De ícone liberal no pós-revolução a porta-estandarte das “democracias iliberais”, o perfil do homem que transformou a Hungria e se tornou a grande pedra no sapato da União Europeia - e que, ao final de 16 anos, poderá ser derrotado nas urnas
Quem era demasiado novo ou não prestava atenção à Hungria na viragem do milénio provavelmente não sabe que Viktor Orbán, primeiro-ministro sem interrupções desde 2010 depois de um primeiro mandato entre 1998 e 2002, ganhou estatuto político no país enquanto ícone liberal. Mas para perceber o percurso de um dos mais longevos líderes europeus da atualidade, é preciso ir mais atrás no tempo, ao ano que ditou a queda do comunismo na Hungria e noutros países da esfera de influência da URSS: 1989, ou até antes, quando um jovem Orbán começou a dar cartas enquanto ativista estudantil contra a ditadura.
No ano em que o comunismo chegou ao fim na Hungria, captou mais atenções ao apelar à retirada das tropas soviéticas num evento público de massa, a marcar o enterro dos mártires da revolução de 1956. “Até hoje, 1956 foi a última oportunidade para a nossa nação enveredar pelo caminho do desenvolvimento ocidental e criar prosperidade económica”, disse Viktor Orbán, então com 26 anos. Tinha-se filiado ao Fidesz – então Federação dos Jovens Democratas, hoje Aliança Cívica Húngara – um ano antes, sem que ninguém adivinhasse ainda que viria a tornar-se o rosto do partido durante mais de 20 anos e o responsável pelos seus maiores sucessos.
Quem era demasiado novo ou não prestava atenção à Hungria na viragem do milénio provavelmente não sabe que Viktor Orbán, primeiro-ministro sem interrupções desde 2010 depois de um primeiro mandato entre 1998 e 2002, ganhou estatuto político no país enquanto ícone liberal. Mas para perceber o percurso de um dos mais longevos líderes europeus da atualidade, é preciso ir mais atrás no tempo, ao ano que ditou a queda do comunismo na Hungria e noutros países da esfera de influência da URSS: 1989, ou até antes, quando um jovem Orbán começou a dar cartas enquanto ativista estudantil contra a ditadura.
No ano em que o comunismo chegou ao fim na Hungria, captou mais atenções ao apelar à retirada das tropas soviéticas num evento público de massa, a marcar o enterro dos mártires da revolução de 1956. “Até hoje, 1956 foi a última oportunidade para a nossa nação enveredar pelo caminho do desenvolvimento ocidental e criar prosperidade económica”, disse Viktor Orbán, então com 26 anos. Tinha-se filiado ao Fidesz – então Federação dos Jovens Democratas, hoje Aliança Cívica Húngara – um ano antes, sem que ninguém adivinhasse ainda que viria a tornar-se o rosto do partido durante mais de 20 anos e o responsável pelos seus maiores sucessos.
“O fardo da bancarrota que hoje pesa sobre os nossos ombros”, continuou Orbán naquele discurso marcante em 1989, “é uma consequência direta do facto de a nossa revolução ter sido afogada em sangue e de estarmos a ser forçados a regressar ao beco sem saída do qual estamos agora a tentar sair; de facto, foi nessa altura, em 1956, que o Partido Socialista Operário Húngaro nos tirou o futuro, aos jovens de hoje”.
O ano de 1956 pode não dizer muito à maioria dos portugueses, mas é uma data fulcral para entender a história moderna da Hungria – foi o ano em que uma revolta de 15 dias liderada por jovens estudantes contra o governo comunista conseguiu instalar temporariamente um novo governo sob a liderança de Imre Nagy, antes de tanques soviéticos entrarem pelo país adentro para esmagar a dissidência; milhares de pessoas morreram e mais de 200 mil foram forçadas a fugir pelas suas vidas para países vizinhos.
