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A "putinização da política global" perdeu um trunfo depois de uma "jogada muito estúpida" de Trump

21 abr, 07:00
Viktor Orbán Hungria Donald Trump EUA (Evan Vucci/AP)

"A queda de Orbán pode ser interpretada como o início de uma tendência". Trump é o novo ativo tóxico dos nacionalistas europeus?

Não foi só o homem forte da Hungria a sair derrotado das legislativas. O presidente norte-americano estava a investir muito e há muito tempo na reeleição do maior aliado "iliberal" deste lado do Atlântico e a sua derrota colossal não é um bom augúrio para os EUA. Ainda assim, dizem os analistas, é demasiado cedo para invocar o início do fim do MAGA e dos seus movimentos congéneres dentro da UE

Não foi só Viktor Orbán que foi derrotado nas legislativas de 12 de abril na Hungria. Depois de 16 anos consecutivos no poder, o primeiro-ministro esperou menos de uma hora após o fecho das urnas para assumir a derrota às mãos do seu ex-aliado tornado rival, o conservador Péter Magyar. E num sinal de que essa derrota se estende além-fronteiras, Donald Trump, o presidente dos EUA que tinha em Orbán um dos seus maiores trunfos deste lado do Atlântico, ficou em silêncio.

Noutro contexto, seria improvável que um presidente dos Estados Unidos prestasse tanta atenção às eleições de um país com menos de 10 milhões de cidadãos no coração da Europa. Mas esta não foi uma eleição qualquer - nem para Orbán nem para Trump. Depois de, em 2016, o primeiro-ministro húngaro ter sido o primeiro chefe de governo da União Europeia (UE) a apoiar a candidatura do empresário à Casa Branca, a relação entre ambos foi-se estreitando ao longo da última década - culminando com Trump a enviar o seu vice-presidente, JD Vance, a Budapeste para apoiar formalmente a recandidatura de Orbán.

Enquanto Trump prometia “matar toda uma civilização” no Irão, e antes de Vance seguir para Islamabad para tentar acabar com a guerra que o presidente norte-americano iniciou no final de fevereiro, o número dois da administração chegou a Budapeste para, ao lado de Orbán, exigir de forma farsesca o fim da interferência externa nas eleições (leia-se, da UE), praticando exatamente esse tipo de interferência.

Dias depois, a 48 horas das eleições, Trump prometeu a Orbán o sustento de “todo o poderio económico dos Estados Unidos” caso o líder do Fidesz fosse reeleito. Já na noite eleitoral - com a contagem parcial dos votos a apontar para uma supermaioria do partido Tisza de Magyar - e ao ser questionado sobre a derrota do seu aliado húngaro, Trump virou costas aos jornalistas sem uma palavra sobre o assunto.

Como refere a revista The Atlantic, “Trump abdicou da liderança global dos EUA, exceto na vertente que se manifesta pela força das armas - mas ainda se considera o chefe de um bloco internacional de extrema-direita e apreciou a visão ampliada do seu próprio poder refletida no espelho que Orbán lhe ergueu, usando a última década e meia para transformar a Hungria num “campo de testes de práticas que Trump está agora a implementar nos Estados Unidos, incluindo a expansão do poder executivo e o ataque às universidades e a outros elementos da sociedade civil”. 

De certa forma, também os esforços internacionais de Trump foram minados por esta derrota. “A queda de Orbán é seguramente um grande revés para os projetos imperiais [dos EUA] na Europa”, defende Nathalie Tucci, diretora do Istituto Affari Internazionali de Itália e investigadora da Johns Hopkins SAIS Europe. Mas "apesar de se tratar certamente de uma derrota numa importante batalha, isso não significa que este seja o fim da guerra”.

