Sem camisolas, sem comida e sem chão: o drama do clube criado por uma figura pública para revolucionar o futebol

18 out, 17:30
Conguito

O Villa Athletic Club nasceu do sonho de Conguito e fracassou rapidamente. No último domingo entrou em campo sem treinador, sem suplentes, com equipamentos emprestados. Os jogadores sentem-se enganados, há jovens a ser alimentados pelos colegas e com um prazo para sair da casa onde estão. Nenhum deles viu um euro. Conguito, dizem, não tem atendido o telemóvel, mas ao Maisfutebol o youtuber e radialista revela que houve investimentos que falharam e que está a fazer tudo para resolver a situação.

Conguito conta nas redes sociais que um dia estava a tomar café com um amigo e juntos tiveram uma ideia. Porque não criar um clube de futebol? Passado um ano, a ideia tinha ganhado forma.

«Ainda parece tudo um sonho. Há pouco mais de um ano, eu e o Luís [Pinheiro] estávamos a ter uma conversa de café a falar de como seria se tivéssemos o nosso clube. E a verdade é que depois dessa conversa passou um ano, juntaram-se amigos, parceiros e aconteceu. Hoje damos-vos a conhecer o Villa Athletic Club, um clube de futebol que vai entrar em competição já nesta época desportiva», anunciou a 5 de agosto.

Conguito, já se sabe, é Fábio Lopes: uma figura pública muito conhecida entre as novas gerações. Youtuber, influencer, radialista da MegaHits e repórter em programas de entretenimento da RTP.

Depois dessa publicação a 5 de agosto, fez apenas uma outra, dez dias mais tarde. E nunca mais falou publicamente do Villa Athletic.

Com ele entraram no projeto outras figuras públicas, nomes como Luís Pinheiro e Rui Simões, também da MegaHits, o produtor musical Benji Price ou até Joana Ornelas, ex-companheira de Bruno de Carvalho. No entanto, quem faz parte da equipa garante que foi Conguito quem sempre tratou de tudo.

Um projeto que seduziu até Edinho, André Carvalhas e Meyong

Voltando atrás, portanto, interessa dizer que durante estes três meses o projeto esteve de pé. Mas nunca se endireitou. Foram contratados vinte jogadores, entre os quais nomes como Edinho ou André Carvalhas, e a esmagadora maioria nunca viu um euro.

Foi contratada uma equipa técnica liderada por Meyong, e que integrava também Marco Tábuas, que nunca viu um euro. Foi contratado Pedro Campos Ribeiro, um jovem diretor desportivo, com experiência no Águeda, que nunca viu um euro.

Até o fotógrafo André Tenente, contratado pelo próprio presidente para criar uma nova forma de comunicação no futebol e para registar as imagens do jogo de apresentação, veio às redes sociais revelar que nunca viu um euro.

A culpa, garantem todos, é de Conguito.

«Há pessoas que vêm para o futebol e não percebem nada de futebol. Se calhar vê futebol na televisão e acha que isso chega, mas não faz a mínima ideia de como funciona. Ele agora está no mundo dele e não imagina como está a situação dos miúdos», diz Meyong ao Maisfutebol.

«Não chega não atender o telefone. Acha que não atendendo, não falando com ninguém, o problema vai desaparecer? Tem de aparecer, pedir desculpa e procurar uma solução.»

Treinar em Samora Correira... para jogar nos Distritais de Portalegre

Basicamente, o conhecido radialista e youtuber inscreveu o clube na Associação de Futebol de Portalegre, declarando que a sede ficava em Ponte de Sor, e montou uma equipa.

Numa entrevista garantiu que queria descentralizar o futebol e dar oportunidades a quem nascia fora de um grande centro urbano. Mas na verdade ao inscrever-se na Associação de Futebol de Portalegre é mais fácil garantir a promoção ao Campeonato de Portugal: há apenas uma divisão distrital, que só tem cinco clubes e muitas vezes o campeão abdica de subir.

Até porque o clube funciona todo em Lisboa: os jogadores têm residência na zona, os que vieram de fora foram colocados numa casa em Vila Franca de Xira, a equipa treinava nas instalações do Samora Correia. Clube com o qual fez um protocolo que nunca foi assinado.

«Por intermédio de uma pessoa foi-nos apresentado o projeto, mas acabámos por nunca assinar contrato. Por uma razão ou por outra a direção do Villa ia adiando. O projeto que me foi apresentado tinha alguma coerência, até porque, tendo em conta a imagem pública de algumas pessoas, podia ter apoios que nós nunca teríamos. Mas rapidamente percebemos que alguma coisa não estava bem», explicou ao Maisfutebol o presidente do Samora Correia.

«Logo de início percebemos que faltavam peças, eram promessas atrás de promessas, nunca havia papéis, falávamos com o presidente, que nos mandava falar com os advogados, que nos passava ao contabilista. Quiseram fazer um clube sem dinheiro, a fiar-se nos patrocinadores. Quem anda cá sabe que quando se conta apenas com o dinheiro dos outros... é complicado.»