Nem meio século depois da revolução falhada, nem uma década depois da queda do comunismo húngaro e do seu famoso discurso, Viktor Orbán tornou-se o mais jovem primeiro-ministro da Europa – o ano era o de 1998 e Orbán tinha 35 anos. Ainda antes e já durante esse primeiro mandato governamental, Orbán tomou as rédeas do Fidesz, originalmente um partido liberal, para o transformar num partido conservador de direita, afastando gradualmente todos os seus rivais partidários e vozes críticas do partido. Zsuzsanna Szelényi, que se tinha juntado ao Fidesz em 1988, foi uma das várias personalidades que se desencantaram com o primeiro-ministro e a sua agenda política.
“Para aqueles de nós que se lembram da coragem e da astúcia que Orbán demonstrou nos seus primeiros anos, a sua completa reviravolta política é desconcertante”, escreve Szelényi em Tainted Democracy – Viktor Orbán and the Subversion of Hungary (“Democracia Contaminada – Viktor Orbán e a Subversão da Hungria”, numa tradução livre), livro que publicou em 2022. Szelényi abandonou o Fidesz em 1994, e foi trabalhar para o Conselho da Europa – e foi Orbán quem a impeliu a regressar à política húngara, desta vez na bancada da oposição.
A decisão foi tomada perante o que a agora ex-deputada da oposição define como “a política beligerante e intransigente de Orbán e a sua bajulação em relação a potências como a Rússia de Vladimir Putin”, depois de o Fidesz ter conquistado a sua primeira maioria absoluta parlamentar, em 2010, abrindo caminho a profundas mudanças no país. Desde então, e ao longo de 16 anos, Orbán distanciou-se do liberalismo que o catapultou para a política e dos valores progressistas europeus em detrimento de um conservadorismo cristão alicerçado em relações mais estreitas com autocracias como a Rússia de Vladimir Putin.
A transformação da Hungria
Desde 2010, Orbán transformou a Hungria no que o Parlamento Europeu denuncia como um “regime híbrido de autocracia eleitoral”. Sem certezas sobre como classificar, ele próprio, o sistema que criou, usou várias expressões para o definir na última década e meia, como “democracia iliberal” e bastião da “liberdade cristã”. Do outro lado do Atlântico – onde, em 2016, angariou em Donald Trump outro grande fã depois de se tornar o primeiro chefe de governo em funções a apoiar a sua candidatura à presidência dos EUA – o movimento Make America Great Again (MAGA) de Trump apelida de “conservadorismo nacional” o modelo seguido por Orbán na Hungria.
Um ano antes da primeira eleição de Trump, o então presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, já tinha brincado com a deriva autocrática de Orbán, apelidando-o “ditador” e dando-lhe uma bofetada jocosa na cara durante uma cimeira da UE. O país já estava então em rota de colisão com Bruxelas, por causa de alterações à Constituição e de uma contestada reforma judicial que ameaçava pôr em causa o Estado de Direito e o que está definido nos tratados fundadores do bloco.
Foi em resposta a essas querelas com a UE que o chefe do governo húngaro anunciou oficialmente uma política de “abertura a Leste”, sob o argumento de que o Ocidente e as democracias liberais estavam em declínio e que era preciso fomentar boas relações com países-modelo desse “iliberalismo”, como a Rússia de Putin, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan e a China de Xi Jinping.
Já no verão de 2014, Orbán tinha aproveitado uma palestra na Universidade Livre de Bálványos para anunciar que o sistema húngaro não devia ser pensado em termos de democracia liberal: “O novo Estado que estamos a construir na Hungria é um Estado iliberal, não é um Estado liberal. Não nega os valores fundamentais do liberalismo, como a liberdade, e poderia mencionar alguns outros, mas não faz desta ideologia o elemento central da organização do Estado, contém uma abordagem diferente, específica e nacional.”
Entre as profundas mudanças que implementou contam-se a adoção de uma nova Constituição, a colocação de líderes leais ao Fidesz em instituições estatais e uma reestruturação do sistema eleitoral desenhada à medida para beneficiar o maior e mais popular partido dos últimos 20 anos na Hungria – reestruturação essa que, apesar de todas as sondagens a antecipar o possível fim da era Orbán nas legislativas deste domingo, tornam muito difícil antever realmente quem vai ser o próximo primeiro-ministro do país.