Ainda antes da viagem de JD Vance a Budapeste, a cinco dias das eleições, Trump enviou o seu secretário de Estado à capital da Hungria em fevereiro; ao lado de Orbán, Marc Rubio fez a declaração mais arriscada de todas: "O vosso sucesso é o nosso sucesso." (Alex Brandon/AP)

Desde 2010, Orbán cultivou uma rede de think tanks e outras instituições apoiadas pelo governo que, como refere a The Atlantic no mesmo artigo, “tanto cortejam figuras proeminentes do movimento MAGA quanto cultivam novas” - colocando “um aliado de Vance, e um defensor do chamado pós-liberalismo, na sua folha de pagamento em Budapeste”, enquanto a segunda administração Trump “trouxe para Washington jovens assessores com experiência em institutos pró-governo sediados em Budapeste”.

Isso explica porque é que vários analistas estão a encarar a derrota do líder húngaro como uma grande derrota também para Trump e as suas aspirações políticas, dentro e fora de portas. “Com Orbán fora do poder, os canais financeiros que serviram para construir esta estrutura de redes iliberais vai diminuir e isso vai impactar a sua influência”, destaca Zsuzsanna Vegh, analista húngara do European Council on Foreign Affairs (ECFR) e do German Marshall Fund para os Estados Unidos.

Essa estrutura, adianta Vegh, “também tem sido importante para o movimento Make America Great Again enquanto parceiro e enquanto caixa de ressonância” dos movimentos iliberais europeus, na Hungria e em vários outros países - e “ao enfraquecer, esta é de certa forma uma perda também para o MAGA”.

Riscos (mal) calculados

Poucos dias antes das eleições, Zsuzsanna Vegh considerava que a visita de Vance a Budapeste não deveria alterar o pêndulo a favor nem contra Orbán e o Fidesz - “para as pessoas que já se decidiram”, referiu a analista à CNN Portugal, “a visita de JD Vance não influencia em nada e, de qualquer modo, as pessoas veem esta questão do apoio externo através das suas lentes partidárias”. 

Mais de uma semana depois das eleições, contudo, há quem olhe para o apoio da administração Trump ao partido de Orbán como “provavelmente contraproducente”, refere Dave Sinardet, professor de ciência política na Vrije Universiteit Brussel (VUB), algo que “certamente não ajudou o Fidesz” numas eleições cujo resultado “mostra que os líderes de extrema-direita devem ter cuidado com laços demasiado estreitos com figuras como Trump”.

É a mesma ideia que o ministro belga da Defesa e do Comércio já tinha partilhado nas redes sociais um dia antes das eleições húngaras. “Acho que o apoio de Vance foi uma jogada de campanha muito estúpida [que] não ajuda ninguém na Hungria”, escreveu Theo Francken. “Sou um político de direita e penso que a extrema-direita está a agir de forma muito tola. Os apoiantes do MAGA deviam mesmo parar de fazer campanha a nível internacional, porque tudo e todos aqueles que apoiam acabam por perder as eleições. Chumbo em vez de ouro. A melhor publicidade para a esquerda. É de loucos.”

Nas eleições da Hungria, não foi a esquerda quem mais ganhou com a derrota de Orbán - afinal, Péter Magyar, o próximo primeiro-ministro, também é conservador e soberanista, ainda que um pouco mais europeísta do que o rival. Mas também não foi a esquerda a grande derrotada. Com o fim do reinado Orbán, os movimentos mais amplos que representam a “putinização da política global”, nas palavras do jornalista russo Mikhail Zygar, perderam o seu maior porta-estandarte dentro da UE - do MAGA nos EUA à AfD na Alemanha, passando pelos casos da Polónia e de Itália.

"A queda de Orbán pode ser interpretada como o início de uma tendência em que a derrota de Giorgia Meloni no referendo em Itália se explica, em parte, pela impopularidade de Trump e pela associação dela a ele", refere Nathalie Tocci à CNN Portugal (Getty Images)

Na Polónia, a influência do movimento que esteve na base da reeleição de Trump foi notória há um ano, quando uma maioria dos eleitores deu a vitória ao nacionalista conservador Karol Nawrocki nas presidenciais, dias depois de Trump ter enviado a sua secretária de Segurança Nacional a Cracóvia para o apoiar. E no caso italiano, a atual primeira-ministra já acusa um certo cansaço com os riscos políticos de aceitar publicamente o apoio de Trump e do MAGA.

