ENQUANTO A CURA NÃO CHEGA 2/3 || O diagnóstico do VIH/SIDA já foi uma sentença de morte. Passado, porque a investigação científica tem permitido chegar a novas formas de tratamento. Hoje, já é possível controlar o vírus com um comprimido diário. Em breve, essa frequência poderá passar a semanal ou mensal. Em Portugal, no serviço público, com o mesmo objetivo, já são administradas injeções a cada dois meses. Os médicos reconhecem que ajudam os pacientes a esquecer o vírus e o estigma a ele associado. Quando recebeu o diagnóstico, Cristina Calca nunca imaginaria tamanhas mudanças. Assim como não imaginaria que seria à custa deste vírus que, 30 anos depois, havia de reencontrar um namorado de juventude. Estão ambos orgulhosamente “indetetáveis e intransmissíveis”. Este é o segundo de três capítulos desta reportagem da CNN Portugal.
Houve um tempo em que o único caminho era morrer de SIDA. Quando o vírus explodiu, na década de 1980, prometeu-se uma vacina em poucos anos. Até aos nossos dias, o mundo continua à espera dessa cura. E, apesar do tempo que passou, há coisas que nunca cicatrizaram.
Cristina Calca, hoje com 54 anos, soube que era seropositiva há cerca de 15 anos. “Foi como se tivesse caído uma bomba. Não assumi a doença. Omiti a todos. Nunca fui a consultas durante três ou quatro anos. Achava que ia morrer, como o António Variações ou o Freddie Mercury. Acreditava que ia ficar numa maca. Então, se era para morrer, não precisava de medicação. Deixei-me morrer”.
O que Cristina não poderia imaginar era a forma como o tratamento do VIH/SIDA mudou nos últimos tempos. E todos os caminhos de investigação que estão a permitir terapêuticas mais intervaladas. Do “cocktail” de comprimidos – mais de 30 por dia – é possível hoje controlar a infeção com apenas um comprimido diário. Em regra, as pessoas com VIH tomam entre um e três comprimidos por dia. No caso de Cristina, já foram três, agora são dois.
Uma “revolução” em curso
Os médicos portugueses que todos os dias lidam com esta infeção concordam que está em curso uma “revolução” no tratamento do VIH/SIDA. “Não há comparação, nem em termos de efeitos secundários da terapia, que hoje são bem menores, nem pela facilidade de fazer essa mesma terapia, hoje com um comprimido por dia”, argumenta Robert Badura, médico e investigador no GIMM – Gulbenkian Institute for Molecular Medicine.
Eugénio Teófilo, médico infeciologista no Hospital Santo António dos Capuchos, concorda: “Houve uma revolução nos últimos cinco, seis anos. Há outra que está para vir, a muito breve prazo”.
E o que se pode esperar? “Vamos passar do comprimido para outras formas de administração. Claro que o comprimido se vai manter. Nesta altura, há ensaios que estão a começar para termos comprimido uma vez por semana. E, possivelmente, o comprimido mensal também será exequível”.
Injeções a cada dois meses: uma ajuda para também esquecer a infeção
Quando Eugénio Teófilo fala de “outras formas de administração” refere-se também à terapêutica injetável. Neste momento, já está disponível no SNS a toma, a cada dois meses, de duas injeções que permitem controlar o VIH.
O futuro, garantem os especialistas, passa por alargar ainda mais este intervalo. Já existe inclusive um medicamento em formato injetável que permite a aplicação de seis em seis meses.
Como em tudo, na terapêutica injetável de dois em dois meses que está disponível no SNS, há vantagens e desvantagens.
“A vantagem é que não precisa de ser tão rigoroso, uma vez que não tem de tomar o comprimido todos os dias. Não pode é falhar na toma de dois em dois meses”, começa Robert Badura. Ainda assim, o investigador reconhece que este intervalo pode causar alguma reticência nos doentes, porque percebem que têm de se dirigir ao hospital mais vezes. Hoje, fazem-no de seis em seis meses para uma avaliação geral do seu estado de saúde.