Samora Correia empresta equipamentos e equipa vai a jogo sem treinar

A situação do Villa Athletic Club foi-se tornando mais e mais insustentável, até que chegou ao ponto mais baixo no último domingo.

Depois de falhar a primeira jornada da Taça Remax, frente ao Gavionenses, o Villa Athletic foi avisado pela Associação de Futebol de Portalegre que não poderia voltar a falhar outro jogo, sob pena de ficar dois anos impedida de se inscrever.

Mesmo sem treinar há duas semanas, sem receber qualquer salário e sem contar com o apoio da direção, os jogadores uniram-se e foram a jogo frente ao Elvas. Juntaram dinheiro entre eles, deslocaram-se nos carros particulares e apresentaram-se com equipamentos emprestados.

Pelo próprio Samora Correia, aliás.

«Nós ajudámos os jogadores, não o clube. Quando eles nos transmitiram que iam jogo, achámos que devíamos ajudá-los e emprestámos tudo o que precisavam: equipamentos, coletes, pinos», adiantou Tiago Reis, presidente do Samora Correia.

«Tal como os jogadores, também nos sentimos usados pela direção. Utilizou as instalações do clube, a rouparia, tudo isso, e nunca nos pagou.»

Direção alterou password da plataforma da Federação para bloquear a equipa

O Villa Athletic venceu o Elvas por 2-0, num jogo em que levou apenas doze jogadores: onze em campo durante noventa minutos e um lesionado, que não podia entrar, no banco.

«Decidimos ir a jogo à meia noite de sábado e fomos à revelia do presidente. O próprio Fábio Lopes [Conguito] tinha telefonado para a Associação de Futebol de Portalegre e dizer que não íamos comparecer e que o projeto ia acabar. Quando soubemos disso, juntámo-nos e fomos», conta o diretor desportivo Pedro Campos Ribeiro.

«É a nossa dignididade e o nosso trabalho que está em jogo. Fomos a jogo com o nosso dinheiro, honrar o que construímos juntos.»

Ao comparecer no encontro, o plantel evitou que o clube fosse suspenso e garantiu uma margem temporal de três semanas para encontrar uma solução: o próximo jogo do Villa Athletic é só em novembro.

O mais caricato é que o plantel tem vinte jogadores e todos viajaram para Elvas. Nove deles, tal como o diretor desportivo, a equipa técnica e até o massagista, não foram inscritos.

«A direção alterou a password da plataforma da Federação e não conseguimos ter acesso para inscrever mais jogadores. Não pude estar no banco porque não estou inscrito, mas estava na bancada, tal com todo o restante grupo de trabalho», adianta Pedro Campos Ribeiro.

Aliás, para fazer a ficha de jogo, o Villa Athletic teve de pedir ajuda ao Elvas, para aceder à plataforma da Federação com o login do clube adversário.

«Quando fui contactado e falámos do projeto do futebol, achei uma boa ideia. Mas o pessoal tem de ser mais responsável. Há menores que vieram de fora e estão abandonados. Há jogadores que tinham propostas de outros clubes, foram atrás das promessas e agora estão a passar mal. É a vida das pessoas e não se pode brincar com isso», adianta Meyong.

«Houve muita má fé das pessoas que estão à frente do projeto. Mas o grupo que conseguimos formar é muito forte, com miúdos de fibra. Há duas semanas que não treinamos e os jogadores aceitaram ir a jogo, para não perder por falta de comparência e acabar com o projeto de vez. Isto demonstra a determinação dos jogadores.»

Cinco jovens deixados numa casa e com ordem de despejo

Há jogadores a passar dificuldades, mas a situação torna-se mais dramática para cinco jovens, um deles menor de idade. Foram contratados no norte do país, mas são todos estrangeiros. Foram colocados a morar numa casa em Vila Franca de Xira, que entretanto ficou sem água e sem luz.

«Os cinco miúdos já foram informados que terão que sair da casa e não se sabe para onde vão. Eu é que tenho ajudado os rapazes, que ficaram sem chão com esta situação toda. Eu e a equipa, que juntou dinheiro para eles continuarem a alimentar-se», adianta Pedro Campos Ribeiro.

«Três deles andam ainda a estudar e não podem perder a inscrição. Eu é que os tenho levado à escola.»

Pedro Campos Ribeiro vive, ele próprio, uma situação delicada. Natural de Esposende, está em Lisboa por causa de um projeto que considerava promissor.

Numa reunião com a direção,  porém, foi despedido. O próprio Conguito, diz o diretor desportivo, não gostou de algumas perguntas e apontou-lhe a porta de saída. Mas Pedro Campos Ribeiro continua em Lisboa, ao lado do plantel.

