Centro de Treinos Jorge Costa: por exemplo, nos ginásios - as máquinas que cada um dos preparadores físicos decide que são necessárias para o seu método; nas salas de reuniões; no próprio balneário dos jogadores, que também sofreu mudanças radicais - ao fim de 20 anos, retirámos os jogadores do seu balneário desde sempre e foram colocados noutro sítio, melhorando consideravelmente as suas instalações.”
Fora dos relvados e longe das câmaras, Farioli é “muito próprio, muito calmo, objetivo, um homem consciente das suas ideias e do seu método”, é ainda “um homem afável, de família e de bom trato, de bons costumes italianos e saudável” - tão saudável que é assediado - assediado desportivamente. “Esta é a pessoa que queremos a liderar o FC Porto, de um treinador que é reconhecido a nível europeu, que é assediado a nível europeu também, que se afirma cada vez mais como um dos talentos emergentes a nível de treino e de treinador. (...) E seguramente o entrevistarão e ele assegurará que aqui encontrou estabilidade, que aqui encontrou estrutura, que aqui encontrou ideias e que aqui encontrou uma estrutura que funciona para fortalecer o treinador e o seu método.”