Como explica Nathalie Tocci, a recente derrota de Giorgia Meloni no referendo constitucional que convocou para limitar os poderes do Ministério Público e dos tribunais “explica-se, em parte, pela impopularidade de Trump e pela sua associação a ele - o que justifica o risco calculado que Meloni assumiu ao condenar os ataques de Trump ao Papa”.

Sucesso = sucesso, derrota = derrota?

O presidente dos EUA encontra-se abertamente do lado dos perdedores, uma posição que não lhe agrada e que não será esquecida por via do seu silêncio, sobretudo dada a quantidade de fichas que tinha apostado na reeleição de Viktor Orbán.

Meses antes de mandar Vance a Budapeste, Trump já estava a investir bastante capital político nas eleições húngaras, tratando-as como uma disputa política interna, com todas as implicações que isso acarreta. “Adoramos o Viktor”, disse Trump no ano passado, diante de homólogos europeus numa cimeira para a paz no Médio Oriente. “És fantástico”, acrescentou, dirigindo-se ao líder húngaro. “Sei que muitas pessoas não concordam comigo, mas sou o único que importa.”

Com a aproximação das eleições, o apoio de Trump a Orbán chegou a misturar-se com campanhas à reeleição de legisladores republicanos apoiados pelo presidente, que na Truth Social elogiou Orbán como o protetor da “LEI E ORDEM”. O seu filho mais velho, Donald Trump Jr., chegou a falar diretamente aos húngaros - “esperamos que votem no amigo e aliado do meu pai, um líder na Europa [que] tem uma linha direta para a Casa Branca, espero que apoiem Viktor Orbán!” Mas a declaração mais arriscada de todas veio do secretário de Estado, Marco Rubio, que numa visita a Budapeste em fevereiro declarou sem rodeios: “O vosso sucesso é o nosso sucesso.” 

Contudo, sendo imenso o peso simbólico desta derrota para Trump, isso não significa que o fim do iliberalismo na Hungria seja o início do fim para os seus movimentos congéneres, mesmo que, dentro dos EUA, haja quem sublinhe as lições destas eleições em ano de intercalares, numa altura em que a popularidade de Trump continua em queda livre. “A queda de Orbán pode ser interpretada como o início de uma tendência, mas infelizmente as tendências podem mudar num sentido ou noutro”, ressalta Nathalie Tocci. Dias depois da entrevista, no passado domingo, a Bulgária, outro Estado-membro da UE, elegeu um primeiro-ministro eurocético e pró-Putin.

No rescaldo da vitória de Magyar na Hungria, Cas Mudde, um cientista político neerlandês que estuda a extrema-direita há várias décadas, concedeu que os resultados desmentem o discurso fatalista que “exagera descaradamente” a fraqueza da democracia perante proto-autocratas - e destacou o facto de, por enquanto, não existirem líderes de extrema-direita dentro da Europa com o peso e a relevância de Orbán capazes de tomar o seu lugar.

Ainda assim, Mudde deixou uma advertência contra ilações apressadas de que a derrota do homem forte da Hungria possa ser prenúncio de derrotas semelhantes da extrema-direita populista e eurocética noutros países, por exemplo, nas eleições presidenciais de França daqui a um ano. E desengane-se quem acha que a esfera de influência de Trump e do seu movimento MAGA na Europa foi finalmente destronada.

“As estruturas ainda estão em vigor, pelo que não espero um desaparecimento total, a questão será quem vai sobreviver, quem não vai e como é que o financiamento se vai transformar”, diz a analista húngara Zsuzsanna Vegh, invocando a rede de institutos criada por Orbán. “Será um teste interessante para ver se os EUA querem pôr a Estratégia de Segurança Nacional em prática - e se poderão continuar a financiar forças de extrema-direita e soberanistas na Europa.”

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