«Não vi um euro desde que cheguei. Só vi dinheiro sair. Estou a pagar a casa, a alimentação e a ajudar os miúdos. Infelizmente vim para aqui com os outros jogadores e estarei com esta equipa técnica e atletas até ao fim. Não posso pactuar com isto», adianta.

«Até quando vou aguentar isto? Vou aguentar até a equipa decidir alguma coisa. Até todos decidirmos o que fazer.»

Entretanto os jogadores já entraram em contacto com o Sindicato de Jogadores e foram aconselhados a não falar publicamente sobre este caso. Provavelmente nos próximos dias vai ser feita uma conferência de imprensa para responder a todas as perguntas.

Até lá, Meyong coloca o dedo na ferida.

«Ele fundou o clube, mandou vir jogadores e tem esse compromisso com toda a gente. Ele pediu-me para treinar a equipa e eu estou a treinar a equipa, mas ele desapareceu. Onde está ele? Porque não fala connosco? Não pode vir dizer que vem reformular o futebol, mas depois vê que não consegue e desaparece. De um dia para o outro», afirmou.

«Há jogadores com mulher, com filhos, com casa para pagar. Vieram para aqui porque ele lhes fez promessas e agora estão em grandes dificuldades, sem saber como vão viver. Não se pode brincar com vinte vidas assim. Há um menor que veio de fora. É muito grave. Muito, muito grave. Não pode achar que não atendendo o telefone, as coisas vão passar.»

Conguito reage ao Maisfutebol e diz que está a fazer tudo para resolver a situação

Entretanto, já esta terça-feira, os jogadores planearam ir à porta da Rádio Renascença, do grupo da MegaHits, esperar o presidente. Quando Conguito saiu, ainda só quatro atletas tinham chegado e foram esses quatro atletas que falaram com o radialista e youtuber.

Em conversa com os atletas, Conguito referiu que percebia a situação deles, mas que quem lhes devia dinheiro era o clube: não ele.

Pelo caminho garantiu que estava a fazer tudo para resolver a situação.

Pouco depois, Conguito falou com o Maisfutebol, através de uma declaração escrita, e garantiu que não iria deixar a casa até os menores encontrarem uma solução.

«O Villa Athletic Club nasceu com o propósito de cumprir uma missão maior: ser um clube de oportunidades, impulsionar a carreira e sonhos de jovens atletas, contribuindo ainda para o desenvolvimento de uma região no interior do país, onde, infelizmente, existem cada vez menos jovens. Era este o meu sonho, criar um clube que contrariasse a lógica do negócio, muitas vezes associada ao futebol», começou por referir.

«Humildemente, reconheço que estão a ser dias muito difíceis. Os investimentos iniciais previstos não se concretizaram e estamos a ter algumas dificuldades ao nível de patrocínios diretos com marcas.»

O presidente garante, de resto, que não desistiu do projeto.

«Somos uma equipa pequena, mas dedicada inteiramente ao Villa Athletic Club e a encontrar todas as soluções de viabilização deste projeto, junto das demais instituições», frisou.

«Não desistimos das pessoas. Foi por elas que nasceu o clube. O Villa Athletic Club é delas e não apenas o clube do Fábio Lopes [Conguito]. A equipa de gestão do clube é composta por pessoas que incluem, além do presidente, uma equipa de direção desportiva, técnica e também na área Financeira.  Assumo, humildemente, as minhas responsabilidades e confio que o grupo tudo fará por chegar a uma solução rapidamente.»

Jogadores tentam encontrar investidores e exigem saída do presidente

Meyong e Pedro Campos Ribeiro admitem que foram atraídos exatamente pela grandeza do projeto e pela ambição de criar um clube diferente de tudo o que havia em Portugal.

«A ideia era criar um clube que queria afastar-se dos escândalos do futebol, era um clube para fazer a diferença e afirmar-se com uma atitude positiva. O scouting passou por jogadores que entendiam o projeto. Mas isto já não é um clube, já não é futebol, estamos a falar de vidas.»

Meyong corrobora que «era um projeto diferente».

«A fórmula que eles criaram para fazer isto, fazia sentido. Mas eles venderam-nos que tinham parceiros e patrocinadores, e não tinham nada. Era um projeto de subida, para em dois ou três anos estar num patamar alto do futebol.»

Por isso todos esperam agora que Conguito entregue o clube. Dizem que é a única saída.

«Há jogadores em contacto com investidores para ver se podem tomar conta daquilo. Mas os diretores não querem andar para a frente com o projeto, nem querem passá-lo a outras pessoas que podem tomar conta daquilo. Estamos a ver se alguém pega no clube, mas ele tem de sair. O que é normal, porque já não temos confiança nele. É um bom projeto, mas foi mal planeado.»

Pedro Campos Ribeiro adianta que, enquanto os jogadores continuam a agonizar nesta situação, há uma mensagem que tem de chegar ao presidente.

«Não vale tudo para proteger a imagem.»

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