“Há muitos doentes que referem o cansaço da terapêutica. Há pessoas que referem que, quando tomam a medicação, fazendo-o todos os dias, isso fá-las lembrar do VIH. O facto de ser menos frequente acaba por ser benéfico para a maioria dos doentes”, atesta Eugénio Teófilo, lembrando também que as deslocações – por exemplo, ao estrangeiro – se tornam mais simples.
Há é um desafio: esta medicação injetável tem de ser feita “forçosamente num hospital”, o que obriga a que o SNS se organize para receber estes pacientes com uma frequência maior do que a atual.
Controlar o vírus em quatro semanas
Uma das grandes vantagens das novas terapêuticas retrovirais para o VIH/SIDA está no facto de permitirem ao doente, no melhor dos cenários, conseguir controlar o vírus, tornando-o indetetável, em quatro semanas. Todavia, para ser validado como tal, são necessários seis meses efetivos de medicação.
Ora, quando o vírus se torna indetetável, não pode ser transmitido a outra pessoa, uma vez que a carga viral é tão baixa que não tem força suficiente para promover essa infeção.
“O que eu gostava de transmitir é que esta doença não é o fim do mundo, não é um bicho de sete cabeças como era há 30 ou 40 anos. A medicação pode levar-te a ficares indetetável e intransmissível”, explica Cristina Calca.
Um reencontro à custa do vírus
Cristina Calca trabalha na Abraço, associação que dá apoio a quem vive com VIH/SIDA. Foi assim que, trinta anos depois, reencontrou João Antunes, hoje com 54 anos. Ele, que vinha à procura de apoio para lidar com o diagnóstico recente, tinha sido namorado dela na juventude.
“Quando ele entrou, como faço com qualquer utente, perguntei se precisava de ajuda, se queria beber um café”. Foi quando Cristina lhe entregou a bebida que João juntou as peças: eles já se conheciam.
“Sempre tive dentro de mim a memória de uma mulher que me cativou, que me prendeu. Fomos namorados. Morávamos a 100 metros de distância”, recorda João.
Hoje vivem juntos. E têm enfrentando a infeção do mesmo modo. Quando se pergunta o estado do VIH neles, respondem em uníssono: “indetetável e intransmissível”. “Dentro de mim, o vírus está adormecido”, simplifica João. “Aceitei o diagnóstico com naturalidade, porque não podia ser de outra maneira”. Quando soube que era seropositivo, João Antunes já estava internado, com o sistema imunitário prestes a colapsar.
O casal admite que é mais fácil lidar com uma infeção quando há alguém ao lado que partilha as mesmas dúvidas e ansiedades. “Acho que fui o colo do João”, diz Cristina. E ele apressa-se a completar. “E o João foi o colo da Cristina”.
Arrumar os medos do passado
Com esta “revolução” na terapêutica, há medos do passado que perdem força. Um diagnóstico já não é sentença de morte. Embora esses tempos continuem bem frescos na memória.
“Todas as pessoas que já ouviram falar do que foi a epidemia de SIDA nos anos 1980, 1990, carregam dentro de si um medo, um medo lógico, da morte. Era uma infeção que não tinha tratamento”, aponta Leandro Buenno, de 31 anos, seropositivo que pudemos conhecer no primeiro capítulo desta reportagem.
Em Portugal, todos os anos são diagnosticados cerca de 900 novos casos. E há cerca de uma centena de mortes a registar. Contudo, os óbitos acontecem já numa fase avançada da vida de quem contraiu o vírus, sobretudo mais de 20 anos após o diagnóstico.
O primeiro caso de VIH/SIDA a ser identificado em Portugal teve lugar em 1983: um cabeleireiro que tinha emigrado para o Canadá e que tinha sido expulso daquele país após o diagnóstico. Todavia, o vírus já teria chegado antes ao país, com doentes vindos da Guiné-Bissau, que apresentavam sintomas em tudo similares.
Desses primórdios e dos anos que se lhes seguiram, ficam as memórias. “Tenho amigos que chegaram a andar com uma sacola com a medicação. A medicação evoluiu imenso. E é eficaz”. Se soubesse o que sabe hoje, Cristina nunca teria sequer pensado em deixar-se morrer.
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VERSÃO TELEVISIVA: Enquanto a cura não chega: como a “revolução” no tratamento está a mudar a única pandemia que não teve fim