Como o russo Viktor Bout, cuja libertação deixou algumas pessoas "muito enojadas", foi apanhado há alguns anos (dava um filme)

9 dez 2022, 22:00
Viktor Bout

Libertado na sequência de uma troca de prisioneiros entre os Estados Unidos e a Rússia, Viktor Bout era um influente traficante de armas que sabia falar - dizia ele - 18 línguas, entre as quais o português. A forma como foi apanhado parece um filme de ação

Já passava das 10 da manhã quando Viktor Bout aterrou no aeroporto de Suvarnabhumi, em Banguecoque. O calor e o ar húmido faziam-lhe manchas no polo laranja que vestia, juntamente com umas calças caqui e uns ténis. Chamou um táxi e, sem demoras, dirigiu-se para o Sofitel, um hotel luxuoso no centro da capital tailandesa.

Durante os 30 minutos que demorou a chegar de táxi, um vasto corpo de agentes da D.E.A. (agência norte-americana de combate ao narcotráfico) e da polícia tailandesa davam entrada, em grupos de dois para evitar chamar demasiado a atenção, num dos quartos do vigésimo andar do hotel. Foi ali que improvisaram um centro de operações.

Bout estava descontraído, tanto que quando passou na imigração mostrou instintivamente os seus documentos pessoais. “Mucho gusto”, disse Viktor quando encontrou Carlos, um guatemalense que se tinha apresentado como um guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e que o esperava no bar do hotel. Tinha sido Carlos que tinha proposto o encontro. Era 2008 e precisava de armas para atacar o exército norte-americano. 

Viktor pediu um chá quente com limão. "Lamento muito o que aconteceu há alguns dias", disse a Carlos, referindo-se a um ataque militar colombiano que tinha matado Raúl Reyes, um comandante de topo das FARC. “A perda de amigos é muito triste."

Os dois avançaram para o elevador e subiram até ao vigésimo oitavo andar, onde os esperava Ricardo, que foi introduzido a Viktor como um comandante das FARC. Entraram para a sala de conferências e sentaram-se numa longa mesa que pouco tempo depois foi preenchida por um mapa. A sala tinha janelas grandes que iam do chão até ao teto, revelando um horizonte preenchido por prédios - quase todos mais baixos do que a sala onde estavam os três reunidos. “Vamos fazer uma lista daquilo que precisam”, assegurou Viktor.

"Preciso de mísseis antiaéreos que possa disparar contra os helicópteros Apache", disse Ricardo. "Quantos?", perguntou Bout, que ia anotando armas e quantidades, numa mistura de russo, inglês e espanhol - três de 18 línguas que afirmou à revista The New Yorker saber falar, incluindo o português, que aprendeu no Instituto Militar de Línguas Estrangeiras em Moscovo. Uma proficiência que lhe valeu um destacamento para Angola e Moçambique nos anos 80, quando as ex-colónias começaram a fazer parte dos planos soviéticos. 

Cem mísseis ‘Igla’; cinco mil AK-47; dez milhões de munições; duzentas e cinquenta espingardas Dragunov; vinte mil granadas de fragmentação; setecentos e quarenta morteiros; dois tipos de lança-granadas. Carlos interrompeu Viktor enquanto ele escrevia tudo num bloco de notas para perguntar se conseguia arranjar explosivos C-4. “Quantas toneladas são necessárias?" Carlos e Ricardo disseram que uma tonelada seria suficiente. "Temos cinco", disse Viktor Bout.

Viktor Bout detido/ AP News

Viktor nasceu a 13 de janeiro de 1967 em Duchambé, a antiga capital da República Socialista Soviética do Tajiquistão, na Ásia Central. Estudioso das línguas, filho de uma contabilista e de um mecânico de automóveis, Bout foi recrutado para o exército soviético quando tinha 18 anos depois de competir no voleibol durante a adolescência. Em 1995, quando tinha 28 anos, começou a passar tempo nos hangares de carga do Aeroporto Internacional de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, acabando por lançar a sua companhia aérea de carga, a Air Cess, com uma pequena frota de aviões russos que entregavam mercadorias em África e no Afeganistão. 

Nos anos que se seguiram, com a queda da União Soviética, Viktor Bout ajudou a alimentar guerras civis em várias partes do mundo, fornecendo armas mais sofisticadas, por vezes a ambos os lados dos conflitos sangrentos - foi uma das principais fontes de armas da UNITA durante a guerra civil em Angola após as eleições falhadas de 1992. "Se eu não o fizesse, outra pessoa o faria", justificaria anos mais tarde.