Depois de anos a enfrentar uma oposição fraca e dividida, o Fidesz de Orbán encara pela primeira vez a sua primeira grande ameaça política, na forma de um partido que só ganhou ímpeto nas eleições europeias de 2024, com a entrada em cena de um ex-pupilo Fidesz, Péter Magyar, mais um desencantado com a forma como o seu líder transformou a Hungria num ninho de corrupção e clientelismo.
Os inimigos e o primeiro rival de Orbán
Nas últimas três eleições legislativas, também graças à fragmentação da oposição, Orbán e o seu Fidesz conseguiram sempre encontrar temas populares para vencer as eleições – e graças à forma como o sistema eleitoral foi reestruturado, conseguiram sempre maiorias avassaladoras de dois terços dos assentos parlamentares com apenas metade, ou menos, dos votos populares.
Em 2014, o governo congelou os preços da energia para as famílias – algo impossível na atualidade, sobretudo desde que Trump deu início a uma guerra contra o Irão. Em 2018, veio a resistência à migração e aos refugiados. E em 2022, a capacidade de garantir a segurança dos húngaros num ambiente internacional incerto após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia – incluindo a financeira, considerando como Budapeste continua, até hoje, a comprar petróleo a Moscovo apesar das sanções ao Kremlin.
Este ano, contudo, a estratégia do Fidesz poderá ter falhado o alvo. Ao longo da campanha, Orbán fez promessas vagas sobre os problemas que afetam a população no dia a dia, incluindo a economia estagnada, a inflação e os crescentes custos de vida, e virou o foco para a alegada ameaça representada pela UE e, em particular, a Ucrânia, que acusou de estarem a “declarar guerra” à Hungria.
A poucos meses da ida às urnas, Orbán voltou atrás com a sua palavra de não bloquear um empréstimo de 90 mil milhões de euros a Kiev, após quatro anos de obstáculos e bloqueios na ajuda aos ucranianos, e chegou mesmo a invocar o risco de a Hungria vir a ser atacada pela Ucrânia. Em várias cidades, cartazes de campanha do Fidesz mostram Magyar ao lado do presidente ucraniano e da presidente da Comissão Europeia sob o aviso de que “eles” são um risco e que ele, Orbán, é “a única opção segura”.
Desde 2010, como já escrevia Szelényi no seu livro em 2022, Orbán tornou-se um mestre na “arte de mascarar um regime autoritário como um movimento ideológico”, numa “guinada radical” que trouxe para o seu lado partidos de extrema-direita que veem no primeiro-ministro húngaro o seu porta-estandarte – da AfD na Alemanha ao Vox em Espanha, passando pelo ANO da Chéquia e o SMER da Eslováquia. Mas essa arte pode ter perdido o seu fulgor para uma maioria qualificada dos húngaros.
A braços com sérias dificuldades económicas que só pioraram desde a pandemia Covid, muitos húngaros parecem estar cansados de 16 anos de excessos, corrupção e do afastamento da política externa pós-1989, que visava a integração ocidental e europeia. Hoje, a Hungria é um país numa encruzilhada e, para alguns, a manutenção de Orbán no poder é de extrema importância – a um tal ponto que uma secreta russa chegou a considerar falsificar um atentado contra Orbán para o fazer subir nas intenções de voto e Trump decidiu enviar o seu vice, JD Vance, a Budapeste a cinco dias da ida às urnas.
Assustado, Orbán apostou em pintar o líder da oposição como um fantoche dos liberais, esquecendo-se que, para uma parte do eleitorado, o fantoche é ele, mas da outra barricada. E se há dois anos Magyar conseguiu capitalizar este descontentamento, após tomar as rédeas do partido centrista Tisza para firmar a maior derrota eleitoral da história do Fidesz nas eleições europeias, agora há alguma esperança que consiga deferir o derradeiro golpe no rival. E independentemente do que venha a acontecer, o mundo inteiro está a prestar atenção.