Os alarmes sobre a sua atividade começaram a soar quando soldados britânicos em África começaram a ser atacados por armas cada vez mais sofisticadas. O “mercador da morte”, como foi descrito por Peter Hain durante uma intervenção na Câmara dos Comuns, possuía “companhias aéreas que transportavam armas e outro apoio logístico para os rebeldes em Angola e na Serra Leoa”, era pago em diamantes e incitava as populações contra os soldados britânicos.

Nos Estados Unidos, o Departamento do Tesouro avançou com sanções contra Viktor Bout e as suas empresas, congelando as suas contas e transações em bancos americanos. Mas o seu negócio era tão dissimulado por empresas de fachada que o governo dos EUA chegou a contratar involuntariamente duas das suas empresas para entregar fornecimentos às tropas americanas no Iraque. 

Viktor Bout a ser levado pela DEA/ AP

Em 2007, a Drug Enforcement Administration (DEA) concebeu um plano para atrair Viktor Bout para fora da Rússia com um negócio de armas que seria difícil de recusar. Para isso, a agência de segurança contratou um agente infiltrado. Chamava-se Carlos, um antigo traficante de droga na Guatemala que, após ser preso, se tornou informador para a DEA.

Sem saber que o homem à sua frente tinha um microfone diretamente ligado ao vigésimo andar, Viktor Bout ofereceu-se para fornecer às FARC drones e aviões ultraleves equipados com lança-granadas, que eram "muito bons para derrubar helicópteros". Bout inclinou-se sobre o mapa e desviou o seu dedo para sudeste a partir da Nicarágua, através da Colômbia, parando em Manaus, uma cidade no norte do Brasil. Depois de largar as armas na selva controlada pelas FARC, um avião dele iria aterrar em Manau cheio de farinha, como forma de desviar as atenções.

"Aqueles gringos já não nos vão matar durante o sono", reagiu fascinado Ricardo, que não sabia falar inglês e, como tal, tinha-se mantido calado quase durante todo a reunião. "Os gringos são inimigos", concordou Viktor, acrescentando que, para ele, “não é negócio - é luta". Viktor contou-lhes que tinha lutado contra os EUA durante "dez a quinze anos". “Resistência de um homem só”, comentou. Carlos e Ricardo riram-se.

Momentos após Viktor Bout e Carlos se levantarem para apertar a mão e fechar o negócio, polícias tailandeses e agentes da D.E.A. irromperam pela porta da sala de conferências. "Mãos ao alto", ordenaram os tailandeses. "Estão presos."

Momentos mais tarde, Tom Pasquarello, diretor regional da D.E.A. em Banguecoque, encontrou Viktor sentado calmamente à mesa da sala de interrogatórios da divisão policial. Tom Pasquarello perguntou-lhe se percebia aquilo que se estava a passar. “O jogo acabou”, disse o detido. Quando foi informado que Carlos era um agente infiltrado, Viktor disse apenas: "Se tudo está gravado, então tem todas as cartas em cima da mesa".

Viktor Bout foi extraditado para os Estados Unidos em 2011, onde foi condenado a 25 anos de prisão por tráfico de armas para as FARC da Colômbia. Dentro das grades era visto como um herói e um preso político pelos jornais e canais de informação estatais russos. Moscovo chegou mesmo a organizar uma exposição de quadros por ele pintados na cadeia.

Talvez o seu estatuto e as suas façanhas - ou as suas ligações aos serviços secretos militares russos, que sempre negou - tenham sido aquilo que esta sexta-feira tenha selado a sua liberdade, naquela que foi a mais desigual e improvável das trocas de prisioneiros entre a Rússia e os Estados Unidos.

A liberdade de Viktor Bout, tido como um dos maiores traficantes de armas de sempre, foi trocada pela libertação de Brittney Griner, jogadora de basquetebol que foi condenada a cumprir pena numa colónia penal russa por posse de um único grama de óleo de canábis.

"Estou muito enojado com isto", disse Derek Maltz, que supervisionou a investigação da D.E.A. sobre Viktor Bout, numa reação à troca de prisioneiros à ABC News. "É muito frustrante para mim." Maltz acrescentou que "foi pedido à D.E.A. que ajudasse a derrubar este tipo porque ele era uma ameaça à segurança nacional". Com a sua libertação, “todos os americanos estão em maior risco durante as viagens internacionais", conclui.

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